A liberdade de consciência precisa ser reafirmada às vésperas do segundo turno das eleições, neste domingo, 25 de outubro. Nenhum pastor recebeu de Jesus autoridade para transformar uma preferência eleitoral em condição de salvação – ou mesmo para coagir, ameaçar ou chantagear uma ovelha a votar em determinado candidato colocando em dúvida sua salvação. Quem reconciliou pecadores com Deus foi Cristo, não um candidato à Presidência.
É triste ver igrejas que deveriam anunciar essa suficiência usando o púlpito para constranger eleitores. O apoio institucional que antes exaltava Jair Bolsonaro e agora exalta Flávio Bolsonaro exige exame à luz das Escrituras. Quando o culto serve à imposição de um nome e a fidelidade ao evangelho é confundida com fidelidade eleitoral, o erro é espiritual.
Quando o púlpito vira palanque
No centenário da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, em 10 de outubro, fiéis entoaram o número de Flávio. Segundo a Folha de S.Paulo, o bispo Samuel Ferreira conduziu o lema “irmão vota em irmão”. Diante do coro “É 22!”, o candidato respondeu: “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”.
Esse alinhamento atravessa eleições. Em 2018, Samuel Câmara, líder da Assembleia de Deus de Belém, entregou apoio institucional da CADB (Convenção da Assembleia de Deus do Brasil) a Jair Bolsonaro. Neste ano, esteve entre os signatários de uma manifestação de líderes evangélicos em defesa de Flávio. Essas posições não representam a consciência de todos os membros das igrejas.

O problema não é um pastor ter convicções políticas. É usar sua autoridade espiritual para converter uma escolha pessoal em mandamento divino. Também há responsabilidade do candidato: Flávio se declara evangélico e, ao acolher a aclamação eleitoral no culto, participa de sua instrumentalização.
À luz do evangelho, transformar a adoração em exaltação de um político é pecado grave. E condicionar a salvação ao voto é blasfemar contra a suficiência de Cristo. Nenhum apoio religioso a Lula, a Flávio ou a qualquer outro nome autoriza esse desvio.
Em Êxodo 32, o bezerro de ouro nos adverte sobre o uso da linguagem religiosa para legitimar a idolatria. Quando a esperança, a confiança e a lealdade devidas ao Senhor são transferidas a um governante, um ídolo ocupa o centro. Isso faz pessoas tropeçarem e confunde a fé dos que estão começando a caminhada cristã.
A salvação não depende do voto
Irmãos, é preciso ter claro: se alguém colocou sua fé em dúvida porque você pretende votar em Lula ou em Flávio, volte ao fundamento do evangelho. Nenhum dos dois morreu na cruz por você. Nenhum deles venceu a morte para lhe oferecer vida eterna.
“Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé”, ensina Efésios 2:8, na Nova Almeida Atualizada. A passagem prossegue afirmando que a salvação é dom de Deus, não resultado de obras. Acrescentar uma exigência eleitoral a essa obra é distorcer a mensagem cristã.

Isso não torna toda escolha política correta. Significa que o voto, isoladamente, não autoriza um líder a declarar alguém salvo ou condenado. A cruz não precisa ser completada por um número na urna. A filiação partidária não é um sacramento.
Cristãos podem discordar sobre candidatos sem deixarem de ser irmãos. Romanos 14:4 adverte contra a pretensão de julgar o servo alheio. O capítulo trata de divergências na comunidade cristã, não de eleições; seu chamado à humildade, porém, confronta nossa pressa em ocupar o lugar do Senhor.
Liberdade de consciência com responsabilidade
A liberdade de consciência cristã não é independência de Deus. Nossa consciência deve estar cativa a Cristo, ser instruída pela Palavra e permanecer aberta à correção. Ela não pertence ao partido, ao candidato nem ao dirigente da igreja.
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”, afirma Gálatas 5:1, na NAA. Paulo combate a submissão à lei como condição de justificação. Aplicando esse princípio à vida pública, não podemos acrescentar uma obrigação partidária à fé salvadora.
Como já discutimos na coluna sobre Flávio Bolsonaro e as igrejas, a proximidade com lideranças religiosas precisa ser examinada com discernimento. A identidade religiosa declarada não dispensa a avaliação da trajetória, das propostas e das consequências de um governo.
O voto cristão exige compromisso com a verdade, a justiça, a defesa da vida, o cuidado com os vulneráveis e o bem comum. Não há liberdade evangélica para espalhar mentiras, alimentar ódio ou justificar qualquer atitude do candidato escolhido. Gálatas 5:13 associa nossa liberdade ao serviço em amor.
Depois das urnas, permaneça Cristo

Antes de votar, precisamos voltar a Jesus. Se transformamos políticos em salvadores, cabe arrependimento. Se ferimos um irmão por sua escolha eleitoral, cabe reconciliação. Se usamos o nome de Deus para coagir, precisamos abandonar esse pecado.
O evangelho anuncia o Filho de Deus crucificado e ressuscitado, que recebe pecadores arrependidos, concede perdão e transforma o coração. Nossa esperança final não está na vitória de um projeto eleitoral, mas no Senhor que nos ensina a amar até os adversários.
Depois da apuração, respeitemos o resultado legítimo das urnas e quem for eleito presidente. Em 1 Timóteo 2:1-2, Paulo orienta a oração pelas autoridades. Orar e respeitar não nos impede de fiscalizar, cobrar justiça e denunciar erros, qualquer que seja o governante.
Que o domingo transcorra em paz e que cada eleitor exerça sua escolha com serenidade e responsabilidade. Preservemos a liberdade de consciência e a comunhão em Cristo. Nenhum candidato merece o lugar do Salvador. A igreja anuncia Jesus. E Jesus basta.









