Flávio Bolsonaro perdeu as eleições presidenciais de 2026. No domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do candidato do PL. O resultado encerrou a disputa nas urnas, mas deixou uma pergunta incômoda para parte das igrejas evangélicas: Deus não ouviu as orações pela vitória de Flávio?
A pergunta é propositalmente provocativa. Durante a campanha, líderes religiosos apresentaram o candidato bolsonarista como representante dos cristãos. Orações, discursos e manifestações de apoio sugeriram, em diferentes momentos, que sua eleição seria uma vitória para o povo de Deus.
Mas será que a derrota significa que Deus rejeitou essas orações? Evidentemente, não podemos afirmar isso. Deus é soberano, não está sujeito à vontade dos homens e não precisa justificar seus propósitos diante dos resultados eleitorais. Tampouco a vitória de um candidato comprova sua aprovação divina.
O problema que precisamos enfrentar é outro: a idolatria política que levou determinadas lideranças a confundir fidelidade a Jesus Cristo com apoio a um projeto de poder. Uma prática que ameaça a liberdade de consciência dos fiéis e compromete o testemunho da Igreja diante da sociedade.
Quando o púlpito vira palanque
Os exemplos foram públicos. Em maio, o pastor Silas Malafaia recebeu Flávio Bolsonaro em um culto da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, e confirmou seu apoio à candidatura.
Em outubro, durante a celebração do centenário da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, o bispo Samuel Ferreira pediu que os presentes repetissem a expressão “irmão vota em irmão”. Diante do candidato, afirmou que, se pudesse, pediria votos para ele. Flávio também foi apresentado como futuro presidente do Brasil.
No Espírito Santo, o Fé Pública já havia denunciado, em julho, a instrumentalização do altar da Assembleia de Deus Fonte de Vida, em Vitória.
O pastor Delano Santos recebeu Flávio Bolsonaro, que apareceu ajoelhado no altar durante uma oração. O líder religioso manifestou a expectativa de que fosse possível celebrar uma vitória futura e incentivou o apoio ao então pré-candidato.
Naturalmente, não há pecado em orar por um político. A Bíblia nos ensina a interceder pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2). Também não é errado que um pastor tenha preferências eleitorais.
O problema começa quando sua autoridade espiritual é utilizada para orientar o rebanho a seguir essas preferências, como se representassem a vontade de Deus.
O púlpito pertence a Cristo. As ovelhas pertencem a Cristo. Nenhum pastor recebeu do Senhor a missão de transformá-las em eleitorado de um partido.
Pedro orienta os presbíteros a pastorear o rebanho de Deus sem exercer domínio sobre aqueles que lhes foram confiados (1 Pedro 5:2-3). Isso inclui respeitar a consciência dos cristãos, que não pode ser sequestrada em nome de interesses políticos.

Deus rejeita a falsa adoração
Há uma advertência assustadora nas Escrituras para aqueles que acreditam que suas práticas religiosas são suficientes para agradar a Deus.
Em Isaías 1:11-15, o Senhor repreende o povo que oferece sacrifícios, celebra solenidades e multiplica orações, mas vive em contradição com sua justiça. No versículo 15, Deus anuncia que não ouvirá suas orações.
Não era falta de religiosidade. O povo continuava frequentando as reuniões, realizando cerimônias e apresentando ofertas. Faltava, porém, uma vida coerente com a vontade do Senhor.
Por isso, nos versículos seguintes, Deus exige que abandonem o mal, aprendam a fazer o bem, busquem a justiça e defendam os oprimidos.
O profeta Amós apresenta uma denúncia semelhante. Em Amós 5:21-24, Deus rejeita as festas religiosas, os cânticos e as ofertas de um povo que despreza a justiça. Em vez de cerimônias vazias, exige uma vida marcada pela retidão.
Essas passagens não foram escritas sobre eleições brasileiras. Elas denunciam, originalmente, os pecados do povo de Israel. Mas revelam um princípio que permanece: Deus não se deixa impressionar por manifestações religiosas que escondem a injustiça e a infidelidade.
É por isso que não podemos transformar o resultado das urnas em uma resposta definitiva sobre quais orações Deus aceitou ou rejeitou.
A pergunta correta não é se os pastores oraram com força suficiente pela vitória de Flávio. É se suas atitudes durante a campanha foram coerentes com o Evangelho que afirmam anunciar.

Quando a política vira ídolo
A idolatria política ocorre quando um líder, partido ou projeto de poder recebe uma lealdade que deveria pertencer somente a Deus.
Ela se manifesta quando o adversário político deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser tratado como inimigo do bem, da Igreja e do próprio Senhor.
Essa visão apareceu na campanha de Flávio Bolsonaro. Em sua visita à Assembleia de Deus Fonte de Vida, o candidato descreveu sua disputa política como uma guerra espiritual contra o que chamou de mundo do mal.
Mas o Evangelho não autoriza o cristão a transformar seus adversários em inimigos de Deus.
Jesus ordenou que amássemos nossos inimigos (Mateus 5:44). Chamou de bem-aventurados os misericordiosos e os pacificadores (Mateus 5:7-9). E ensinou que o amor ao próximo não depende de afinidade política, religiosa ou social.
Como conciliar esses ensinamentos com uma retórica que celebra a violência e desumaniza pessoas?
Durante a campanha, Flávio prometeu retirar criminosos de circulação “em pé ou deitados” e defendeu medidas como a castração química para estupradores.
A sociedade tem o direito de exigir segurança, justiça e punição para criminosos. O Estado possui responsabilidades legítimas nessa área. Mas combater o crime não exige celebrar a morte, desprezar a dignidade humana ou abandonar a misericórdia.
Da mesma maneira, a disseminação de mentiras, a demonização de adversários e a glorificação da força não se tornam virtudes cristãs simplesmente porque são praticadas por pessoas que dizem defender a família e a religião.
A Igreja não pode negociar os mandamentos de Cristo para proteger um candidato.
Cabe então perguntar: será que essas lideranças não percebem as contradições entre tais discursos e os ensinamentos de Jesus? Ou a rejeição ao presidente Lula se tornou tão intensa que passaram a justificar aquilo que deveriam condenar?
Seja qual for a resposta, nenhuma antipatia política autoriza a instrumentalização do Evangelho.
Cristãos também podem ser de esquerda
As eleições de 2026 também ajudaram a tornar visível uma realidade frequentemente ignorada: nem todos os evangélicos são bolsonaristas, e nem todos os cristãos se identificam com a direita.
Lideranças como Antônio Carlos Costa e Ed René Kivitz se manifestaram em favor de Lula, apresentando argumentos políticos, democráticos e éticos para suas escolhas.
Esse posicionamento não significa que todos os cristãos que votaram em Lula sejam de esquerda. Tampouco significa que apoiem integralmente suas propostas ou deixem de reconhecer os problemas de seu governo.
Entretanto, rompe com a falsa ideia de que a fé evangélica exige fidelidade ao bolsonarismo.

