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22 de julho de 2024
segunda-feira, 22 de julho de 2024

Cristãos e as eleições #2: a necessidade de uma consciência integral

*A partir da semana que compreende o dia 6 de abril – quando faltarão exatamente 6 meses para as eleições municipais de 2024 (6 de outubro) – a coluna Fé Pública publicará semanalmente textos nos quais pastores e demais líderes abordarão aspectos bíblicos que consideram necessários para cristãos levarem em conta na hora de escolherem seus representantes. 


Crente e Política: Por que o crente precisa ter consciência sobre todos os aspectos de sua vida para a glória de Deus?, por Lisarb Nascimento*

Cristãos e as eleições #2: a necessidade de uma consciência integralQuem me conhece sabe que eu valorizo muito conceitos e fundamentos. Então, para mim, é essencial estabelecer as bases da reflexão que proponho neste artigo.

A palavra “política” vem do grego πολιτικός (politikos), significando “algo relacionado aos grupos sociais da Pólis [cidade]”. Isso nos leva à filosofia platônica, que influencia a organização política da sociedade ocidental. No sentido mais amplo, política envolve governança, Estado e poder, além da habilidade de negociar interesses. Pretendo explorar essa “habilidade de negociar interesses”, mas antes, há outros elementos a considerar.

No relato da criação, antes do pecado de Adão, Deus instruiu o homem e a mulher com tarefas claras: serem fecundos e multiplicarem-se (Gn 1.28), cuidar do jardim (Gn 2.15), absterem-se do fruto proibido (Gn 2.16-17) e nomear as criaturas (Gn 2.19-20). Essas diretrizes estabelecem uma governança divina direta, sem hierarquia entre homem e mulher. A serpente incitou a desobediência que levou Adão e Eva à queda, culminando na expulsão do paraíso e à alteração da ordem estabelecida (Gn 3.5-24).

Nota: é óbvio que na tradução para o português está no singular e direcionado ao homem, porém representei alguns dos verbos no plural por causa do uso da palavra “homem” como representante da humanidade – até aquele momento, no relato do Gênesis, homem e mulher – segundo alguns biblistas e tradutores.

Por suposição minha, normalmente quando falamos de política, no senso comum, a primeira coisa que vem à cabeça é política partidária eletiva. Então você pode estar se perguntando qual a relação deste assunto com a política eleitoral.

Antes de abordar sobre isso, é interessante explorar um outro aspecto mencionado anteriormente. Recorda-se de quando destaquei a “habilidade de negociar interesses” como um dos conceitos de política? De fato, na Bíblia, alguns personagens “negociaram” com Deus e, em certa medida, obtiveram sucesso. Por exemplo:

– Ana, mãe do profeta Samuel, orou fervorosamente e fez um voto a Deus, resultando no nascimento de Samuel (1Sm 1.6-20);

– Moisés intercedeu pelo povo de Israel após o episódio do bezerro de ouro, pedindo a Deus que perdoasse suas transgressões e o povo foi preservado por causa da intercessão (Êx 32.31-32);

– Jacó lutou com um anjo e insistiu em receber uma bênção, o que lhe foi concedido, e seu nome foi mudado para Israel (Gn 32.24-30);

– Rei Ezequias orou por cura quando estava mortalmente doente, e Deus lhe concedeu mais 15 anos de vida (2Rs 20.1-6);

cristãos Deus
A primeira eleição bíblica, a do Rei Saul, foi uma espécie de rebelião contra o governo teocrático de Deus

Esses exemplos mostram que, embora a negociação com Deus possa parecer diferente da política do dia-a-dia – a tal habilidade de negociar interesses – ambos envolvem a comunicação de desejos e a busca por resultados favoráveis, seja em um contexto vertical com Deus ou horizontal entre homens.

A eleição do rei Saul,  “A República” de Platão e os princípios bíblicos para os cristãos

Agora, retomando a abordagem da política eleitoral, embora ainda não seja de forma direta aos nossos moldes contemporâneos, a história da eleição do rei Saul é bastante relevante.

Durante o período dos juízes, Israel era uma teocracia direta, na qual Deus era o governante supremo e os juízes, como Gideão e Samuel, atuavam como seus representantes terrenos (Jz 2.16-19). O povo de Israel deveria obedecer a Deus para receber suas bênçãos ou enfrentar consequências em caso de desobediência (Jz 2.20-23).

