Sempre que a nação de Israel entra em um conflito, como está em curso contra o Irã, uma pergunta reaparece entre muitos cristãos: o que está acontecendo com Israel hoje é cumprimento direto das profecias da Bíblia?
Para milhões de evangélicos ao redor do mundo, a resposta parece simples. A criação do Estado de Israel em 1948, o retorno de judeus à antiga terra bíblica e os conflitos na região seriam sinais claros de que antigas profecias estão se cumprindo diante dos nossos olhos.
Por isso, muitos cristãos enxergam o apoio a Israel não apenas como uma posição política, mas como uma forma de apoiar o próprio plano de Deus na história.
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Mas será que essa interpretação representa o entendimento histórico do cristianismo? Ou será que ela surgiu em um momento específico da história da igreja?
Para compreender melhor essa questão, precisamos olhar para duas coisas: a origem dessa interpretação e o que ensina a tradição reformada sobre as promessas feitas a Israel.
A origem dessa interpretação
A ideia de que o Estado moderno de Israel cumpre diretamente profecias bíblicas se tornou popular principalmente a partir do século XIX. Ela está ligada a uma corrente teológica chamada dispensacionalismo.
Apesar do nome parecer complexo, o conceito pode ser explicado de maneira simples. O dispensacionalismo ensina que Deus conduz a história em diferentes períodos, chamados “dispensações”. Dentro dessa visão, Deus teria dois povos distintos com promessas diferentes: Israel e a Igreja. Segundo essa interpretação Israel receberia promessas ligadas à terra e à nação e a Igreja receberia promessas espirituais.

Assim, muitos intérpretes dispensacionalistas passaram a entender que a restauração de um Estado judeu na terra de Israel seria o cumprimento das profecias bíblicas sobre o futuro de Israel.
Essa forma de interpretar as Escrituras foi desenvolvida principalmente pelo teólogo anglo-irlandês John Nelson Darby no século XIX.
Ela ganhou enorme popularidade nos Estados Unidos com a publicação da Scofield Reference Bible, organizada pelo teólogo Cyrus I. Scofield em 1909. Essa Bíblia de estudo trazia notas interpretativas que apresentavam a leitura dispensacionalista das profecias bíblicas.
Com o tempo, essa interpretação se espalhou por igrejas evangélicas através de pregações, livros sobre o “fim dos tempos” e programas de rádio e televisão.
Hoje, para muitos cristãos, essa leitura parece tão natural que poucos percebem que ela é relativamente recente na história da igreja.
O que diz a tradição reformada
A tradição reformada — representada por teólogos ligados à Reforma Protestante e às igrejas históricas — interpreta essas promessas de maneira diferente.
Segundo essa tradição, as promessas feitas a Israel no Antigo Testamento encontram seu cumprimento final em Jesus Cristo e no povo de Deus formado por todos aqueles que creem nele, sejam judeus ou gentios. Ou seja: em Sua Igreja.
O apóstolo Paulo expressa essa ideia de maneira clara: “Nem todos os descendentes de Israel são Israel” (Romanos 9:6). Em outra carta ele afirma: “Se sois de Cristo, também sois descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gálatas 3:29).
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Isso significa que, no Novo Testamento, a promessa feita a Abraão ultrapassa fronteiras étnicas e nacionais. Ela alcança todos aqueles que pertencem a Cristo. Essa interpretação foi defendida por importantes teólogos reformados como João Calvino, Herman Bavinck e Geerhardus Vos.
Em sua Dogmática Reformada, Bavinck explica que as promessas feitas a Israel apontavam para uma realidade mais ampla que seria plenamente revelada em Cristo e no povo de Deus formado entre todas as nações. Da mesma forma, o teólogo bíblico Geerhardus Vos argumenta que toda a história da redenção no Antigo Testamento prepara o caminho para a obra de Cristo, que reúne judeus e gentios em um único povo (Biblical Theology, 1948).
O risco de transformar política em profecia

Aqui surge um ponto importante para os cristãos refletirem. Quando eventos políticos modernos passam a ser interpretados automaticamente como cumprimento direto de profecias bíblicas, existe o risco de transformar governos humanos em instrumentos sagrados.
A história mostra que esse tipo de confusão já aconteceu muitas vezes. Impérios, guerras e projetos nacionais já foram apresentados como se fossem partes inevitáveis do plano de Deus.
Mas a Bíblia aponta para outra realidade: nenhum Estado moderno é o Reino de Deus. Governos humanos podem ter seu papel na ordem do mundo, mas todos eles continuam sendo instituições marcadas pelas limitações e pelo pecado humano.
O centro da promessa não é um território
Reconhecer essa distinção não significa ignorar a importância histórica do povo judeu na história bíblica.
Cristãos podem e devem reconhecer o papel histórico do Israel das Escrituras, respeitar o povo judeu e orar pela paz no Oriente Médio. Mas também precisam lembrar que a Bíblia aponta para algo maior do que a restauração de uma antiga fronteira geográfica.
No Novo Testamento, o apóstolo Paulo explica que as promessas feitas a Abraão encontram seu cumprimento final em Cristo: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente… que é Cristo” (Gálatas 3:16).
Isso significa que a esperança cristã não está na restauração de um território antigo, mas na obra redentora de Jesus.
O verdadeiro Israel da promessa
A história bíblica não aponta para a sacralização de uma nação moderna. Ela aponta para algo muito maior. Em Cristo, Deus está reunindo pessoas de todas as nações, línguas e povos para formar um único povo redimido.
Por isso, quando cristãos olham para os conflitos que envolvem Israel — com o que está em curso agora contra o Irã — precisam lembrar que a esperança da Bíblia não está em fronteiras políticas. Está no Evangelho.
Porque, no fim das contas, o que transforma o mundo não é a fundação de um Estado. É a transformação do coração humano. E essa transformação acontece somente em Cristo Jesus.
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