Durante anos, cristãos que discordavam dessa associação se viram diante de ambientes religiosos em que manifestações de simpatia pela esquerda eram tratadas como incompatíveis com a fé.
Agora, fica ainda mais evidente que há diferentes posições políticas entre pessoas que confessam Jesus Cristo como Senhor.
Um cristão pode votar na direita. Pode votar na esquerda. Pode ser conservador ou progressista. O que não pode é transformar sua preferência eleitoral em condição para que alguém seja reconhecido como discípulo de Jesus.
Isso não significa que todas as propostas políticas sejam igualmente compatíveis com os valores bíblicos. Significa que cada proposta precisa ser examinada à luz das Escrituras, sem conceder aprovação automática a nenhum campo ideológico.
A consciência cristã deve ser formada pela Palavra de Deus, não pela orientação partidária de um pastor.
O escândalo diante dos gentios
Talvez a consequência mais grave dessa idolatria política não esteja nas urnas, mas no testemunho da Igreja.
Desde 2018, a associação entre lideranças evangélicas e o bolsonarismo fez com que parte da sociedade passasse a identificar o cristianismo evangélico com um movimento político.
Essa identificação é injusta com os milhões de cristãos que não compartilham tais posições. Mas também é consequência das atitudes públicas de lideranças que utilizaram sua visibilidade religiosa para promover esse projeto de poder.
Em Romanos 2:24, Paulo denuncia a contradição daqueles que conheciam a Lei de Deus, mas a desobedeciam, fazendo com que o nome do Senhor fosse blasfemado entre os gentios.
O contexto original é a hipocrisia religiosa daqueles a quem Paulo se dirige. A advertência, porém, deve levar os cristãos de hoje a um exame igualmente sério.
Quantas pessoas passaram a olhar para a Igreja com desconfiança porque viram líderes religiosos envolvidos em disputas de poder, discursos de ódio e ataques contra adversários políticos?
Quantas passaram a confundir o Evangelho de Jesus com a defesa incondicional de uma família de políticos?
Em Mateus 23:13, Jesus censura líderes religiosos que, por sua hipocrisia, fechavam aos outros a porta do Reino dos Céus.
É uma advertência severa. Embora nenhum pastor tenha poder para impedir a salvação de alguém, o mau testemunho religioso pode se tornar um obstáculo para pessoas que ainda não conhecem verdadeiramente a mensagem de Cristo.
Eis o escândalo: uma Igreja chamada a anunciar reconciliação, graça e misericórdia pode acabar sendo conhecida pela hostilidade, arrogância e busca pelo poder.
Não é Cristo que fracassa quando isso acontece. Somos nós que deixamos de testemunhar fielmente a respeito dele.

A Igreja precisa voltar a Cristo
Flávio Bolsonaro perdeu. Lula venceu. Mas o Reino de Deus não foi derrotado nem conquistou uma vitória eleitoral.
Jesus declarou que seu Reino não é deste mundo (João 18:36). Sua autoridade não depende de presidentes, partidos ou maiorias políticas.
O presidente reeleito merece o respeito devido à autoridade civil e nossas orações para que governe com justiça e sabedoria. Também deve ser fiscalizado, criticado e cobrado sempre que suas decisões contrariarem a justiça, a verdade e a dignidade humana.
A Igreja não pode trocar a submissão a um governante pela submissão a outro.
O que ela precisa recuperar é sua liberdade profética: a capacidade de anunciar a verdade, denunciar o pecado e defender o próximo sem depender dos favores do poder político.
Isso exige arrependimento. Exige que pastores reconheçam os limites de sua autoridade. Exige que os fiéis se lembrem de que sua consciência pertence a Cristo, e não aos líderes que os pastoreiam.
As eleições terminaram, mas a missão da Igreja continua. Seu chamado não é fabricar vencedores nas urnas, conquistar palácios ou coroar governantes, mas anunciar Jesus Cristo, crucificado e ressurreto, como o único Salvador.
Se a Igreja deseja recuperar a credibilidade de sua pregação, precisa abandonar seus ídolos e voltar ao Evangelho. É na cruz que encontramos o perdão dos nossos pecados, a reconciliação com Deus e a liberdade que nenhum projeto político pode oferecer.
Porque o rebanho pertence a Cristo, e somente a Cristo. E é nele, não em presidentes, partidos ou projetos de poder, que encontramos nossa verdadeira esperança.









