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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024

Cristãos e as eleições #7: em busca de pacificadores

A busca por pacificadores, por Gustavo Gouvêa*

Cristãos e as eleições #7: em busca de pacificadores“Procurai a paz da cidade para onde vos fiz transportar; e orai por ela ao Senhor, porque, na sua paz, vós tereis paz” (Jeremias 29.7)

“Façam todo o possível para viver em paz com todos” (Romanos 12.18)

“Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14)

“Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança” (Salmos 34.14)

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5.9)

Talvez você deva estar pensando: “Não dá para ter paz com o mundo, porque quem se torna amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus” (Tiago 4.4).

É verdade. Isso não é plenamente possível, porque, enquanto cristãos estamos comprometidos a servir, obedecer e agradar nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo e não a homens, conforme afirmou Pedro diante do Sinédrio quando instado a não pregar o Evangelho: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29); ou Paulo aos Gálatas diante da distorção do Evangelho por representantes do judaísmo: “Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1.10).

Diante de um dilema entre obedecer ao mandamento de Deus ou se curvar à lei dos homens, as Escrituras Sagradas deixam claro que todo o cristão decidirá obedecer ao seu Senhor, ainda que isso lhe traga perseguições ou mesmo custe a sua vida (Mateus 5.10-12).

O Senhor Jesus, ao realizar a sublime “oração sacerdotal” ao Pai por seus discípulos, clamou: “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou” (João 17.14-16).

Ou seja, definitivamente, não somos do mundo, estamos por aqui de passagem para glorificar ao nosso Senhor com uma vida de obediência. Sendo assim, não estamos em busca de ter paz “com o mundo” a qualquer custo, porque isso seria inevitavelmente negociar princípios inegociáveis da fé cristã para ter paz. Isso é omissão, é covardia, é pecado. Em outras palavras, é negar o Senhor que nos mandou obedecer aos Seus mandamentos (João 14.21) – Ele não abre adendos para negociá-los ou relativizá-los.

A paz no que for possível

Mas precisamos, sim, buscar a paz em tudo aquilo que for possível, dentro das verdades, valores e princípios bíblicos que encontramos correspondência com a vida secular. Quando esses valores e princípios forem diametralmente opostos à revelação de Deus em Sua Palavra, o nosso papel é de denúncia profética. O próprio Jesus diz: “…a mim ele [o mundo] odeia, porque eu dou testemunho a respeito dele, dizendo que as suas obras são más” (João 7.7).

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A cultura ocidental é fundada levando em conta muitos dos valores e princípios do cristianismo, nos quais ainda é possível encontrar correspondência visando pautas legítimas (Foto: Freepik)

Felizmente, nós vivemos no Ocidente – até pouco tempo éramos chamados de “sociedade cristã ocidental”, embora a característica “cristã” esteja cada vez menos em evidência, por conta do relativismo religioso e do pluralismo filosófico. Mesmo assim, nossas estruturas social, política e legal levaram em conta muitos dos valores e princípios do cristianismo – embora, obviamente, por causa do pecado tudo isso esteja manchado e sendo cada vez mais desprezado. Isso significa que, em vários pontos podemos concordar enquanto uma sociedade diversa – lembrando, sempre, que, enquanto membros da Igreja do Senhor fazemos parte de uma “sociedade alternativa” como Povo de Deus, que O serve e O obedece em primeiro lugar.

Existe uma frase atribuída a Martinho Lutero, ícone da Reforma Protestante, que diz: “a paz se possível; a Verdade a qualquer preço”. Isso é muito coerente e verdadeiro. No que for possível, sem comprometer nossa lealdade a Deus, tenhamos paz. Mesmo assim, sem jamais deixar de pregar a Verdade do Evangelho de Jesus Cristo.

Pacificadores em um país dividido

Perceba as instruções que os versículos em destaque no início do texto nos dão. Jeremias 29.7 nos deixa claro que devemos “procurar a paz da cidade” e “orar por ela ao Senhor”, no contexto do cativeiro babilônico – algo semelhante do que vivemos hoje, diante de uma cultura mundana, babilônica. Romanos 12.18 nos insta a “fazer todo o possível” para viver em paz com todos e, em Hebreus 12.14 é imperativo que devemos nos esforçar “para viver em paz com todos”. No Salmo 34, Davi nos instrui a buscar a paz “com perseverança”.

