O brasileiro não sabe se come ou se ri

O brasileiro é um povo tão espirituoso que conseguiu transformar pé de moleque em sobremesa, olho de sogra em doce de festa e cueca virada em quitute. Depois, ainda inventou o pastel, provavelmente para testar nossa capacidade de manter a dignidade em público.

Imagine a perplexidade de um estrangeiro diante de uma mesa onde alguém oferece, com a maior naturalidade, um olho de sogra. Se o convidado sobreviver ao susto, pode receber uma porção de língua de gato, um pedaço de bolo formigueiro e, para encerrar, uma baba de moça. Tudo perfeitamente comestível, embora o cardápio sugira o contrário.

Neste 6 de novembro, Dia Nacional do Riso, vale reconhecer uma qualidade pouco celebrada da culinária brasileira: nossa extraordinária capacidade de dar nomes absurdos a coisas deliciosas.

O pé de moleque, por exemplo, é um doce de amendoim que não guarda qualquer semelhança anatômica com o membro inferior de uma criança. Já o olho de sogra, combinação de ameixa e coco, talvez seja uma das maiores injustiças cometidas contra as mães dos nossos companheiros e companheiras. A pobre sogra nem precisa estar presente para acabar servida numa forminha de papel.

A cueca virada, tradicional em diferentes regiões do país, é outro caso que merece investigação. Trata-se de uma massa frita, geralmente polvilhada com açúcar e canela, cujo formato torcido ajuda a explicar o nome. Mas convenhamos: alguém precisou olhar para aquele doce e pensar numa peça de roupa íntima. E o mais extraordinário é que todos concordaram.

Há também a maria-mole, que não sabemos o que fez para merecer tamanha exposição de sua suposta falta de firmeza. E o bolo de rolo, que pelo menos tem a honestidade de anunciar sua própria arquitetura.

Nos salgados, a situação não melhora. O buraco quente é um pão recheado, geralmente com carne moída, que poderia perfeitamente ter recebido um nome menos sugestivo. A vaca atolada, por sua vez, transforma um ensopado de carne bovina com mandioca numa cena de resgate rural. E a galinha à cabidela, preparada com sangue da própria ave, demonstra que nem sempre o humor está no nome: às vezes, a surpresa vem quando alguém explica a receita.

Mas a criatividade nacional não se limita aos batismos. Também inventamos alimentos que parecem ter sido projetados para provocar situações cômicas.

O pastel, por exemplo, é uma armadilha de massa crocante. Basta uma mordida mais confiante para o recheio escapar pelo lado oposto. A coxinha exige uma estratégia de ataque para que o frango não termine no colo. E o espaguete ao molho de tomate possui uma habilidade impressionante de identificar roupas brancas a quilômetros de distância.

O hambúrguer moderno merece um capítulo à parte. Empilhado em proporções arquitetonicamente irresponsáveis, obriga o consumidor a escolher entre deslocar a mandíbula ou desmontar a obra antes da primeira mordida.

Talvez seja por isso que comida e riso combinem tanto. Ambos escapam ao nosso controle nos momentos mais inconvenientes. Uma gargalhada no meio do almoço pode transformar um gole de refrigerante num acidente diplomático. Uma história engraçada contada na hora errada pode fazer o arroz seguir caminhos que a anatomia humana não recomenda.

E há algo de profundamente brasileiro nessa intimidade entre o humor e a mesa. Somos capazes de discutir seriamente a receita de um prato chamado escondidinho, defender com paixão a qualidade de um doce chamado quebra-queixo e oferecer um sonho a alguém que está perfeitamente acordado.

No fundo, talvez nossa culinária tenha compreendido uma verdade que os grandes tratados gastronômicos nem sempre registram: comer também é brincar. É inventar nomes, contar histórias, rir das próprias trapalhadas e repetir aquela anedota familiar que todo mundo já conhece, mas ninguém se cansa de ouvir.

Porque uma refeição memorável não depende apenas do tempero, da técnica ou da apresentação. Às vezes, basta uma mesa cheia, uma boa companhia e alguém perguntando, com absoluta seriedade:

— Quer mais um olho de sogra?

E a gargalhada vem antes da sobremesa.

Depois de rir, é hora de virar a cueca!

Para celebrar o Dia Nacional do Riso, nada mais apropriado do que preparar uma receita cujo nome já é uma piada pronta. A cueca virada, também conhecida em algumas regiões como orelha de gato ou grostoli, é um doce de massa frita, crocante por fora, macio por dentro e coberto com açúcar e canela. Perfeito para acompanhar um café passado na hora e uma boa conversa.

Cueca virada

Tempo de preparo: aproximadamente 40 minutos
Rendimento: 25 a 30 unidades
Dificuldade: fácil

Ingredientes

  • 3 xícaras de farinha de trigo (aproximadamente)
  • 2 ovos
  • ½ xícara de açúcar
  • ½ xícara de leite
  • 2 colheres (sopa) de manteiga
  • 1 colher (sopa) de fermento químico em pó
  • 1 pitada de sal
  • Óleo para fritar
  • Açúcar e canela em pó para polvilhar

Modo de preparo

Em uma tigela, misture os ovos, o açúcar, a manteiga e o leite. Acrescente o sal, o fermento e a farinha aos poucos, até obter uma massa macia, que não grude nas mãos.

Abra a massa sobre uma superfície enfarinhada, deixando-a com aproximadamente meio centímetro de espessura. Corte em retângulos de cerca de 4 por 10 centímetros. Faça um pequeno corte no centro de cada um e passe uma das pontas por dentro da abertura, formando a tradicional torção.

Frite em óleo aquecido a aproximadamente 170 °C, em pequenas porções, até dourar dos dois lados. Escorra em papel-toalha e passe ainda morna numa mistura de açúcar e canela.

Dica: Para deixar a cueca virada ainda mais gostosa, sirva morna, acompanhada de café fresco. E não se preocupe se algumas unidades saírem tortas: nesse caso, a falta de elegância faz parte da receita.

Afinal, esta é uma das raras ocasiões em que virar a cueca, colocá-la no óleo quente e cobri-la de açúcar não é motivo para chamar os bombeiros. É apenas a preparação do café da tarde.

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