Imagine a cena: um vídeo chega ao grupo de WhatsApp. Nele, um candidato parece fazer uma declaração escandalosa. Quem encaminhou é alguém conhecido, talvez um irmão da igreja. A mensagem provoca indignação e confirma aquilo que você já pensava daquele político. O dedo se aproxima do botão de compartilhar.
Mas uma pergunta precisa vir antes: isso é verdade?
A relação entre fake news e o nono mandamento começa nessa decisão cotidiana. Para quem segue Jesus, não basta perguntar se uma informação favorece seu candidato. É preciso perguntar se compartilhá-la respeita a verdade e o próximo.
A inteligência artificial acrescentou complexidade a esse cuidado. Em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral definiu critérios para caracterizar deepfake nas eleições de 2026: conteúdo produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente, com realismo ou verossimilhança, que crie, reproduza ou altere imagem, voz ou manifestação de uma pessoa. A Corte também estabeleceu que a incidência da proibição exige sua caracterização como propaganda eleitoral.
A discussão jurídica tem seus critérios. A responsabilidade cristã, porém, alcança também aquilo que fazemos sem que um tribunal intervenha. Um vídeo fabricado, uma fala fora de contexto ou uma acusação sem fundamento podem ferir pessoas. E uma mentira não se torna justa porque prejudica alguém de quem discordamos.
O adversário também é próximo
“Não dê falso testemunho contra o seu próximo” (Êxodo 20:16, NAA). O mandamento coloca um limite claro à nossa maneira de falar sobre os outros. Aplicado à vida pública, ele nos lembra que a reputação alheia não está à disposição de nossas conveniências eleitorais.
O próximo não é somente quem frequenta nossa igreja, compartilha nossos valores ou recebe nosso voto. A pessoa de quem discordamos continua sendo alguém a quem devemos tratar com verdade e justiça.
Isso não impede a crítica firme, a fiscalização de autoridades ou a denúncia de erros comprovados. Preservar a verdade também exige que injustiças sejam expostas. O que não podemos fazer é inventar uma culpa, distorcer uma declaração ou apresentar suspeitas como fatos consumados.
Quando uma mensagem atribui falsamente uma conduta a alguém, não estamos diante de uma simples ferramenta de campanha. Há uma pessoa atingida. O alcance da publicação não diminui a responsabilidade de cada um que ajuda a espalhá-la.

Uma boa causa autoriza mentir?
Provérbios 12:22 apresenta a mentira como algo que Deus reprova e a fidelidade como algo que lhe agrada. O critério é o caráter de Deus, não a utilidade eleitoral da mensagem.
Mesmo assim, podemos tentar negociar com esse princípio. “O outro lado faz pior”, “precisamos defender a família”, “essa eleição é importante demais”. São justificativas que podem revestir de aparência religiosa uma escolha incompatível com a fé que professamos.
Defender uma causa que consideramos justa não nos concede autorização para mentir. Se precisamos falsificar a realidade para sustentar nossa posição, já estamos comprometendo nosso testemunho cristão.

Em João 8:44, Jesus relaciona o diabo à mentira. Essa passagem não deve virar um rótulo para atacar candidatos ou seus eleitores. Ela deve nos fazer examinar com seriedade nossa própria conduta: por que estaríamos dispostos a utilizar a falsidade para defender aquilo que chamamos de vontade de Deus?
A pergunta também alcança nossas preferências. Exigiríamos mais provas se a acusação fosse contra nosso candidato? Se a resposta for sim, precisamos reconhecer que nossa disposição para acreditar está sendo governada pela conveniência.
Antes de compartilhar, ame e confira
Em Efésios 4:25, Paulo orienta os cristãos a abandonar a mentira e falar a verdade ao próximo, relacionando essa conduta à vida em comunidade. Nossas palavras afetam os vínculos que nos unem. Podemos aplicar esse princípio também às mensagens que encaminhamos.
Receber algo de uma pessoa honesta não garante que o conteúdo seja verdadeiro. Ela também pode ter sido enganada. Da mesma forma, uma mensagem acompanhada de linguagem religiosa não dispensa verificação.
Antes de compartilhar, procure a publicação original, confira a data e observe o contexto. Veja se veículos jornalísticos confiáveis ou fontes diretamente relacionadas ao assunto confirmam a informação. Um trecho de vídeo pode omitir justamente a parte necessária para compreender a fala.

Se não conseguir confirmar uma acusação, suspenda o encaminhamento. Não temos obrigação de comentar tudo imediatamente. Esperar pode ser uma forma concreta de prudência e amor ao próximo.
Há diferença entre ser enganado e fabricar conscientemente uma mentira. Ainda assim, perceber sinais de dúvida e ignorá-los porque a mensagem favorece nosso lado exige arrependimento. E, quando descobrimos que compartilhamos algo falso, precisamos corrigir a informação no mesmo espaço em que a divulgamos. Apagar apenas do próprio celular não desfaz o dano causado aos outros.
Seguir a Cristo é andar na verdade
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, afirma Jesus em João 14:6 (NAA). No contexto, ele aponta para si como o acesso ao Pai. A verdade cristã está inseparavelmente ligada à pessoa de Cristo, a quem pertencemos e somos chamados a seguir.
Por isso, nossa relação com a informação também precisa ser alcançada pelo Evangelho. Não basta falar de Jesus enquanto usamos a reputação alheia como instrumento de disputa. A fé deve transformar o que publicamos, aquilo em que escolhemos acreditar e a disposição de reconhecer nossos erros.
Essa reflexão não nos coloca acima de quem caiu em uma notícia falsa. Todos precisamos da graça. Cristo morreu por pecadores e ressuscitou; nele há perdão para quem se arrepende, inclusive de mentiras espalhadas e injustiças alimentadas.
Receber esse perdão nos chama a confessar, corrigir e reparar o que for possível. Podemos procurar quem atingimos, reconhecer o erro diante do grupo e abandonar a necessidade de vencer toda discussão.
O voto merece responsabilidade. Nossa esperança, porém, está em Jesus Cristo. Nenhum resultado eleitoral nos dará a salvação que ele oferece, e nenhuma vitória política justifica desobedecer àquele que nos salvou. Antes de encaminhar a próxima mensagem, lembremos: o adversário também é nosso próximo, e a verdade continua sendo nosso compromisso.









