Havia um cheiro que anunciava a hora do recreio muito antes de o sinal tocar nas escolas públicas do Distrito Federal, onde estudei. Vinha da cozinha, atravessava os corredores, invadia as salas de aula e despertava uma fome que nem sempre combinava com o horário. Era dia de sopa de macarrão com sardinha, um daqueles pratos que permanecem guardados na memória de quem cresceu estudando na rede pública da capital federal.
Não era uma sopa delicada, dessas servidas em pequenas porções nos restaurantes. Era espessa, generosa, quase um ensopado. O espaguete, quebrado em pedaços menores, dividia espaço com legumes picadinhos e lascas de sardinha em lata. Tudo cozido em um caldo encorpado, que reunia os sabores dos ingredientes e transformava alimentos simples em uma refeição capaz de sustentar uma tarde inteira de brincadeiras e aprendizado.
E havia um detalhe impossível de esquecer: a caneca azul-marinho de plástico grosso em que a sopa era servida. Nada de louças sofisticadas ou apresentações elaboradas. Bastava aquela caneca cheia, o cheiro da comida recém-preparada e a expectativa de encontrar um bom pedaço de sardinha entre os fios de macarrão.
Celebrado em 30 de outubro, o Dia da Merendeira e do Merendeiro Escolar homenageia os profissionais responsáveis por preparar as refeições de milhões de estudantes brasileiros. A data reconhece um trabalho que vai além da cozinha: para muitas crianças, a merenda representa segurança alimentar, acolhimento e uma parte importante da experiência escolar.
No Brasil, essa alimentação é garantida pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), cuja origem remonta à Campanha de Merenda Escolar, criada em 1955. Ao longo das décadas, a alimentação escolar passou por transformações, incorporando orientações nutricionais, valorização de alimentos regionais e participação da agricultura familiar.
Mas, para quem viveu a experiência das antigas merendas, a lembrança não está apenas nos ingredientes ou no valor nutricional das refeições. Está nas mãos que preparavam a comida, nas panelas enormes, nas filas formadas durante o recreio e nos sabores que acabaram se tornando parte da história de gerações.
A sopa de sardinha é um exemplo dessa cozinha simples e afetiva. A combinação de macarrão, legumes e peixe enlatado reunia ingredientes acessíveis e nutritivos em uma preparação que alimentava e aquecia. E, embora cada escola pudesse ter seu próprio jeito de prepará-la, a memória daquele caldo espesso continua viva para quem cresceu com ele.
Hoje, tantos anos depois, talvez seja possível reproduzir o sabor daquela sopa, acertar a quantidade de macarrão, o ponto dos legumes e até a consistência do caldo. Mas há um ingrediente que nenhuma receita consegue recuperar por inteiro: a infância. Porque aquela sopa de sardinha, servida numa caneca azul-marinho de plástico grosso, tinha um tempero que só existia ali, entre o cheiro que vinha da cozinha, o barulho do recreio e a alegria de ser criança.
Sopa de macarrão com sardinha
Uma versão caseira inspirada na tradicional merenda das escolas públicas do Distrito Federal.
Ingredientes
- 2 latas de sardinha
- 200 g de espaguete quebrado em pedaços pequenos
- 2 batatas médias cortadas em cubinhos
- 1 cenoura média picada
- 1 chuchu pequeno picado
- 1 tomate maduro picado
- 1 cebola pequena picada
- 2 dentes de alho amassados
- 1 colher de sopa de óleo
- 1 colher de sopa de extrato de tomate
- Aproximadamente 1,5 litro de água
- Sal, pimenta-do-reino e cheiro-verde a gosto
Modo de preparo
Em uma panela grande, aqueça o óleo e refogue a cebola e o alho até começarem a dourar. Acrescente o tomate e o extrato de tomate, mexendo até formar um molho espesso.
Junte a cenoura, a batata e o chuchu. Adicione a água e deixe cozinhar até os legumes começarem a amolecer. Acrescente o espaguete quebrado e cozinhe, mexendo de vez em quando, para evitar que grude no fundo da panela.
Quando o macarrão estiver quase pronto, adicione as sardinhas desmanchadas grosseiramente, preservando alguns pedaços maiores. Ajuste o sal e deixe ferver por mais alguns minutos, até que os sabores se misturem.
Finalize com cheiro-verde e sirva bem quente.
O segredo da merenda: a sopa precisa ficar encorpada, quase um ensopado, com bastante macarrão, legumes e sardinha em cada colherada. O amido liberado pela batata e pelo espaguete ajuda a engrossar naturalmente o caldo. Se necessário, deixe cozinhar por mais alguns minutos, sem acrescentar água.
E, para completar a viagem no tempo, experimente servir em uma caneca grande. Se for azul-marinho, melhor ainda!