Para arrematar, nosso Senhor Jesus Cristo afirma que a busca pela pacificação é uma característica nata daquele que nasceu de novo (Mateus 5.9), que é um “filho de Deus” (João 1.12-13).

Agora olhemos para a realidade brasileira. Nosso País está dividido em dois polos ideológicos desde o ano de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) foi reeleita. A partir dali o antipetismo começou a ganhar força, o impeachment da petista aconteceu e o ex-presidente Jair Bolsonaro se tornou o representante da “mudança”. Não vou entrar em pormenores ideológicos. Somente citei este fato para mostrar que nosso País está dividido faz uma década.

São 10 anos que, na vida prática dos brasileiros nada tem progredido. Estamos lutando ideologicamente uns contra os outros, desfazendo amizades, insultando e quebrando laços com aqueles que chamamos de irmãos, dilacerando nossas próprias famílias, muitas vezes por causa de “políticos de estimação” que se tornaram ídolos em nossas vidas. Temos que encarar essa verdade, que é vergonhosa para nós enquanto Igreja de Cristo.

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Pelo menos desde a corrida eleitoral de 2014 o Brasil encontra-se dividido politicamente; a divisão se concretizou com o impeachment de Dilma (2016) e se acirrou com a ascensão de Bolsonaro e sua eleição em 2018 (Foto: Silvia Izquierdo/AP Photo)

Quando, em nome de quaisquer ideologias humanas e efêmeras (ainda que contenham um ou outro valor evangélico), desobedecemos ao nosso Senhor, em atitudes de desamor ao próximo, estamos nos portando como ímpios, verdadeiros idólatras, dando antitestemunho, colocando pedras de tropeço, fechando a porta dos céus aos perdidos com nossas atitudes iníquas. Em outras palavras, estamos tratando aquilo com mais importância do que o Senhor, fazendo desse objeto de adoração política o nosso senhor, nosso deus.

E foi isso que mormente, nós, evangélicos, fizemos nas últimas eleições e, infelizmente, continuamos muitas vezes a fazer, deixando a carne falar mais alto do que o Espírito. Entretanto, precisamos “levar todo o pensamento para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10.5).

Precisamos de políticos pacificadores

Jesus vai dizer que “um reino separado não subsiste” (Marcos 3.24-27), e podemos aplicar isso a uma nação também: uma nação separada não subsiste. Talvez, por isso, estejamos patinando como nação há mais de uma década. Óbvio que os diversos escândalos de corrupção nos revoltaram, nos atrasaram e exigem mudanças; as iniquidades das lideranças em nome de suas ideologias são abomináveis, mas precisamos buscar aliar interesses naquilo que é possível balizados por nossa fé, no que é comum a nós como nação.

Ninguém – ninguém! – vai enfiar o Evangelho goela abaixo dentro da política brasileira, fazendo todos os valores evangélicos sobressaírem. Não fomos chamados para isso (Evangelho é serviço humilde, não domínio altivo; é convencimento do Espírito, e não da carne), não existem messias políticos e não é mais possível implantar uma teocracia num mundo plural. O pastor e apologeta Voddie Bauchman afirma que “o problema do salvador político é que ele teria que ser um político, e não um profeta”. Em outras palavras, se a política é a arte de aliar interesses, ao dar uma carta branca para qualquer político que seja, confiando totalmente nele – sendo que nós só confiamos totalmente em nosso Deus – sem vigiá-lo, tratando-o de forma acrítica, estamos pecando, colocando-o no patamar do único Messias, de Deus. Estamos sendo idólatras.

