Depois da união na Copa do Mundo: a divisão política e o papel do cristão

Depois da união na Copa do Mundo: a divisão política e o papel do cristãoDurante algumas semanas, o Brasil vestiu a mesma camisa. Gols foram comemorados por desconhecidos, famílias se reuniram diante da televisão e até rivais encontraram um raro momento de trégua. A trajetória brasileira na Copa do Mundo, mais uma vez, mostrou a força que um objetivo comum pode ter sobre um povo.

Mas a eliminação veio contra a Noruega. E o apito final marca o nosso retorno à rotina. E, desta vez, ela nos conduz rapidamente ao próximo grande acontecimento nacional: as eleições de 2026.

Se durante a Copa a conversa era sobre escalações e resultados, em breve as redes sociais voltarão a ser ocupadas por debates acalorados, acusações, memes, desinformação e polarização. Amigos deixarão de se seguir, grupos de família voltarão a ferver e muitos cristãos sentirão a pressão para escolher não apenas um candidato, mas uma identidade política.

É justamente nesse momento que o Evangelho faz uma pergunta desconfortável: quem realmente governa o nosso coração?

A política é importante, mas não é salvadora

A Bíblia nunca tratou a vida pública como algo irrelevante. Os profetas confrontaram reis. João Batista denunciou os pecados de Herodes. O apóstolo Paulo utilizou os direitos da cidadania romana quando isso favorecia a missão do Evangelho.

Participar da vida política, acompanhar os acontecimentos do país e exercer o voto com responsabilidade fazem parte do compromisso cristão com o bem comum. A omissão nunca foi uma virtude.

Depois da união na Copa do Mundo: a divisão política e o papel do cristãoO problema começa quando aquilo que deveria ser instrumento se transforma em esperança absoluta.

Vivemos uma época em que muitos depositam na política expectativas que ela jamais conseguirá cumprir. Espera-se que um governante resolva aquilo que, na raiz, é consequência do pecado humano. Espera-se que um partido redima uma sociedade marcada pelo egoísmo. Espera-se que uma eleição produza um novo mundo.

Mas a Bíblia nunca fez essa promessa.

Jesus declarou: “O meu Reino não é deste mundo” (João 18:36). Isso não significa abandonar o mundo, mas lembrar que nenhuma vitória eleitoral pode substituir a esperança do Reino de Deus.

O perigo da idolatria política

A idolatria nem sempre acontece diante de uma imagem de pedra.

Ela também surge quando qualquer realidade criada passa a ocupar o lugar que pertence somente ao Criador.

Isso acontece quando líderes políticos passam a ser tratados como salvadores; quando partidos recebem uma lealdade incondicional; quando o cristão perde amizades, a mansidão, a capacidade de ouvir e até o compromisso com a verdade para defender “o seu lado”.

Nesse momento, a política deixa de ser uma esfera da vida e passa a se tornar um ídolo do coração.

O apóstolo Paulo lembra aos cristãos: “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20, NVI).

Observe o contraste. Paulo não diz que esperamos um governante, um sistema ou um partido. Esperamos um Salvador — e Ele já foi revelado.

Idolatria a Lula e Bolsonaro. Depois da união na Copa do Mundo: a divisão política e o papel do cristão
Arte: Gabriel Renner

O cristão deve parecer com Cristo antes de parecer com qualquer grupo

Talvez a pergunta mais importante dos próximos meses não seja: “Em quem você vota?”

Talvez seja outra: “As pessoas conseguem enxergar Jesus na forma como você debate política?”

O discípulo de Cristo pode defender convicções firmes. Pode discordar com coragem. Pode participar da vida pública com responsabilidade. Mas jamais pode abrir mão do fruto do Espírito para vencer uma discussão.

Num ambiente marcado por insultos, o cristão é chamado à mansidão.

Em meio à mentira, é chamado à verdade.

Quando todos gritam, é chamado à sabedoria.

Quando o ódio se espalha, é chamado a ser pacificador.

Jesus declarou: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

Ser pacificador não é evitar conflitos a qualquer custo nem relativizar a verdade. É recusar-se a combater o mal utilizando as mesmas armas do mundo.

Depois da Copa, uma escolha ainda mais importante

Nos próximos meses, o Brasil discutirá candidatos, programas de governo e propostas para o futuro. Isso faz parte da democracia e merece participação responsável.

Mas existe uma decisão ainda mais importante acontecendo silenciosamente dentro de cada cristão.

A de permitir que sua identidade seja moldada pela política ou permanecer firmado em Cristo.

Nossa esperança não depende das urnas. Nossa paz não acompanha pesquisas eleitorais. Nossa confiança não está em homens, mas naquele que reina para sempre.

Quando a eleição passar, um presidente terá sido escolhido.

Mas o Senhor da Igreja continuará sendo o mesmo.

E talvez esse seja o testemunho de que o Brasil mais precise em tempos de polarização: homens e mulheres que participam da vida pública com responsabilidade, defendem suas convicções com coragem, mas demonstram, acima de tudo, que pertencem a um Reino que jamais será abalado.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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