Israel, EUA e Irã: qual é o papel da religião na guerra?

Israel, EUA e Irã: qual é o papel da religião na guerra?A cada nova escalada entre Israel e Irã, cresce também a reação automática de muitos cristãos. Alguns defendem Israel por associarem o Estado moderno às promessas bíblicas. Outros interpretam qualquer apoio ocidental como expressão de imperialismo.

Mas antes de escolher um lado, precisamos fazer a pergunta certa: essa é uma guerra de fé ou uma disputa de poder revestida de linguagem religiosa?

Se não formos honestos nessa análise, corremos o risco de transformar o Evangelho em bandeira ideológica.

A realidade geopolítica que não pode ser ignorada

O conflito entre Israel e Irã não nasce de divergências doutrinárias entre judaísmo e islamismo xiita. Antes de 1979, sob o regime do Xá, o Irã mantinha relações diplomáticas com Israel. A ruptura ocorre após a Revolução Islâmica, quando o novo regime passa a construir sua identidade política em oposição a Israel e aos Estados Unidos.

Segundo análises do Council on Foreign Relations, da Brookings Institution e da International Crisis Group, a rivalidade envolve principalmente: disputa por hegemonia regional no Oriente Médio; programa nuclear iraniano e preocupação israelense com segurança existencial; apoio iraniano a grupos como o Hezbollah e Hamas; equilíbrio estratégico envolvendo os Estados Unidos.

O Chatham House destaca que a escalada recente reflete uma mudança de confrontos indiretos para tensões mais diretas, ampliando o risco de desestabilização regional.

Nada disso é primariamente teológico. É estratégico. É político. É militar. A religião entra, mas não como causa primeira.

Israel, EUA e Irã: qual é o papel da religião na guerra?
Um dos pontos da disputa é a hegemonia regional no Oriente Médio (Joe Raedle/Getty Images)

Quando a religião é capturada pelo poder

A religião não é irrelevante nesse cenário. Ela fornece identidade, linguagem moral e senso de missão.

O regime iraniano utiliza retórica religiosa para legitimar sua postura anti-Israel. Em certos círculos cristãos ocidentais, há apoio automático a Israel por interpretações escatológicas que confundem o Estado moderno com o Israel da aliança bíblica.

Aqui está o ponto crítico: quando fé e nacionalismo se fundem, a religião deixa de ser testemunha profética e se torna instrumento de mobilização.

A tradição cristã reformada nunca ensinou que qualquer nação contemporânea ocupa papel redentivo na história da salvação. O Reino de Deus não se identifica com Jerusalém moderna, Washington ou Teerã.

Cristãos, portanto, não podem permitir que sua esperança escatológica seja capturada por projetos geopolíticos.

Israel, EUA e Irã: qual é o papel da religião na guerra?
Iranianos protestam contra os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, em Teerã, Irã (Majid Saeedi/Getty Images)

A raiz mais profunda: o que a Bíblia diz sobre guerras

Análise política é necessária. Mas não é suficiente.

A Epístola de Tiago 4:1 pergunta:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês?”
Tiago 4:1

A resposta não aponta para fronteiras ou petróleo. Aponta para desejos desordenados. Ambição. Orgulho nacional. Medo coletivo. Sede de domínio. João Calvino, ao comentar esse texto, afirma que os conflitos florescem quando o amor próprio governa acima do temor de Deus.

Ao mesmo tempo, a Escritura não ignora a responsabilidade estatal. A epístola aos Romanos, no fatídico capítulo 13 – usando tão indiscriminadamente nos últimos tempos pelos cristãos brasileiros – declara que a autoridade civil “não porta a espada sem motivo” (v.4). O Estado recebe a incumbência de conter o mal, proteger inocentes e promover ordem. Mas isso precisa ser entendido corretamente.

A espada: função legítima e limite moral

Num mundo caído, onde regimes podem oprimir populações, onde grupos armados ameaçam exterminar povos e onde líderes podem agir de forma expansionista, a omissão também pode ser injustiça.

Por isso, a tradição cristã – desde Agostinho de Hipona até João Calvino – desenvolveu critérios para aquilo que ficou conhecido como guerra justa: deve haver causa justa (proteção de inocentes, legítima defesa); deve ser último recurso; deve ter intenção reta, não ambição; deve buscar restauração da justiça, não supremacia.

É necessário dizer que isso não torna a guerra virtuosa. Torna-a, no máximo, uma medida trágica para conter um mal maior.

A espada pode restringir o caos imediato. Mas não regenera corações.

Mesmo quando há justificativa defensiva, o resultado é devastador: civis mortos, deslocamentos, traumas que atravessam gerações.

A guerra pode conter um mal externo. Mas não elimina o mal interno que a torna recorrente.

Israel, EUA e Irã: qual é o papel da religião na guerra?
A guerra nunca é algo virtuoso e suas consequências sempre carregam devastação

O erro dos cristãos que transformam guerra em narrativa sagrada

O maior perigo não está apenas nas decisões dos governos. Está na idolatria religiosa que as legitima sem discernimento.

Quando cristãos celebram ataques militares como cumprimento profético, confundem geopolítica com escatologia. Quando demonizam povos inteiros, traem o mandamento de amar o próximo. Quando depositam esperança redentiva em alianças militares, substituem Cristo por poder estatal.

O Evangelho não autoriza entusiasmo com destruição. Autoriza lamentação, intercessão e busca por justiça verdadeira.

O chamado de Cristo em meio à guerra

Evangelho de Mateus 5:9 declara:

“Bem-aventurados os pacificadores”.

Pacificadores não são ingênuos. Reconhecem ameaças reais. Sabem que Estados possuem responsabilidades legítimas. Mas também sabem que nenhuma vitória militar inaugura o Reino de Deus.

Ser pacificador hoje significa não idolatrar nações; não reduzir conflitos a narrativas simplistas; orar por governantes, inclusive os que criticamos; sofrer com vítimas, não vibrar com mísseis; sefender justiça sem glorificar violência.

O cristão pode reconhecer a legitimidade de uma ação defensiva e, ao mesmo tempo, lamentar profundamente que ela tenha sido necessária.

Essa tensão é madura e habitará o coração cristão até a volta de Cristo Jesus. Essa tensão é bíblica.

A conclusão que precisa nos confrontar

Enquanto o coração humano for governado pelo pecado, guerras continuarão surgindo.

Tratados podem conter crises. Diplomacia pode adiar conflitos. Mas nenhuma estratégia geopolítica redime a humanidade.

A paz duradoura não nasce da supremacia de uma nação sobre outra. Nasce da reconciliação com Deus.

Se nossa reação às guerras é torcida ideológica, precisamos nos examinar. Se nossa esperança está na força das armas, nossa fé está mal direcionada.

O mundo continuará buscando segurança pela espada. Mas a Igreja aponta para outro Reino.

O Reino daquele que venceu não pela dominação – mas pelo serviço de amor na cruz, onde o Príncipe da Paz se entregou como o sacrifício perfeito pelo perdão dos pecados da humanidade, para reconciliá-la com Deus. E ressuscitou, inaugurando a vida eterna para todos os que nele creem (João 3.16).


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Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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