Mesmo cristãos que estejam na política – oro a Deus que levante cristãos realmente vocacionados para a área da política, e não aproveitadores oportunistas, que infelizmente é o que mais temos visto ultimamente – devem ser vigiados por nós, a partir da Palavra de Deus. Isso é um cuidado que a Igreja deve ter com esse irmão, no sentido de encorajá-lo em pautas justas e corrigi-lo quando se enveredar por pautas que ferem os princípios bíblicos. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3.16)

O papel da Igreja é profético. É encorajar o que é essencialmente bom de acordo com a Verdade revelada de Deus e denunciar tudo o que diz respeito à impiedade e escarnece do nome do Senhor.

Seria muito desejável que tivéssemos verdadeiramente cristãos vocacionados na política representando não somente os interesses da igreja enquanto instituição – pelo amor de Deus, isenção fiscal não é uma dessas pautas! – mas os interesses do povo brasileiro como um todo dentro dos princípios da justiça. Oremos por isso, porque, sinceramente, na minha humilde visão (e como eu quero estar errado!), temos pouquíssimos verdadeiramente vocacionados. O que vejo mais são aproveitadores querendo uma fatia do poder e dando vasão a pautas fruto de suas ambições egoístas.

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O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, cristão protestante, ganhou o Nobel da Paz em 2019 por sua iniciativa decisiva para resolver o conflito com a vizinha Eritreia, no Chifre da África. O prêmio foi concedido por causa da atuação de Ali, em cooperação com o presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, na elaboração dos princípios de um acordo de paz entre os dois países. O tratado colocou fim a 20 anos de uma guerra que deixou mais de 80 mil mortos (Foto: Michael Tewelde/AFP)

Algo muito importante de se comentar também é o proceder de famosos políticos (não vou citar nomes) que são representantes do público evangélico, mas que, em suas condutas e testemunho, revelam pouco ou quase nada das características do Senhor a quem dizem servir. Mas isso é assunto para outro artigo.

Como é possível promover pacificação no Brasil atual?

Somente políticos realmente habilidosos – e, por isso, verdadeiramente vocacionados – conseguem promover a pacificação, sem deixar seus princípios de lado. Mas como seria possível promover a pacificação no Brasil polarizado? Bom, creio que essa resposta seja extremamente difícil, haja vista nossos 10 anos de guerra ideológica. Mas vou me arriscar a dar alguns pitacos, balizados por princípios bíblicos e por minha vivência enquanto cristão jornalista e pesquisador.

Primeiro, e mais importante, em nossa vida pública, Deus nos insta a amar o próximo, pois, aquele que não ama o próximo, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê (1 João 4.20), sendo, portanto, um hipócrita. Na prática, nosso amor a Deus é demonstrado pelo nosso amor ao próximo. E existe um “amor político” que temos a oportunidade de demonstrar enquanto – graças a Deus! – vivendo em um país democrático.

Sendo assim, a dignidade da vida dos brasileiros, criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1 e 2) deve ser prioridade para todo o cristão. Meu compatriota vive em condições decentes de vida? Ele está alimentado? Vive em um ambiente seguro? Vive em condições sanitárias decentes? Tem acesso a educação de qualidade? À saúde de qualidade? Tem um trabalho decente que o permita trazer comida para casa e arcar com as necessidades de sua família? Tem os seus direitos básicos assegurados? Quando pensamos nisso, pensamos inevitavelmente, no bem-estar das famílias brasileiras. Família é algo muito caro para nós, cristãos.

O olhar para o próximo e, sobretudo, para aqueles que mais necessitam, é uma constante na Palavra de Deus. Leiam o artigo dessa mesma série intitulado “A simpatia de Deus para com os pobres”, no qual o pastor Jorge Rodrigues Neto fala com propriedade sobre este aspecto.

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No Brasil 80 milhões de pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus vivem na pobreza ou na extrema-pobreza (Foto: (Cristiano Mariz/VEJA)

Precisamos também, obviamente, vivermos em um país seguro e justo, onde existam iniciativas diversas para promover a segurança pública – que envolve, também, um olhar amoroso às regiões menos vulneráveis, não somente com atuação policial, mas com educação, assistência social, saúde, infraestrutura e outras iniciativas que levem qualidade de vida a esses locais.