A eleição de Saul como rei é narrada em 1Sm 9-10. O povo pediu a Samuel, o último dos juízes, um rei para ser como as outras nações (1Sm 8.5), e Deus instruiu Samuel a ungir Saul, da tribo de Benjamim, como o primeiro rei de Israel (1Sm 9.15-17; 10.1). Este evento marca a transição de uma teocracia para uma monarquia, onde o povo passou a ter um rei humano como governante.

A primeira eleição bíblica foi uma espécie de rebelião contra o governo teocrático de Deus, demonstrando a soberba humana e a rejeição do relacionamento direto com o Criador.

De Saul até o Império Romano, o povo de Deus teve reis justos e injustos, narrados em 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, e 1 e 2 Crônicas. Viveram guerras, exílios e retornos do cativeiro, como descrito em Esdras, Neemias, Isaías e Jeremias.

Mas para compreender as bases da política ocidental e a relação do cristão com esse tema, é importante lembrar do livro “A República” de Platão (por volta de 380 a.C.). Como pessoas salvas que estão neste mundo, mesmo sendo cidadãos dos céus, é crucial entender nosso papel aqui e como interagir com a cultura (Rm 13), transformando-a para Deus [pela renovação do nosso entendimento] quando isso glorificar Seu nome.

A Bíblia oferece princípios para fundamentar nossa conduta de fé, tanto no engajamento cívico quanto no exercício político, seja nas relações cotidianas ou nas eletivas e na governança para o bem comum.

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Reedição do livro “A República” de Platão: o filósofo classificou os sistemas políticos em três tipos, baseados em quem governa e se o foco é o bem geral ou interesses próprios

Este breve resumo das relações entre o povo de Deus e a política serve como contextualização para o Novo Testamento, onde consideramos o período da graça após a ascensão de Jesus e a descida do Espírito Santo. Agora, não temos mais mediadores além do próprio Deus homem, que ascendeu aos céus e é o caminho, a verdade e a vida, sem o qual é impossível chegar ao Pai (Jo 14.6).

Sistemas de governo e a responsabilidade sobre a criação

Antes de prosseguir, é muito importante destacar que, no Novo Testamento (NT), os sistemas econômicos Capitalismo ou Socialismo não eram conceitos existentes, portanto, não se aplicam a essa análise, nem como anacronismo. No entanto, desde a Grécia até o domínio e estabelecimento do império de Roma, havia uma compreensão clara do que caracterizava um bom ou mau sistema de governo.

Platão, por exemplo, classificou os sistemas políticos em três tipos, baseados em quem governa e se o foco é o bem geral ou interesses próprios:

1. Monarquia: Um governa para o bem geral. Se corrompido, torna-se uma Tirania;
2. Aristocracia: Poucos governam visando o bem geral. Se corrompido, torna-se uma Oligarquia;
3. Politieia: Muitos governam para o bem geral. Se corrompido, Platão referia-se a isso como Democracia;
(Flavio Morgenstern, Aula aberta. Filosofia & Linguagem)

Desde os últimos governos anteriores até o atual, o interesse dos brasileiros por política tem aumentado, mas muitas vezes falta a disposição para a instrução e verificação, como – em exemplo paralelo – a dos bereanos, que foram elogiados pelo Apóstolo Paulo por examinarem as Escrituras para confirmar a veracidade do que lhes era ensinado sobre a fé (At 17.11).

E, como mencionado anteriormente, Deus nos instruiu a dominar e sujeitar as coisas criadas (Gn 1.28). Isso sugere que o conhecimento e a cultura, como parte da criação, são áreas nas quais somos co-criadores, refletindo a imagem de Deus, imago Dei, no ato criativo.

Após refletir sobre o papel da política na cultura e na fé, é importante considerar nossa responsabilidade ao escolher representantes governamentais, tanto para o Legislativo quanto para o Executivo.

Vivemos em uma democracia [por imposição factual] onde, idealmente, muitos deveriam governar pensando no bem comum, Politeia, em contraste com a tirania ou oligarquia onde os governantes agem por interesse próprio.

A Bíblia nos chama a exercer domínio e responsabilidade sobre a criação (Gn 1.28), e isso se estende ao nosso envolvimento cívico. Devemos nos perguntar como glorificar a Deus em nossas escolhas eleitorais e como nos preparamos para participar conscientemente do processo eleitoral. Independentemente dos resultados, somos chamados a honrar e orar por nossas autoridades (Rm 13.1-7), pois elas são instituídas por Deus.

