Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?O que muitos cristãos temiam em um ano eleitoral começou a se tornar realidade no Espírito Santo. Depois de quatro anos, políticos voltam a ocupar o púlpito da Igreja, que foi comprada pelo sangue de Jesus Cristo, e a Ele pertence – ou deveria pertencer.

Na ocasião da vinda do senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), para o “Encontro da Direita”, organizado pelo PL capixaba e ocorrido no sábado (18), a Assembleia de Deus Fonte de Vida (ADFV), liderada pelo pastor Delano Ramos, se tornou palco de uma cerimônia pública protagonizada por Flávio. O evento incluiu oração pelo pré-candidato, manifestações de entusiasmo por sua presença, elogios à sua trajetória, declarações de expectativa sobre sua vitória e uma eventual atuação conjunta entre seu futuro governo e a igreja.

Os fatos são públicos. O vídeo foi divulgado nos canais oficiais da própria igreja no Instagram.

Não cabe aqui discutir propostas de governo, preferências partidárias ou o mérito da candidatura de Flávio Bolsonaro. Tampouco este texto pretende defender seus adversários políticos. A pergunta é outra, e muito mais importante: as práticas exibidas naquele altar resistem ao julgamento da Palavra de Deus?

O que é a idolatria?

A resposta a essa pergunta não começa na política, mas na adoração. O primeiro mandamento continua ecoando sobre toda a Igreja: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20.3). A idolatria, como muitos ainda pensam, não se resume a prostrar-se diante de imagens; ela acontece sempre que algo criado passa a ocupar, na prática, o lugar de confiança, esperança ou centralidade que pertence exclusivamente ao Senhor.

João Calvino observou que “o coração humano é uma perpétua fábrica de ídolos”. Tim Keller, séculos depois, definiu o ídolo como qualquer realidade que passa a exercer sobre nós um domínio que somente Deus deveria possuir.

É por isso que a Igreja precisa examinar continuamente se suas práticas mantêm Cristo no centro ou se acabam conferindo destaque espiritual a projetos humanos, usando o santo Nome do Senhor para legitimar e referendar esse tipo de projeto.

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?
Frame do vídeo divulgado pela Assembleia de Deus Fonte de Vida com a presença de Flávio Bolsonaro

O púlpito pertence a Cristo

O vídeo, postado na conta oficial da ADFV no Instagram – em colaboração com a conta pessoal do pastor Delano Ramos – começa com Flávio Bolsonaro ajoelhado no altar da igreja, e o pastor orando por ele com as seguintes palavras:

“É o Senhor que vai na frente, abrindo o caminho e abrindo as portas. É o Senhor que está na retaguarda… protegendo, livrando. Em nome do Senhor Jesus, que naquele grande dia possamos celebrar o Senhor, ò Deus, por ter dado vitória à Sua nação”.

Não precisa ser bom entendedor para atestar que a oração do pastor é pela vitória de Flávio Bolsonaro. Durante todo o vídeo, que também conta com a presença do senador Magno Malta, presidente do PL capixaba, a postagem deixa a entender que Flávio Bolsonaro é o candidato apoiado pela liderança e, por assim dizer, o candidato da Assembleia de Deus Fonte de Vida.

Diante da situação precisamos nos perguntar: qual é a finalidade do púlpito? O apóstolo Paulo ordena a Timóteo: “Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu Reino, peço a você com insistência que pregue a palavra, insista, quer seja oportuno, quer não, corrija, repreenda, exorte com toda a paciência e doutrina” (2 Timóteo 4:1,2 | NAA).

Em nenhum momento o Novo Testamento apresenta o altar da igreja como espaço destinado à legitimação pública de candidaturas.

Comentando esse texto, Calvino afirma que o ministro foi chamado para ser “dispensador da Palavra de Deus”, jamais de interesses humanos que não dizem respeito ao seu chamado diante de Deus. Quando o centro visível de uma reunião deixa de ser a exposição de Cristo e de seu Evangelho para destacar um projeto político, a Igreja deve, no mínimo, perguntar se sua missão continua sendo preservada.

Cristo é o Cabeça da Igreja (Colossenses 1.18). Nenhum governante, partido ou liderança pode ocupar esse lugar.

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?
Magno Malta, presidente do PL Estadual, estava presente na igreja

O cuidado contra a acepção de pessoas

Outro ponto que merece reflexão é a honra pública concedida ao pré-candidato dentro do ambiente litúrgico.

