No próximo dia 13 de julho, o mundo celebra o Dia Mundial do Rock. Entre guitarras, festivais e clássicos que atravessaram gerações, uma velha discussão costuma reaparecer entre muitos cristãos: afinal, o rock é “coisa do diabo”?
A pergunta parece simples, mas a resposta começa com uma história que poucos conhecem.
Imagine a cena. Uma mulher negra sobe ao púlpito de uma igreja pentecostal nos Estados Unidos. Nas mãos, uma guitarra elétrica. Enquanto canta sobre Jesus Cristo, seus dedos arrancam do instrumento um som intenso, vibrante e inovador para a época. Décadas depois, aquela forma de tocar influenciaria artistas como Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Johnny Cash e tantos outros que ajudariam a moldar a história do rock.
Essa mulher era Sister Rosetta Tharpe (1915 – 1973).
Muito antes de o rock ganhar estádios, couro, rebeldia e amplificadores ensurdecedores, Rosetta já anunciava o Evangelho por meio da música. Seu repertório era composto por canções gospel. Sua mensagem era Cristo. Sua missão era falar da esperança encontrada nele. E sua guitarra — algo incomum para uma mulher na década de 1930 — acabaria transformando a música popular para sempre.

O rock começou dentro da igreja?
Seria um exagero afirmar que o rock nasceu exclusivamente dentro da igreja. Todo gênero musical é fruto de diferentes influências. Blues, jazz, rhythm and blues e a música gospel afro-americana caminharam juntos até dar origem ao rock como o conhecemos.
Mas também é impossível contar essa história sem reconhecer a contribuição decisiva de Sister Rosetta Tharpe. Sua música rompeu barreiras, inspirou gerações de artistas e ajudou a construir a linguagem que marcaria um dos estilos mais populares do século XX.
Talvez por isso seja curioso que, anos depois, muitos cristãos tenham passado a afirmar, com absoluta convicção, que o rock era “do diabo”.
Essa mudança revela um risco que acompanha a Igreja em todas as épocas: transformar preferências culturais em doutrina.
A Bíblia condena um estilo musical?
A Bíblia nunca afirma que determinados instrumentos, ritmos ou estilos musicais sejam, em si mesmos, santos ou demoníacos. O que ela faz é direcionar nosso olhar para algo muito mais profundo: o coração humano.
Foi o próprio Jesus quem ensinou que o mal não procede de objetos externos, mas do interior do homem: “Pois é de dentro, do coração dos homens, que vêm os maus pensamentos…” (Marcos 7.21).
O pecado não mora nas cordas de uma guitarra, nas teclas de um piano ou no som de uma bateria. Mora em nós.
Da mesma forma, o apóstolo Paulo escreve que “tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças” (1 Timóteo 4.4). Isso não significa que toda produção cultural glorifique automaticamente a Deus. Significa que a criação pertence ao Criador e que o problema nunca esteve na matéria, mas no uso que fazemos dela.
O coração, e não a guitarra
Essa compreensão acompanha a tradição reformada há séculos. Como afirmou Abraham Kuyper, “não existe um centímetro quadrado de toda a criação sobre o qual Cristo não declare: ‘É meu'”.
O Evangelho não veio salvar estilos musicais. Veio salvar pecadores. E pessoas transformadas passam a produzir arte, música e cultura de maneira diferente, buscando refletir a beleza, a verdade e a bondade de Deus.
Isso também significa reconhecer que nem todo rock honra ao Senhor. Há músicas que exaltam a violência, a imoralidade, o orgulho ou a rebeldia — e essas devem ser rejeitadas pelo cristão. Mas o mesmo vale para qualquer outro gênero musical. O critério bíblico nunca foi o ritmo. Sempre foi a mensagem, os frutos e aquilo que governa o coração.

Talvez o maior perigo, então, não seja ouvir rock, mas substituir o discernimento pelo legalismo. Ao longo da história, houve quem condenasse guitarras enquanto tolerava pecados muito mais discretos: arrogância, inveja, falta de misericórdia, fofoca e orgulho religioso.
Jesus sempre foi além das aparências. Ele olhava para o coração.
A boa notícia é maior que o rock
A história de Sister Rosetta Tharpe nos lembra de uma ironia fascinante: uma das mulheres que ajudou a moldar o som do rock cantava sobre Jesus muito antes de esse gênero conquistar o mundo. Mas a maior lição de sua história não é musical. É espiritual.
O Evangelho nunca nos chamou a dividir o mundo entre ritmos “santos” e ritmos “profanos”. Chamou-nos a reconhecer que o verdadeiro problema está dentro de nós. O pecado não nasce em uma guitarra, em um amplificador ou em uma bateria. Nasce no coração humano.
E é justamente aí que está a boa notícia.
Jesus Cristo veio fazer aquilo que nenhum estilo musical jamais poderia realizar: reconciliar pecadores com Deus por meio de sua morte e ressurreição. Ele não veio apenas mudar nossos gostos. Veio nos dar um novo coração.
Quando isso acontece, muda também a maneira como cantamos, trabalhamos, criamos, consumimos cultura e vivemos. Quem foi alcançado pela graça passa a desejar que toda a sua vida — inclusive a música que produz e a que ouve — reflita a glória daquele que o salvou.
Talvez, neste Dia Mundial do Rock, a pergunta mais importante não seja se o rock é de Deus ou do diabo.
A pergunta que o Evangelho faz a cada um de nós é muito mais profunda:
O seu coração já pertence a Jesus Cristo?
Porque, no fim das contas, o destino eterno de uma pessoa nunca será decidido pelo estilo musical que ela ouviu, mas pelo que fez com o convite daquele que morreu e ressuscitou para dar vida a todo o que nele crê.
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