Gustavo Gouvêa – gustavo@eshoje.com.br
A paralisação dos policiais militares, que está em sua terceira semana, trouxe – e continua trazendo – consequências trágicas para o Espírito Santo, culminando em centenas de assassinatos e milhares de outros delitos como assaltos, roubos, furtos e saques. Mas, o que foi chamado de “crise na segurança pública” pode se estender para outras áreas. O ajuste fiscal realizado pelo governo capixaba tem causado forte arrocho no serviço público: os servidores não recebem a correção inflacionária há três anos.Em virtude da quantidade de problemas que o profissional médico servidor tem que vencer para tentar realizar seu trabalho de forma digna, aliado às questões salariais, representantes da categoria não escondem o desejo de, assim como os policiais, pararem todas as atividades. Mas também encontram restrições no Código de Ética Médica, que não permite paralisação dos setores de urgência e emergência. Entretanto, a situação para muitos está ficando insustentável a ponto de apresentarem problemas psicológicos, como depressão, em consequência do trabalho.
“Eu estou em tratamento psicológico. Tenho muitas dificuldades de dar o atendimento adequado ao paciente. Isso frustra o médico, pois temos o conhecimento e não podemos oferecer o tratamento adequado ao paciente. Vemos morrer pacientes que teriam chances de se recuperar e viver. Existe falta de equipamentos, de medicação, de estrutura adequada, é um atraso muito grande… Na minha área pediátrica é muito atrasado: os dois hospitais – Infantil de Vila Velha e o de Vitória – estão sendo sucateados”, disse uma médica servidora que preferiu não ter o nome revelado.
“São muitos casos de problemas psicológicos em nossos colegas. Vemos como estas frustrações fazem mal ao ser humano e ao profissional médico. Somos seres humanos como qualquer um, suscetíveis à fadiga, ao estresse, às doenças e às mazelas que afligem nosso meio ambiente de vida e de trabalho. E acredito que a saúde pública nunca será decente neste país, enquanto todos os servidores não estiverem saudáveis”, comentou o Octávio Friço, membro da Comissão Estadual dos Médicos Estatutários do Espírito Santo.
SaláriosAssim como os policiais militares alegaram, os médicos servidores estaduais reclamam que o Governo do Estado não abre diálogo quanto às reivindicações da categoria. A principal delas é quanto ao salário. O médico Alexandre Rodrigues explicou que a baixa remuneração tem sido um fator para o desligamento de médicos do setor público. Por consequência, a sobrecarga de trabalho dos médicos remanescentes e redução da oferta de serviços, como consultas, exames e cirurgias para a população.
“Desde abril de 2014 não ocorreu qualquer correção salarial, nem mesmo para ajuste pelos valores inflacionários. Deste modo, um médico com vínculo de 20 horas semanais (a maioria dos vínculos possui esta carga horária), recebe desde abril de 2014, R$ 4618,90 (salário bruto), o que equivalia na ocasião a 6,38 salários mínimos e hoje equivale a 4,9. Se corrigido pela a inflação oficial (IGP-M – cerca de 20,5%) até agora, este valor deveria ser de R$ 5568,74. Se corrigido de acordo com o salário mínimo seria de R$5978,06”, explicou o médico.
Friço afirmou ainda que os médicos estatutários chegam a receber um salário três vezes menor do que o pago a médicos contratados pelo Governo através de cooperativas médicas e de organizações sociais, mesmo exercendo as mesmas funções. De acordo com ele, existe um estudo que demonstra que o salário atual do médico servidor estadual representa 25% do que era pago em meados da década de 1990.
“Para corrigir isto, sugerimos o Piso Fenam, um valor que foi calculado pela Fundação Getúlio Vargas, considerado o menor salário possível para o exercício digno da medicina”, afirma.
Condições insalubres e infecção hospitalarDe acordo com uma pediatra da rede pública estadual, que não quis ser identificada, no hospital em que trabalha o risco de infecção hospitalar é alto para os pacientes internados, tamanha a condição de insalubridade do local. “Tem ratos e baratas na enfermaria. A infecção hospitalar é muito frequente, atinge um número muito alto de crianças. Se permanecer uma semana internada já é um risco muito elevado de infecção hospitalar. É precária a situação de insalubridade. É descaso, desinteresse, desorganização, falta de limpeza…”.
Octávio Friço completa: “Tudo isso faz parte do dia-a-dia do médico servidor estadual, e também vem se agravando nos últimos tempos. Trabalhamos sobre constante pressão e infelizmente a população desassistida encontra como escape a figura do médico. Soma-se a isso local insalubre, sem ventilação, sem ar-condicionado, com banheiros quebrados, sem sequer água potável”.
Ele afirmou que existe sobrecarga, déficit estrutural e logístico, além de uma demanda muito grande de pacientes. E que muitos médicos subsidiam seus próprios equipamentos e materiais de trabalho. “Claro que tudo isso pode levar o médico a um estado de desestímulo, exaustão, crises de ansiedade, depressão e dificuldade de desempenho de suas funções. Por tudo isso, percebe-se um número crescente de colegas antecipando a aposentadoria, pedindo licença sem vencimentos e exoneração do cargo público. A justificativa é já não ter forças para suportar tanta dificuldade e desvalorização”, analisou.
Para a médica, o desrespeito e o preconceito em desfavor da categoria é tamanho que para os novos hospitais, como o Dr.Jayme Santos Neves e o Central, são chamados os médicos terceirizados, contratados pelo Governo sem concurso. “O médico servidor continua sendo empurrado para as estruturas sucateadas e insalubres que ainda persistem, e médicos terceirizados com provimentos diferenciados são colocados nestes novos postos”.