Quando Deus anunciou o cativeiro através do profeta Jeremias, Ele instruiu o povo a continuar vivendo suas vidas, casando-se e buscando o bem da comunidade onde estavam exilados, prometendo que Ele os vingaria por amor ao Seu nome (Jr 29.4-7). Jesus ensinou a dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22.21), e o Novo Testamento nos orienta a abrir mão de direitos por amor a Deus e a orar por aqueles em autoridade.

Cristãos e as eleições #2: a necessidade de uma consciência integral
Lisarb Nascimento é professor da Escola Bíblica Dominical (EBD) na Primeira Igreja Batista de Vitória

Mesmo honrando nossos líderes, devemos buscar ativamente maneiras de melhorar as circunstâncias adversas, seguindo o exemplo de personagens bíblicos como Ester, que não se omitiu diante de uma crise (Et 4.14-16).

Cargos minoritários e majoritários

1. Cargos Minoritários:

a. O cargo e votos pertencem ao partido/coligação, não ao candidato individualmente. É prudente avaliar os partidos e candidatos com base em princípios cristãos, excluindo da sua lista aqueles que se opõem a valores como direito à vida do bebê no ventre da mãe e as liberdades individuais como direito da inviolabilidade da propriedade privada, liberdade de expressão, liberdade religiosa, etc;

b. Dos partidos alinhados com princípios de liberdade e bem comum, é importante identificar os candidatos mais qualificados e com maior possibilidade real de assunção do cargo. A Bíblia nos encoraja a buscar líderes sábios e justos (Pv 29.2);

c. Vereadores e Deputados têm o papel de fiscalizar o Executivo e criar leis que promovam o bem-estar da sociedade, limitando a intervenção estatal indevida (Rm 13.3-4). As questões de privilégios para pessoas em desempenho de cargos eletivos e também do foro privilegiado pode ser contrastada com a justiça divina, que é imparcial e aplicada a todos igualmente (Cl 3.25).

2. Cargos Majoritários:

a. O cargo e votos são atribuídos ao candidato. É essencial escolher candidatos que defendam direitos fundamentais e estejam comprometidos com o bem comum;

b. O Executivo propõe políticas [temas a serem negociados] e executa as leis determinadas pelo Legislativo. Decisões tomadas pelo Legislativo podem ser vetadas pelo Executivo, mas o Legislativo tem a palavra final. A administração dos recursos é uma responsabilidade do Executivo, que deve ser feita com integridade e sabedoria (Lc 16.10-12).

Uma vez eleitos, os oficiais são instituídos por Deus. Devemos orar por eles e buscar em Deus sabedoria para viver de maneira que O glorifique até a próxima eleição (1Tm 2.1-2).

Cidadania exercida de forma consciente e ética

Refletindo sobre a importância dos fundamentos políticos e o papel do cristão na sociedade, é possível encontrar inspiração nas Escrituras para um envolvimento ativo e responsável no processo político.

Os cristãos são chamados a serem abençoadores da sociedade, exercendo sua cidadania de forma consciente e ética, orientados pelos princípios bíblicos. A Bíblia nos encoraja a respeitar as autoridades (Rm 13.1-7) e a buscar a justiça (Mq 6.8), promovendo assim transformações positivas que refletem os valores do Reino de Deus. Cada cristão é incentivado a compreender melhor a política e a assumir seu papel como agente de mudança, glorificando a Deus em todas as áreas da vida (1Co 10.31), inclusive na política.

Daí você me pergunta: E como fica a relação entre Estado e Religião? É lícito ao crente abster-se de participar do processo eletivo? Como conciliar um engajamento político [partidário ou não] e uma vida de fé bíblico-cristã?

E eu te respondo: Vamos continuar falando sobre o assunto nas próximas publicações sendo a vontade de Deus.

Que Deus nos dê sabedoria e ação para a glória dEle, em nome de Jesus.

*Lisarb Nascimento é servo do Deus Altíssimo como marido da Carol, pai de Elis, Maria e Théo e como professor de EBD (Escola Bíblica Dominical) na Primeira Igreja Batista de Vitória (PIB Vitória)

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Comentários
  1. Essa vontade de estar em sintonia com os valores que Deus nos fala em sua palavra , é o que deveria mover os cristãos numa eleição . Ótima reflexão

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