Em tempos de eleição, multiplicam-se os candidatos que visitam cultos, recebem orações de pastores, citam versículos e exibem publicamente sua fé. Alguns colocam títulos religiosos no nome de urna. Outros apresentam-se como representantes de Deus, da Igreja e da família.
Nós também somos cristãos. Cremos que o Evangelho alcança toda a vida, inclusive a participação política. Por isso, não defendemos que os cristãos abandonem o debate público. O que nos preocupa é o nome de Jesus ser usado como cabo eleitoral para conquistar votos e legitimar propostas, comportamentos e alianças que contradizem seus ensinamentos.
Uma pesquisa publicada pela revista Opinião Pública, da Unicamp, analisou 5.035 postagens de candidatos a prefeito nas eleições de 2020. O estudo constatou que candidatos que usavam o título de pastor davam mais destaque a referências religiosas e questões ético-morais. A religião, portanto, pode funcionar como um importante recurso de comunicação eleitoral.
Mas frequentar uma igreja não faz de ninguém o candidato dos cristãos. Defender pautas associadas aos evangélicos também não transforma automaticamente uma candidatura em expressão do Reino de Deus.
Não cabe a nós declarar quem é ou não salvo. Podemos, contudo, avaliar uma reivindicação pública: quando alguém se apresenta como candidato cristão para receber o voto dos cristãos, seu discurso e seus frutos devem ser examinados à luz da Bíblia.
1. O nome de Jesus virou credencial?
Jesus advertiu seus discípulos sobre pessoas que aparentavam pertencer ao povo de Deus, mas cujos frutos revelavam outra realidade. Em Mateus 7:15-23, a advertência trata diretamente dos falsos profetas. Em Lucas 6:43-45, Cristo também ensina que uma árvore é conhecida por seus frutos.
Esses textos não foram escritos como um manual para eleições. O princípio, porém, permanece verdadeiro: declarações religiosas não bastam para comprovar fidelidade.
Uma oração em público, uma fotografia dentro da igreja ou um versículo publicado nas redes sociais podem expressar uma fé sincera. Mas também podem ser recursos de marketing. Antes de reconhecer alguém como candidato cristão, devemos examinar sua trajetória, suas alianças, suas decisões e sua maneira de tratar as pessoas.

A pergunta não é apenas “o que ele diz sobre Jesus?”, mas: quais frutos públicos esse candidato apresenta?
2. Ele está comprometido com a verdade?
O nono mandamento proíbe dar falso testemunho contra o próximo (Êxodo 20:16). Provérbios 12:22 afirma que os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor. Em Efésios 4:25, Paulo ensina que abandonar a mentira faz parte da nova vida em Cristo.
Isso também vale durante uma eleição.
Muitos eleitores condenam as mentiras dos adversários, mas compartilham informações falsas quando elas favorecem o próprio candidato. No entanto, uma mentira não se torna justa porque ajuda uma causa que consideramos correta.
É preciso observar se o candidato divulga boatos, acusa sem provas, retira falas do contexto ou manipula o medo dos eleitores. Também devemos perguntar se ele corrige informações falsas quando a verdade contraria seus interesses.
Um candidato cristão deveria demonstrar compromisso com a verdade até quando ela prejudica sua campanha.
3. A conduta confirma o discurso?
Nenhum candidato é perfeito. O cristianismo ensina justamente que todos pecaram e necessitam da graça de Deus. Entretanto, reconhecer que todos somos pecadores não torna a conduta pública irrelevante.
Provérbios 28:13 diferencia quem encobre suas transgressões de quem as confessa e abandona. Em Mateus 3:8, João Batista exige frutos coerentes com o arrependimento. Tiago 3:13 ensina que a sabedoria deve ser demonstrada por uma boa conduta.
Arrependimento não é apenas pronunciar um pedido de desculpas. Ele produz mudança, reparação e novos frutos.
Quando confrontado com um erro, o candidato reconhece o que fez? Corrige uma informação falsa? Aceita fiscalização? Presta contas? Afasta aliados envolvidos em práticas ilícitas?
Ou culpa adversários, imprensa, instituições e supostas conspirações?
A pergunta necessária é: há arrependimento e prestação de contas ou apenas justificativas religiosas?