Em sua fala no vídeo, o pastor Delano deixa claro o entusiasmo em receber Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República, afirmando estar com o coração “transbordante de alegria”.

“… nosso coração transborda de alegria, porque (…) fomos anfitriões, junto com todas as nossas congregações, do pré-candidato à presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro”, diz trecho do vídeo.

Tiago adverte a Igreja: “Meus irmãos, vocês não podem ter fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, e ao mesmo tempo tratar as pessoas com parcialidade” (Tiago 2:1 | NAA).

O apóstolo condena justamente a tendência de oferecer distinção especial em razão da posição, influência ou prestígio de alguém.

Isso não significa que autoridades civis não devam ser recebidas com respeito. A própria Escritura manda honrá-las (Romanos 13.7). Mas existe uma diferença entre receber uma autoridade e colocá-la como protagonista de um momento de culto – ou mesmo dar a ela um tratamento especial que manipule a igreja em seu favor, diante de uma situação que envolve a liberdade de consciência dos crentes em Cristo.

Para Calvino, a Igreja nega a igualdade dos santos quando cria distinções que não encontram fundamento em Cristo. Diante da cruz, senador, servente, empresário e desempregado ocupam exatamente o mesmo lugar: pecadores dependentes da graça.

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?
Pastor Delano ora por Flávio Bolsonaro na ADFV

A oração jamais deve servir a interesses políticos

Outro aspecto sensível do episódio é o uso da oração em um contexto de evidente significado eleitoral.

O encontro não contou apenas com a presença dos líderes das igrejas da ADFV, mas também com pastores e líderes de outras denominações evangélicas. Além da oração do pastor Delano destinada ao triunfo de Flávio Bolsonaro, um outro líder aparece no vídeo expressando a alegria de contar com a presença do candidato liberal e afirma, exultante, que a igreja tem orado por sua vida.

“É uma alegria tê-lo com a gente. Que Deus faça de você um instrumento. Saiba que essa igreja, que não só ela, mas o Espírito Santo, e o Brasil têm orado por sua vida, para que nessa trajetória, nesse caminho, nessa luta, você não esteja só. Deus te abençoe, meu irmão”.

A oração é um ato de culto dirigido a Deus. Ela deve buscar, acima de tudo, a glória do Senhor e a realização de sua vontade. Nem o próprio Jesus Cristo ora pela sua vontade própria, mas para que a vontade do Pai seja feita (Mateus 6.9-10).

É perfeitamente bíblico orar pelas autoridades e pelos governantes (1 Timóteo 2.1-2). A questão levantada pelo episódio é outra: quando uma oração pública ocorre em um ambiente de apresentação e concorrência política – ainda mais diante dos episódios lamentáveis que fragmentaram a igreja brasileira nas duas últimas eleições – qual mensagem ela comunica à igreja e à sociedade?

Qualquer pessoa pode avaliar o teor das orações e as expressões de exultação dos pastores e líderes e tirar a conclusão se não havia parcialidade nessas súplicas. Fato curioso é que a maioria das manifestações na publicação, inclusive de membros da própria ADFV, reprovam a atitude da liderança e da própria igreja ao se permitir ser palco desse episódio político partidário.

A Igreja precisa zelar para que seus atos litúrgicos em nome de Jesus nunca sejam confundidos com instrumentos de promoção de projetos de poder humanos, com o perigo de conferir a eles o “selo de aprovação de Cristo”, mais uma vez usando Seu Santo Nome em vão.

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?
Frame do vídeo da ADFV: líderes e fiéis oram em direção a Flávio Bolsonaro

O Reino de Deus não se confunde com um projeto eleitoral

Em sua fala no vídeo, Flávio Bolsonaro descreve os desafios políticos que vive como “guerra espiritual”, como uma guerra entre o bem e o mal, no qual o bem representa o seu lado, e o mal representa seus opositores.

“(…) nós vivemos uma verdadeira guerra espiritual, é assim que eu encaro. Nós estamos incomodando o mundo do mal”, diz ele no vídeo editado da Assembleia de Deus Fonte de Vida.

O pastor Delano, por sua vez, se mostra maravilhado com o candidato Flávio Bolsonaro. Ele faz questão de legitimar, em sua fala, o candidato como um irmão de fé que compartilha os valores da igreja.

