Eleições 2026: ódio político x Evangelho de Cristo

Eleições 2026: ódio político x Evangelho de CristoA nove dias do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, a temperatura política sobe em todo o país. Mas o que deveria ser disputa de ideias e propostas, em alguns casos, atravessa uma fronteira perigosa: a do ódio político nas eleições.

Nesta semana, a Agência Brasil relatou episódios recentes de violência contra candidatas. Em Pernambuco, uma deputada estadual foi atingida por uma pedra durante compromisso de campanha. No Espírito Santo, um artefato explosivo foi lançado contra integrantes da campanha de uma candidata a deputada federal. Houve ainda ameaças graves contra candidatas em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

Para o cristão, porém, o problema começa antes da pedra, da ameaça ou do explosivo.

Começa quando o coração aprende a olhar para quem pensa diferente e deixa de enxergá-lo como próximo.

Quando o adversário vira inimigo

A política pressupõe divergência. Em uma democracia, cidadãos podem discordar profundamente sobre economia, segurança, educação, costumes, políticas sociais e sobre o papel do Estado.

O Evangelho não exige que o cristão considere todas as ideias igualmente verdadeiras ou justas. Existem posições que podem e devem ser confrontadas à luz das Escrituras.

O problema começa quando deixamos de confrontar ideias e passamos a desumanizar pessoas.

Primeiro, discordamos de uma posição. Depois, reduzimos quem a defende a um rótulo. Em seguida, passamos a enxergá-lo apenas como alguém do “outro lado”. Por fim, sua humilhação, seu sofrimento ou até a violência contra ele parecem menos graves.

O ódio político nas eleições 2026 não aparece somente quando alguém atira uma pedra, faz uma ameaça ou pratica uma agressão.

Ele pode surgir no grupo da família, no comentário cruel nas redes sociais, no meme que transforma uma pessoa em objeto de desprezo ou na satisfação diante da desgraça de um adversário político.

Para quem confessa seguir Jesus Cristo, isso deveria acender um alerta.

Ódio político x Evangelho de Cristo: pessoas em lados opostos brigam na rua
A divergência política deixa de ser saudável quando ideias dão lugar à hostilidade e à desumanização de quem pensa diferente (Sergio Lima/AFP)

Jesus mandou amar o inimigo

No Sermão do Monte, Jesus apresenta uma das ordens mais desconcertantes do Evangelho:

“Amem os seus inimigos” (Mateus 5:44, NAA).

Cristo não afirmou que seus discípulos jamais teriam adversários. Ele determinou como deveriam tratá-los.

Amar alguém não significa concordar com suas ideias. Não significa votar nele. Não significa apoiar seu partido. Também não significa silenciar diante da injustiça ou abandonar convicções.

O cristão pode confrontar erros, denunciar o pecado e defender suas posições com firmeza.

Mas nenhuma divergência concede ao discípulo de Jesus licença para odiar.

Em Romanos 12, Paulo ensina que o cristão não deve pagar mal por mal e termina ordenando que o mal seja vencido com o bem.

A ética cristã, portanto, não pergunta apenas: “O que fizeram conosco?”. Ela também pergunta: “Como responderemos diante de Deus?”.

A ira não produz justiça

A carta de Tiago oferece um diagnóstico especialmente atual. O cristão deve ser tardio para falar e tardio para se irar, porque “a ira humana não produz a justiça de Deus” (Tiago 1:19-20, NAA).

Vale a pergunta nesta reta final das eleições: quanto daquilo que chamamos de “indignação justa” é realmente zelo pela justiça e quanto é simplesmente ira humana vestida de linguagem moral ou religiosa?

Gálatas 5 ajuda nesse exame. Ao descrever as obras da carne, Paulo menciona inimizades, discórdias, iras, rivalidades e divisões. Quando apresenta o fruto do Espírito, fala de amor, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Existe aí um teste espiritual importante para nossa participação política. Não basta ao cristão perguntar: “Estou defendendo a causa certa?”

Há uma segunda pergunta igualmente necessária: “Estou defendendo aquilo em que acredito de uma maneira compatível com Cristo?”

Porque uma causa considerada justa não transforma meios pecaminosos em meios santos.

Participantes do Pacto Nacional pela Paz e Tolerância nas Eleições 2026 durante cerimônia no TSE.
Organizações religiosas e entidades da sociedade civil participaram do Pacto Nacional pela Paz e Tolerância nas Eleições 2026, celebrado pelo TSE em setembro (Antonio Augusto/Secom/TSE)

Pacificadores em tempos de polarização

No início de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral celebrou, ao lado de organizações religiosas e entidades da sociedade civil, o Pacto Nacional pela Paz e Tolerância nas Eleições 2026. A iniciativa busca incentivar diálogo, respeito às diferenças, segurança e convivência pacífica durante o processo eleitoral.

É significativo que organizações religiosas estejam entre as participantes. A igreja cristã deveria conhecer bem o chamado à pacificação.

“Bem-aventurados os pacificadores”, ensina Jesus em Mateus 5:9.

Pacificadores, porém, não são pessoas indiferentes.

A paz bíblica não significa abandonar convicções, fingir que injustiças não existem ou fugir de todo conflito. O cristão pode denunciar o mal, exigir justiça, participar da vida pública e defender posições com firmeza.

O que ele não pode fazer é alimentar o ódio.

E aqui surge uma pergunta incômoda para nossas comunidades: Em um país ferido pela hostilidade política, nossas igrejas estão ajudando a curar essas feridas ou estão reproduzindo dentro dos templos a mesma guerra que vemos nas redes sociais?

Cristo é maior que a eleição

A política importa. Governantes tomam decisões que alcançam a vida real das pessoas. Políticas públicas geram consequências. O voto envolve responsabilidade.

Mas nenhuma eleição pode ocupar o lugar que pertence ao Evangelho.

No dia 4 de outubro haverá vencedores e derrotados nas urnas. Mandatos começam e terminam. Governos passam. Partidos crescem e diminuem.

O senhorio de Jesus Cristo, porém, não depende do resultado eleitoral.

E é justamente aqui que a cruz confronta o ódio político.

Romanos 5 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores e que fomos reconciliados com Deus quando éramos seus inimigos.

Esse é o coração do Evangelho: Deus tomou a iniciativa de reconciliar consigo pessoas que estavam afastadas dele.

Dois homens, um vestido de amarelo e outro vestido de vermelho, apertam as mãos em gesto de respeito e reconciliação apesar das diferenças, em frente à Praça dos Três Poderes
Amar o inimigo não significa abandonar convicções, mas recusar que a discordância seja transformada em ódio (T toes/Wikimedia Commons – CC BY 2.0).

Evangelho: inimigos em filhos

O Evangelho é a história de Deus transformando inimigos em filhos.

Por isso, há algo profundamente contraditório quando pessoas que afirmam ter sido reconciliadas por Cristo transformam a política em uma fábrica de inimigos.

Nestes últimos dias antes da eleição, talvez o exame mais importante do cristão não esteja apenas diante da urna, mas diante do próprio coração.

Antes de compartilhar, comentar, discutir ou atacar alguém, vale perguntar: isso é verdadeiro? É justo? Trata o outro com a dignidade de alguém criado à imagem de Deus? E, acima de tudo: isso honra a Cristo?

O Evangelho não proíbe a discordância política. Ele nos impede de usar a discordância como desculpa para deixar de amar.

Porque, para o discípulo de Jesus, nenhuma vitória eleitoral vale o preço de perder de vista aquele que Cristo mandou chamar de próximo.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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