Pastores e política nas eleições 2026: o púlpito não é palanque

Em ano eleitoral, manifesto do pastor Jorge Rodrigues Neto, escrito na ocasião das eleições 2018, recorda que líderes cristãos podem ter posições políticas, mas não devem controlar o voto dos fiéis

Em 2018, o pastor batista Jorge Rodrigues Neto escreveu o “Manifesto pela Democracia”. Oito anos depois, nas Eleições 2026, o texto permanece necessário. Talvez ainda mais necessário.

A relação entre pastores e política voltou a ocupar os púlpitos, as redes sociais e as conversas entre cristãos. Líderes religiosos apresentam candidatos, igrejas recebem políticos e preferências partidárias são, algumas vezes, anunciadas como se representassem a própria vontade de Deus.

O manifesto de Jorge Rodrigues segue em outra direção. O pastor reconhece que líderes cristãos também são cidadãos. Portanto, têm o direito de possuir opiniões políticas, escolher candidatos e participar do debate público. Assumir o ministério pastoral não retira de ninguém os direitos e deveres da cidadania.

Existe, porém, uma diferença fundamental entre manifestar uma posição pessoal e usar a autoridade espiritual para controlar a consciência dos fiéis.

Pastores podem ter candidatos

O pastor Jorge Rodrigues afirma que os líderes religiosos podem ter candidatos e dizer aquilo em que acreditam politicamente. Eles não podem, contudo, usar o púlpito, o templo ou os espaços sagrados para induzir os membros da igreja a votar nas mesmas pessoas.

Sua advertência é clara: o chamado “voto de cajado” não procede do Senhor.

A expressão descreve a tentativa de conduzir eleitoralmente uma comunidade por meio da autoridade pastoral. O fiel deixa de ser tratado como alguém responsável diante de Deus e passa a ser visto como parte de um rebanho eleitoral, conduzido na direção determinada por sua liderança.

Pastores e política: Congregação acompanha mensagem durante culto em uma igreja contemporânea
A autoridade pastoral deve ser usada para ensinar o Evangelho, e não para determinar as escolhas eleitorais da congregação. (Foto: Andrew DeGarde/Pexels)

Esse comportamento confunde orientação bíblica com controle político. Também concede ao pastor uma autoridade que Cristo não lhe deu.

Jorge resume esse princípio com uma frase forte:

“O púlpito não é nosso. O púlpito pertence somente ao Rei Jesus”.

Essa afirmação encontra eco nas palavras do apóstolo Paulo: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor” (2 Coríntios 4:5). O centro da pregação cristã não é o pastor, o partido, o governante ou o candidato. É Cristo.

Quando o púlpito se transforma em palanque, uma preferência humana corre o risco de receber o peso de uma ordem divina.

Não existe candidato de Deus

O manifesto também rejeita a ideia de um “candidato de Deus”.

Isso não significa que todas as propostas políticas sejam moralmente iguais ou que o cristão possa votar sem discernimento. A fé alcança todas as áreas da vida. Portanto, também deve orientar a maneira como avaliamos o caráter, as propostas, o compromisso com a justiça e a responsabilidade pública de cada candidato.

O problema surge quando um político é apresentado como representante exclusivo de Deus. Nesse momento, discordar do candidato pode parecer uma forma de discordar do próprio Senhor.

Pastores e política
A advertência do pastor Jorge é clara: o chamado “voto de cajado” não procede do Senhor.

Nenhum político merece ocupar esse lugar.

Candidatos são seres humanos pecadores, limitados e sujeitos ao erro. Devem ser examinados, questionados e cobrados. Nenhum deles pode ser revestido de uma autoridade espiritual que a Bíblia não lhe concede.

Segundo Jorge Rodrigues, o ministério confiado por Deus não deve ser usado para obter prestígio, influência ou benefícios pessoais. Sua finalidade é anunciar o Reino de Deus, chamar pecadores ao arrependimento e proclamar a salvação em Jesus Cristo.

Igreja e Estado têm papéis diferentes

Outro ponto importante do manifesto é a distinção entre Igreja e Estado.

Jorge explica que as duas instituições podem cooperar em determinadas situações, desde que busquem o bem comum. Igrejas podem participar de ações sociais, colaborar em momentos de calamidade, defender os vulneráveis e contribuir para a construção da paz.