“Foi maravilhoso ouvi-lo, foi maravilhoso conhecer sua história. Ele, que é um cristão, ele que estudou em escola cristã, ele que foi educado nos valores cristãos, tem um compromisso, um apreço, um amor e reconhece o trabalho de cada crente, de cada cristão, de cada igreja, em cada comunidade, cada cidade”.

E completa, encorajando o apoio da igreja a Flávio Bolsonaro, e afirmando que ele trabalhará em conjunto com a igreja, caso seja presidente: “Ele tem a igreja como um pilar, sua fé, como um fundamento da sua vida, e conta muito com a nossa oração, com o nosso apoio, e também em, como presidente, se Deus o abençoar, ele trabalhar em conjunto com a igreja em questões de ação social, questão da educação, os nossos valores e princípios”.

Em outras palavras: o triunfo de Flávio Bolsonaro, é o triunfo da igreja.

Como se o Reino de Deus precisasse do poder terreno, de um projeto político, para atingir seus objetivos.

Em contraste a isso, o próprio Jesus declarou diante de Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18.36).

Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Significa que a esperança da Igreja jamais repousa em eleições, partidos ou governantes.

Herman Bavinck lembrava que o Reino de Deus não nasce da conquista do poder político, mas da obra redentora de Cristo.

Sempre que a Igreja permite que sua identidade seja confundida com qualquer projeto político-partidário, ela escarnece a mensagem do Evangelho diante do mundo.

O Reino de Deus avança quando o Evangelho é genuinamente pregado, e as pessoas creem na obra redentora de Jesus Cristo, experimentando o novo nascimento. É uma obra no coração, de dentro para fora. Projetos políticos não têm esse poder e a associação da igreja com eles têm se mostrado desastrosa ao longo da história.

Flávio Bolsonaro no altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida: idolatria política?
Mensagem final do vídeo: “O Brasil tem futuro”

Um chamado à vigilância e ao arrependimento

O final do vídeo é empolgante para quem está de acordo com toda a situação. O pastor conclui falando: “no nome poderoso do Senhor Jesus, amém!”.

E o vídeo termina com a frase: “O Brasil tem futuro”.

Depois de assistir o vídeo, responda com sinceridade: esse futuro aponta para Jesus Cristo ou para Flávio Bolsonaro, de acordo com a edição do audiovisual e de tudo o que nele foi dito? A grande esperança se mostra residindo na obra redentora de Cristo na cruz do Calvário ou em um homem que tem um projeto político de poder?

As práticas públicas da Igreja sempre devem ser examinadas à luz das Escrituras.

Por isso, esse episódio protagonizado pela Assembleia de Deus Fonte de Vida e por seu pastor, Delano Ramos, convida toda a Igreja brasileira a uma reflexão urgentíssima.

Pois parece que nada aprendemos desde a corrida eleitoral de 2018. O antitestemunho tem sido repetido, o Evangelho tem sido resumido a um projeto político por lideranças que insistem nessas práticas, o nome de Cristo tem sido blasfemado pelos gentios por causa do antitestemunho da própria igreja e a porta dos céus tem sido fechada a muitos.

O púlpito não pertence à direita nem à esquerda. Não pertence ao governo nem à oposição. Não pertence a candidatos, partidos ou ideologias.

Ele pertence exclusivamente a Jesus Cristo, que comprou a Igreja com o seu próprio sangue (Atos 20.28).

Se algum gesto público faz a Igreja parecer mais comprometida com um projeto político do que com a supremacia de Cristo, é preciso parar, com humildade se examinar diante da Palavra de Deus (2 Tm 3.16-17), se arrepender e voltar-se novamente para Cristo, confiando em sua suficiência.

A esperança da Igreja nunca esteve em Brasília.

A esperança da Igreja continua assentada à destra do Pai, de onde reina aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores e que um dia voltará para buscar a sua Igreja.

Igreja é dele. “Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas. Glórias, pois, a ele, eternamente. Amém” (Romanos 11.36)


*Embora este artigo seja uma análise à luz da Bíblia sobre a atitude pública tomada pela igreja e seu líder, procuramos o pastor Delano Ramos para que respondesse algumas perguntas. Entretanto, até o momento da publicação do artigo não houve retorno

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas em Fé Pública

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]