Corpus Christi: qual é o significado à luz da Bíblia?

Corpus Christi: qual é o significado à luz da Bíblia?Milhões de brasileiros participam todos os anos das celebrações de Corpus Christi. Ruas são decoradas com tapetes coloridos, procissões percorrem cidades inteiras e multidões acompanham a passagem da hóstia consagrada em atos de profunda devoção.

Para os católicos, trata-se de uma das datas mais importantes do calendário religioso. Mas poucos sabem exatamente o que essa celebração significa, de onde ela surgiu ou qual é sua relação com os ensinamentos de Jesus Cristo registrados nas Escrituras.

O feriado de Corpus Christi oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos não apenas sobre uma tradição religiosa centenária, mas sobre uma pergunta muito mais importante: o que a Bíblia realmente ensina sobre a Ceia do Senhor?

A resposta a essa pergunta nos conduz ao próprio coração do Evangelho.

De onde surge o Corpus Christi?

A expressão Corpus Christi significa, em latim, “Corpo de Cristo”.

A celebração surgiu oficialmente no século XIII, muito tempo depois da era apostólica. Sua origem está associada às experiências místicas relatadas por Juliana de Liège (1193-1258), religiosa agostiniana da atual Bélgica, que defendia a criação de uma festa dedicada especificamente à presença de Cristo na Eucaristia. Em 1264, o papa Urbano IV instituiu oficialmente a celebração por meio de uma bula.

A tradição católica conta que, a partir do ano 1208, Juliana de Cornillon, que vivia em Liège (Bélgica), relatou ter visões místicas nas quais via uma lua cheia com uma mancha escura. A freira interpretou que a lua representava a Igreja e a mancha indicava a ausência de uma festa litúrgica dedicada exclusivamente a agradecer pelo mistério da Eucaristia.

Tempos depois, em 1263, um padre chamado Pedro de Praga vivia uma crise de fé e duvidava da presença real de Jesus na hóstia consagrada. Conta a tradição católica que, durante uma peregrinação, ao celebrar uma missa na cidade de Bolsena, na Itália, a hóstia começou a sangrar logo após o momento da consagração. O sangue manchou o tecido de linho do altar (o corporal).

O Papa Urbano IV, que estava na cidade vizinha de Orvieto, examinou as relíquias do prodígio e, motivado também pelas visões anteriores de Juliana, decidiu estender a solenidade para todo o mundo católico por meio da bula papal Transiturus de hoc mundo.

Desde então, a festa tornou-se uma das principais expressões da doutrina católica da Eucaristia.

Corpus Christi: Juliana de Liège foi um religiosa agostiniana da atual Bélgica, que defendia a criação de uma festa dedicada especificamente à presença de Cristo na Eucaristia
Juliana de Liège (1193-1258) foi religiosa agostiniana da atual Bélgica, que defendia a criação de uma festa dedicada especificamente à presença de Cristo na Eucaristia

A interpretação católica da Eucaristia

Para a Igreja Católica, durante a missa ocorre o que é chamado de transubstanciação: o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo, embora mantenham sua aparência física.

O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura enquanto subsistirem as espécies eucarísticas”. (Catecismo da Igreja Católica, §1377)

É justamente essa compreensão que fundamenta as procissões, a exposição do Santíssimo Sacramento e a veneração da hóstia consagrada.

Mas, diante de algo relacionado à tradição religiosa humana, a pergunta que deve orientar todo cristão continua sendo a mesma: O que dizem as Escrituras, a Palavra de Deus?

A ceia foi instituída por Jesus

A primeira referência à Ceia não está na Idade Média, nas experiências de Juliana de Liège ou de Pedro de Praga. Está na noite anterior à crucificação.

Mateus registra:

“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomai e comei, isto é o meu corpo’. Em seguida tomou um cálice e, dando graças, entregou-lhes, dizendo: ‘Bebei dele todos. Pois isto é o meu sangue da aliança, derramado por muitos para remissão dos pecados'”
(Mateus 26:26-28)

Lucas acrescenta uma declaração fundamental:

“Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19)

Anos mais tarde, o apóstolo Paulo reafirma o mesmo ensinamento:

“Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1 Coríntios 11:26)

Observe algo importante: Jesus não diz que sua morte será repetida; Jesus não diz que seu corpo será sacrificado novamente; Jesus não diz que os discípulos devem adorar o pão.

A Ceia é apresentada como uma proclamação do Evangelho, uma recordação da obra consumada na cruz e um anúncio da esperança futura.

O debate está na interpretação

É importante reconhecer que católicos e protestantes recorrem aos mesmos textos bíblicos. A divergência está na interpretação.

Quando Jesus diz: “Isto é o meu corpo” (Mateus 26:26)… Como essa declaração deve ser compreendida?

A tradição católica entende as palavras de maneira literal, formando a base da doutrina da transubstanciação.

