Gustavo Corrêa correu uma maratona em homenagem ao filho, carregando a bandeira dos direitos para pessoas com epilepsia. Marianne Pauletti enfrentou o Parkinson e viu na corrida um fator de socialização e tratamento. Essas histórias dão a largada a uma série de reportagens especiais sobre como a corrida de rua mexe com os capixabas. E mostra que a atividade não é só uma conexão com o esporte, mas uma forma de enfrentar os percalços da vida!
As corridas ganham cada vez mais adeptos no Espírito Santo, chegando a superar a marca de eventos desta natureza. E foi numa dessas que começou a história da educadora física, Marianne Pauletti, 38. Professora concursada por 10 anos na rede pública, ele teve que se aposentar por incapacidade permanente, após seis anos do diagnóstico da doença de Parkinson.
Quando recebeu o diagnóstico não se despediu apenas da profissão, mas se um sonho maior: a maternidade. “Eu estava tentando engravidar há quatro anos, eu não sabia do que se tratava essa doença. Então, a primeira coisa que passou na minha cabeça foi isso: mais um obstáculo para me atrapalhar”, disse.
Marianne sempre foi muito ativa, era aquela professora participativa, que fazia as atividades em conjunto com as crianças. No início, muito abalada, entrou em um processo depressivo e logo seus alunos notaram as dificuldades físicas. “Na época, o médico me receitou inclusive um antidepressivo. No início o tremor era mais estático e logo depois perdi rigidez no braço esquerdo. Dava para perceber na minha atuação profissional”, afirmou.
Corrida como superação
Entre medos e incertezas, o convite para participar de uma corrida. Uma experiência desconhecida, mas que foi transformadora em sua vida. Após finalizar a prova decidiu que o esporte faria parte do seu tratamento.
“Foi muito legal porque o clima do evento é muito atrativo, mas eu caminhei mais do que corri. Apesar de ter sido difícil, consegui completar a prova e decidi que ia escolher a corrida como o exercício para o meu tratamento, porque eu gostei mesmo”, lembra.
Para Marianne a corrida é sua superação: correr a faz sentir que está conseguindo se desafiar, enfrentar as suas dificuldades. Dali em diante, participou de várias corridas, melhorando diretamente a saúde. “O fato de eu conseguir sair para correr, conseguir completar uma prova, estar no meio de pessoas socializando, me divertindo e ver pessoas torcendo por você, é muito bom. Então, aquela sensação de “eu consigo, meu corpo está obedecendo”, é muito forte, porque só de pensar em perder movimento, a sensação é muito ruim”, ressaltou.
Marianne aguarda nova cirurgia de estimulação cerebral profunda. O procedimento visa recuperar a qualidade de vida. O que a motiva a continuar é saber dos benefícios para sua saúde, todo esforço não é em vão.
“O que me fez continuar é a minha vida, porque eu amo viver. A corrida é o principal elemento do meu tratamento”, afirma ela.
Epilepsia e neuronutrição
O que chegou como metáfora na vida de Gustavo Corrêa, 59, ganhou sentido literal pela causa do filho. Quando João Paulo tinha 19 anos passou a ter crises de epilepsia, e com fé Gustavo assumiu o compromisso de usar seu conhecimento para ajudar o filho a viver essa “maratona”.
Nutricionista com formação em neurociências, ele se tornou especialista em epilepsia de difícil controle. “Nada se compara a ver um filho convulsionando, nada. Houve momentos em que João Paulo precisou de internação em UTI. E ali eu aprendi o que é impotência de verdade”, afirmou.
João Paulo foi diagnosticado com epilepsia refratária e chegou a ter 10 crises por mês. Na época Gustavo atuava como empresário do ramo da gastronomia e chef de cozinha. Juntando a experiência e formação ele conseguiu fazer com que alimentação estratégica mudasse a saúde do filho.
“Epilepsia, Direitos Já”
A corrida entrou na vida de Gustavo por meio de um gesto. Para ele, as famílias que convivem com epilepsia correm maratonas diárias. São percursos longos e invisíveis aos olhos da maioria. Então decidiu que 42 quilômetros teriam nome e causa: a “Maratona pela Epilepsia”. “Treinar para uma maratona ensina humildade. Você descobre que o corpo tem limites, que a pressa cobra caro e a consistência tem um peso enorme”, disse.
Para Gustavo, a corrida foi fundamental em meio à instabilidade emocional. Ela deu disciplina quando, por dentro, estava bagunçado. Estampado com a frase “Epilepsia, Direitos Já” na camisa quando está correndo, Gustavo Corrêa carrega o lema como quem se recusa ao silêncio para dizer que milhões de pessoas vivem uma condição neurológica importante, mas ainda permanecem invisíveis para boa parte da sociedade.
“Essa bandeira fala de acesso a diagnóstico precoce, tratamento digno, centros especializados, medicações, cirurgias quando necessárias, acolhimento escolar, oportunidades de trabalho e respeito. Fala também dos direitos de uma mãe dormir sem medo, de uma criança frequentar a escola sem preconceito e de uma família sonhar”, afirmou.
Marianne Pauletti e Gustavo Côrrea são exemplos de como o esporte é essencial para o enfrentamento de doenças. Ao se depararem com um diagnóstico, se encontraram na corrida.