Cooperação, porém, não significa submissão.

A Igreja não deve se submeter cegamente ao Estado. Quando autoridades exigem aquilo que contraria a Palavra de Deus, permanece válido o princípio apostólico: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Da mesma forma, a Igreja não deve exigir que o Estado se transforme em uma extensão de sua estrutura religiosa. O Estado laico não precisa ser inimigo da fé. Ele deve garantir que nenhuma religião controle o poder público e que o poder público não controle a consciência religiosa.

Essa distinção também protege a Igreja. Quando ela se torna dependente de governos, perde liberdade para confrontar injustiças e denunciar o pecado dos poderosos.

Urna eletrônica brasileira representa a liberdade de escolha do eleitor
O voto deve ser exercido com consciência e discernimento, sem que preferências humanas sejam apresentadas como ordens de Deus. (Foto: Tribunal Superior Eleitoral)

Cidadania vai além do voto

Jorge Rodrigues também adverte que a participação política não pode acontecer apenas nos anos eleitorais.

A cidadania começa em casa e se manifesta na rua, no bairro, na comunidade e na cidade. Ela inclui acompanhar os governantes, cobrar respostas, conhecer as necessidades dos vizinhos e participar da busca por soluções.

Votar é importante, mas não encerra a responsabilidade cristã.

O cristão serve ao bem comum quando age com honestidade, socorre o necessitado, denuncia a injustiça, respeita o próximo e cumpre seus deveres. A política não se resume ao que acontece em Brasília ou durante uma campanha. Ela está presente nas decisões que afetam a vida coletiva todos os dias.

Por isso, o papel do pastor não é entregar aos fiéis uma lista de candidatos. É ensiná-los a pensar biblicamente, agir com responsabilidade e tomar decisões diante de Deus.

Cristãos devem proteger a democracia

O manifesto defende ainda que o cristão protestante histórico deve ser um guardião da democracia e do Estado Democrático de Direito.

A democracia não é perfeita. Nenhum sistema criado por seres humanos é. Ela convive com conflitos, injustiças, abusos e limitações. Ainda assim, permite a participação popular, a alternância de poder, a fiscalização dos governantes e a resolução pacífica das disputas políticas.

Defendê-la também significa respeitar o resultado legítimo das urnas.

Réplica da Constituição Federal exposta diante do Congresso Nacional em Brasília
Defender a democracia também significa respeitar a Constituição, as instituições e o resultado legítimo das urnas. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Pastores e cristãos podem discordar de candidatos, partidos e governos. Podem criticar decisões e cobrar o cumprimento das leis. Não devem, entretanto, aceitar a democracia somente quando seu candidato vence.

Em 2026, essa advertência precisa ser ouvida novamente. Quem vencer legitimamente as eleições terá o direito de tomar posse, mesmo que não tenha recebido o nosso voto.

O compromisso democrático não pode depender de conveniência partidária.

Nossa esperança não está nas urnas

A defesa da democracia não significa transformar a política em fonte de salvação.

Governos possuem responsabilidades reais. Suas decisões podem proteger vidas ou aumentar o sofrimento. Por isso, não devemos tratar as eleições com indiferença. Mas também não podemos depositar em governantes a esperança que pertence somente a Cristo.

No encerramento de seu manifesto, o pastor Jorge Rodrigues pede que Deus tenha misericórdia da nação. Ele também recorda que a missão central da Igreja é anunciar Jesus Cristo como a resposta para as necessidades mais profundas de homens e mulheres.

A Igreja não foi chamada para conduzir pessoas até um partido. Foi chamada para conduzi-las a Cristo.

Jesus morreu pelos nossos pecados, ressuscitou para a nossa justificação e reina sobre todas as coisas. Somente pela fé nele recebemos perdão, reconciliação com Deus e uma nova vida. E aguardamos sua volta, quando o Senhor estabelecerá plenamente os novos céus e a nova terra, onde habita a justiça.

Até esse dia, participamos da sociedade, trabalhamos pelo bem comum e defendemos a democracia. Mas não entregamos o púlpito aos poderosos deste mundo.

O púlpito pertence a Jesus.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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