Precisamos que nossas leis sejam eficientes, que realmente funcionem para todos, sem tratar com preferência pessoas privilegiadas social e politicamente. Precisamos que haja um investimento na ressocialização efetiva de pessoas que foram punidas no rigor da lei, sendo privadas de liberdade. Do contrário, sofreremos dobrado com a violência, visto que nossas cadeias são conhecidas, atualmente, como “universidades do crime”.

Precisamos que nossas empresas tenham condições de operar dentro de uma carga tributária justa que, ao invés de atrapalhá-las, deem condições para que operem com eficiência dentro da legalidade, gerando riquezas, emprego e renda para nosso País.

Essas são algumas das pautas que, alicerçados em princípios e valores da Palavra de Deus, temos em comum com a maioria da população de nosso País, seja ela cristã ou não, e que devemos lutar politicamente em conjunto para que sejam concretizadas.

Encontrando correspondência nos espectros políticos

É possível encontrar correspondência entre essas pautas tanto na direita, quanto na esquerda e no centro. Não estamos pregando aqui, como esclarecido desde o início, uma “união a qualquer custo”. Claro que existem pautas que, enquanto cristãos, entendo que devemos discordar diametralmente, como o direto ao aborto, liberação das drogas, ideologias de gênero, cerceamento da liberdade religiosa, políticas que promovam aumento da desigualdade socioeconômica, políticas que privilegiem pessoas mais abastadas, políticas que sucateiem a saúde e educação, políticas que promovam a degradação do meio ambiente e muitas outras. Nesses casos, devemos ser o contraponto, a voz profética.

Mas é possível darmos as mãos no que é comum a nós enquanto uma sociedade plural e diversa.

Diante de tudo isso, te pergunto, visando sua reflexão pessoal: Qual é o político que você procura? Aquele que faz questão de ressaltar como prioridade seus distintivos (secundários) e trabalhar para acirrar cada vez mais a polarização que não nos deixa progredir enquanto nação; ou aquele que faz questão de trabalhar os pontos que temos em comum para promover a pacificação de nosso País, se esforçando de forma íntegra e sem trair suas convicções, para que nosso povo possa viver em paz?

“Procurai a paz da cidade para onde vos fiz transportar; e orai por ela ao Senhor, porque, na sua paz, vós tereis paz” (Jeremias 29.7)

“Façam todo o possível para viver em paz com todos” (Romanos 12.18)

“Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14)

“Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança” (Salmos 34.14)

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5.9)

Deus te abençoe com sabedoria para fazer as melhores escolhas!

*Gustavo Gouvêa é jornalista profissional, editor da coluna Fé Pública, mestre em Ciências Sociais e bacharel em Teologia

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Comentários
  1. Bom texto…

    Há algum tempo descobrir em grupos de conversas que a paz reina no diálogo. No silêncio gera hipocrisia e rancor. Jesus demonstrou isso até no momento do seu julgamento onde diante da acusação ” você é rei dos judeus?” Ele responde; “tu o dizes”. Dialogo. Não precisou ofensas ou coisas parecidas. No texto citado de Romanos 12 é muito interessante, principalmente a partir do verso 9 onde Paulo está tratando de virtudes e já começa: “o amor seja sem hipocrisia”, “amai-vos cordialmente”, ” no zelo não sejais remisso”… até chegar “no que depender de vós”… Não precisa discutir e ofender, abrir divisões ou “adotar políticos de estimação”, mas para que haja paz é necessário diálogo. Não haver respeito vai de falta de educação até mau zelo com a palavra do Senhor. Defender as ideias contidas em princípios bíblicos faz parte. Orar pela paz e conversão dos políticos é obrigação e ordenança, não se trata de querer convencer o outro da sua postura ou posição, mas mostrar com amor e graça a sua postura bíblica. Não posso esquecer, grande parte das igrejas e cristãos nos dias atuais estão terceirizando a tarefa social incumbida a eles, transferindo que são os políticos os responsáveis e não são é função dos salvos e remidos em Cristo. Que o Senhor nos ajude na tarefa da paz com diálogos verdadeiros e respeitosos.

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