4. Ele deseja servir ou dominar?
Em Marcos 10:42-45, depois de uma disputa entre os discípulos por posições de destaque, Jesus mostra que os governantes das nações exerciam domínio sobre as pessoas. Entre seus seguidores, porém, a grandeza deveria aparecer no serviço.
O próprio Cristo é o modelo: ele não veio para ser servido, mas para servir e entregar sua vida.
Na política, o desejo de servir pode ser substituído facilmente pela busca de poder, autopromoção e vingança. Por isso, devemos observar como o candidato trata críticos, adversários, jornalistas, instituições e pessoas que não podem lhe oferecer votos ou vantagens.
Autoritarismo, culto à personalidade, crueldade e desejo de vingança não se tornam virtudes cristãs quando são acompanhados por orações.
Quem usa o nome de Cristo precisa responder: entende a autoridade como serviço ou como direito de dominar?

5. Ele busca justiça para todos?
Alguns candidatos procuram o apoio das igrejas prometendo cargos, recursos, benefícios ou privilégios. Essas promessas podem favorecer determinadas instituições, mas não representam necessariamente a justiça ensinada pela Bíblia.
Levítico 19:15 proíbe favorecer tanto o pobre quanto o poderoso em um julgamento. Miquéias 6:8 reúne justiça, misericórdia e humildade. Em Romanos 13:3-4, a autoridade civil é apresentada como serva para a promoção do bem, não como propriedade de um grupo religioso.
O governante administra uma sociedade plural. Por isso, a liberdade religiosa defendida para evangélicos precisa alcançar católicos, judeus, muçulmanos, religiões de matriz africana, outras crenças e também quem não professa religião.
Buscar vantagens somente para o próprio grupo é corporativismo religioso. O candidato cristão deve ser avaliado por seu compromisso com a justiça para todos, inclusive para quem jamais votará nele.
6. Como ele trata os vulneráveis?
O debate político cristão costuma concentrar-se em aborto, sexualidade e família. São questões relevantes, mas a ética bíblica não termina nelas.
Em Isaías 1:16-17, Deus rejeita uma religiosidade que convive com a injustiça e ordena que seu povo proteja o oprimido, o órfão e a viúva. Zacarias 7:9-10 reúne justiça, misericórdia e cuidado com os vulneráveis. Tiago 1:27 afirma que a religião pura inclui cuidar de órfãos e viúvas em suas aflições.
A defesa da vida precisa considerar a vida inteira.
Por isso, o eleitor deve examinar o que o candidato propõe para crianças depois do nascimento, famílias com fome, pessoas sem moradia, idosos, pessoas com deficiência, vítimas de violência e trabalhadores explorados. Também deve avaliar suas propostas para saúde, educação e segurança.
Isso não significa transformar um programa partidário na única opção cristã. Significa reconhecer que os mais fracos não podem desaparecer de nossa avaliação política.
A pergunta é: quem é vulnerável aparece concretamente nas propostas desse candidato?

7. Suas promessas são responsáveis?
Uma proposta pode parecer moral, compassiva ou corajosa e, ainda assim, ser inviável ou produzir consequências graves.
Provérbios 14:15 ensina que o ingênuo acredita em tudo, enquanto o prudente examina seus passos. Provérbios 21:5 valoriza os planos feitos com diligência. Já Provérbios 18:17 adverte que a primeira versão de uma história parece correta até ser confrontada.
Esses textos não apresentam um programa de governo. Eles ensinam prudência, investigação e responsabilidade.
Antes de aceitar uma promessa, o eleitor deve perguntar quanto ela custará, de onde virão os recursos e se o cargo disputado possui autoridade para realizá-la. Também precisa examinar a equipe do candidato, seu histórico de entregas e os possíveis efeitos da medida.
Boa intenção não substitui competência. Uma proposta não se torna cristã apenas porque utiliza uma palavra bíblica.
O cristão precisa conservar o discernimento
Esses sete testes não revelarão um candidato perfeito. Ele não existe. O objetivo é impedir que uma identidade religiosa dispense a avaliação séria do caráter, das propostas, da competência e da trajetória de quem pede nosso voto.
O eleitor cristão não deve entregar sua consciência a partido, pastor, celebridade, grupo de mensagens ou candidato. Nenhum político pode receber a lealdade que pertence somente a Cristo.
Podemos participar da política e defender nossas convicções. Mas precisamos conferir informações, comparar propostas, ouvir mais de uma fonte e reconhecer também os erros do candidato que apoiamos. Devemos recusar a mentira até quando ela beneficia o nosso lado.
Jesus não precisa de cabo eleitoral. Nenhum candidato recebeu procuração para falar em seu nome.
Presidentes passam, partidos mudam e governos terminam. Cristo, porém, continua sendo o Senhor. A esperança final do cristão não está nas urnas, mas no Reino de justiça e paz que ele consumará.









