Jovem médica voluntária deixa UPA após ataque e difamação de vereador em Guarapari

Uma cena que deveria ser marcada pelo cuidado e pela humanização na saúde terminou em constrangimento e revolta. A médica Maria Júlia, de apenas 24 anos, voluntária na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guarapari e fundadora da plataforma prenatale.org, foi alvo de intimidação e desrespeito por parte do vereador Oldair Rossi (União). O episódio, ocorrido no último final de semana, expôs não apenas a postura autoritária de um parlamentar, mas também o abismo entre a dedicação de profissionais da saúde e os jogos políticos que minam a confiança da população.

Tudo começou dentro da UPA, quando o vereador, em atitude registrada em vídeo, entrou na sala de atendimento exigindo privilégios. A médica manteve a calma e tentou conduzir a situação com firmeza, mas foi surpreendida por ameaças. “Você não vai conversar comigo. Você vai falar com ele, você está burlando um sistema aqui, você não pode falar”, disse o vereador em tom intimidador. Em um dado momento, chegou a afirmar: “Te dou voz de prisão agora”, e, em seguida, a menosprezar a profissional com a frase: “Você é pequenininha”.

Do outro lado, a jovem médica não perdeu a serenidade. Atuando com a mesma ética que a levou a ser reconhecida nacionalmente por sua atuação em saúde materna, Maria Júlia respondeu sem alterar o tom de voz, garantindo que o atendimento ao paciente que estava na sala não fosse interrompido. A maturidade da médica contrastou com a tentativa do vereador de impor autoridade à força.

O caso ganhou novo contorno quando, em vez de se desculpar, Oldair Rossi usou a tribuna da Câmara para atacar a profissional, depois do incidente:

“A doutora gritou na sala dela que eu estava lá dentro falando de política. […] Eu acho que ela está mal informada, porque ela é muito jovem. […] Doutora, eu sei que a senhora é jovem e tem muito que aprender ainda. A senhora fez medicina, a senhora não é política. Quem fiscaliza a senhora são os vereadores. Então, quando um vereador desse adentrar à UPA, a senhora prontamente tem que atender as solicitações e dar as informações necessárias”, disse em discurso.

As palavras não apenas reforçaram o tom de menosprezo pela idade da médica, como também ignoraram os limites constitucionais entre os poderes. Diante da situação na UPA, a Polícia Militar (PMES) foi acionada pela médica, que registrou a ocorrência.

O pai da médica, o também médico Murilo Ferraz, não conteve a indignação e usou as redes sociais para apoiar e defender a filha e, ainda, exibir os dois vídeos que se conflitam e ‘desmascaram’ o vereador:

“Com apenas 24 anos, ela é uma médica que me enche de orgulho, dedicada, talentosa e com um coração gigante. Mesmo podendo trabalhar nos hospitais da família, decidiu estar no serviço público, voluntariamente, atendendo quem mais precisa. Mas, em seu último plantão, esse ambiente de acolhimento foi covardemente invadido por um vereador em busca de palanque”, disse em tom emocionado.

A repercussão foi imediata. O Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes) divulgou nota de repúdio, classificando a conduta como “abuso de autoridade, machismo e autoritarismo”.

Já a OAB/ES, por meio da Comissão da Mulher Advogada, enfatizou que “idade e aparência jamais podem ser critérios de avaliação da competência de uma mulher”.

A Prefeitura de Guarapari, por sua vez, lamentou o episódio, assegurou suporte à profissional e reafirmou seu compromisso com os servidores da saúde.

“Desde o primeiro momento, todas as medidas necessárias foram tomadas pela direção da unidade, garantindo suporte à profissional e a preservação do ambiente de atendimento.

É importante destacar que o Poder Executivo e o Poder Legislativo são independentes, cabendo a cada um responder por seus atos.

A Prefeitura reafirma sua confiança e gratidão aos servidores públicos, em especial aos profissionais da saúde, que diariamente dedicam suas vidas a cuidar da população com coragem, dedicação e humanidade. Nosso compromisso é continuar protegendo e valorizando esses trabalhadores, que são a base da saúde pública e do bem-estar coletivo”, disse em nota.

A comoção também tomou as redes sociais. Um internauta resumiu o sentimento geral: “Pequeninha? Ela foi gigante em postura, educação e inteligência. Parabéns, doutora Maju!”.

Diante da violência simbólica e psicológica sofrida, a médica decidiu se afastar de seu trabalho voluntário na UPA de Guarapari. O gesto escancara uma perda coletiva: não é apenas uma profissional que deixa o serviço público, mas centenas de pacientes carentes que deixam de contar com o talento e a dedicação de alguém que escolheu servir sem pedir nada em troca.

A reportagem do jornal ES HOJE tentou contato com o vereador Oldair Rossi, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para que o parlamentar possa se manifestar sobre o episódio.

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