A Reforma Protestante, entretanto, ofereceu interpretações diferentes.

João Calvino ensinava uma presença espiritual verdadeira, operada pelo Espírito Santo, mas não a presença real de Cristo nos elementos.

A tradição batista entende que Jesus utilizava linguagem figurada, da mesma forma que fez em diversas outras ocasiões.

Por exemplo: Cristo afirmou: “Eu sou a porta” (João 10:9). “Eu sou a videira verdadeira” (João 15:1). “Eu sou o caminho” (João 14:6).

Nenhum cristão acredita que Jesus seja literalmente uma porta ou uma videira. A linguagem simbólica é muito utilizada nas Escrituras, e Jesus abusa dos recursos de linguagem, como hipérboles, parábolas, símbolos…

Por essa razão, muitos protestantes entendem que a expressão “isto é o meu corpo” deve ser compreendida à luz do contexto da Ceia como um memorial da obra redentora de Cristo. “…façam isto em memória de mim” (Lucas 22:19)

Corpus Christi: os cristãos da Igreja Primitiva reuniam-se para partir o pão, orar, ensinar e proclamar o Evangelho
Ao examinarmos a Igreja Primitiva, a partir do livro de Atos e as epístolas, encontramos os cristãos reunindo-se para partir o pão, orar, ensinar e proclamar o Evangelho

O discurso de João 6

Talvez o principal texto utilizado pela tradição católica seja João 6.

Ali Jesus declara: “Eu sou o pão vivo descido do céu” (João 6:51)

Mais adiante: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna” (João 6:54)

À primeira vista, a interpretação literal parece inevitável. Mas o próprio contexto oferece elementos importantes. No mesmo discurso, Jesus também declara:

Quem crê tem a vida eterna” (João 6:47)

Observe a equivalência. Em um momento, Cristo afirma que a vida eterna é recebida por quem crê. Em outro, por quem come sua carne e bebe seu sangue.

Muitos intérpretes reformados entendem que Jesus está utilizando imagens para descrever a apropriação espiritual da sua obra pela fé. Essa compreensão foi defendida por teólogos como João Calvino e posteriormente por inúmeros comentaristas reformados.

O que acontecia na Igreja Primitiva?

Ao examinarmos o livro de Atos e as epístolas, encontramos os cristãos reunindo-se para partir o pão, orar, ensinar e proclamar o Evangelho.

Mas não encontramos procissões eucarísticas. Não encontramos adoração da hóstia. Não encontramos exposição do pão consagrado. Não encontramos uma festa anual dedicada ao Corpo de Cristo.

A pergunta não é se essas práticas possuem significado para milhões de pessoas. A pergunta é se elas foram ensinadas pelos apóstolos. E é justamente nesse ponto que a tradição reformada faz sua principal objeção.

Corpus Christi: a Bíblia é a autoridade suprema e infalível para a Igreja de Cristo
A pergunta é: quem detém a autoridade suprema? Os homens com suas tradições, ou Deus em sua Palavra?

A autoridade das Escrituras

A discussão sobre Corpus Christi revela uma questão muito maior do que a própria Ceia. Trata-se da fonte da autoridade cristã.

Quando uma prática religiosa surge, o cristão precisa perguntar: Ela foi instituída por Cristo? Foi ensinada pelos apóstolos? Pode ser demonstrada pelas Escrituras?

Os reformadores do século XVI resumiram essa convicção na expressão latina Sola Scriptura. As Escrituras não são a única autoridade existente. Mas são a única autoridade infalível.

Toda tradição humana deve ser examinada à sua luz. Foi exatamente isso que fizeram os cristãos de Bereia. Lucas os elogia porque: “Receberam a palavra com toda avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se tudo era assim” (Atos 17:11).

A mesma atitude continua necessária hoje.

Cristo no centro

Independentemente das diferenças entre católicos e protestantes, existe uma verdade que não pode ser esquecida.

A Ceia aponta para Cristo. 

Ela não é o Evangelho. Ela aponta para o Evangelho.

Ela não é a salvação. Ela aponta para a salvação.

Ela não substitui Jesus. Ela anuncia Jesus.

Quando participamos da Ceia, somos chamados a lembrar daquele que morreu pelos pecadores, ressuscitou ao terceiro dia e voltará em glória.

O perigo de qualquer tradição religiosa surge quando o símbolo ocupa o lugar da realidade para a qual ele aponta.

Por isso, diante do Corpus Christi, a pergunta mais importante não é o que pensamos sobre o pão.

A pergunta mais importante é o que fazemos com Cristo.

Porque o centro da fé cristã nunca foi uma cerimônia. Nunca foi uma tradição. Nunca foi um feriado.

O centro da fé cristã sempre foi Aquele que denomina nossa fé: o Cristo, Jesus.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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