Entre o sagrado e o secular: como o cristão deve enxergar a arte

Entre o sagrado e o secular: como o cristão deve enxergar a arteNo Dia Nacional das Artes, uma pergunta se impõe aos cristãos: a Bíblia realmente divide a produção artística entre uma arte “gospel”, necessariamente boa, e outra “secular”, inevitavelmente pecaminosa?

Vivemos cercados pela arte. Ela está na música que ouvimos enquanto trabalhamos, nas séries que assistimos à noite, nos filmes que alimentam nosso imaginário, nos livros que nos comovem, nas fotografias que compartilhamos e nos vídeos que consumimos quase sem perceber.

Nunca se produziu tanto. Nunca tivemos acesso tão rápido a tantas histórias, imagens, canções e manifestações artísticas. Ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil contemplar verdadeiramente alguma coisa. Passamos de uma obra para outra, de uma tela para outra, num fluxo incessante de estímulos disputando nossa atenção.

Em 12 de agosto, o Brasil celebra o Dia Nacional das Artes, data dedicada às diferentes linguagens artísticas, como música, teatro, dança, circo, cinema, literatura e artes visuais. A ocasião oferece aos cristãos uma oportunidade importante: refletir não apenas sobre quais obras podemos ou não consumir, mas sobre como o Evangelho deve formar nosso olhar para a arte.

Durante muito tempo, parte do meio evangélico brasileiro adotou uma divisão rígida entre o sagrado e o secular. Se uma música menciona Deus e recebe o rótulo “gospel”, é considerada segura. Se um filme, uma canção ou um livro foi produzido fora dos limites visíveis da Igreja, passa a ser visto com desconfiança — quando não é imediatamente classificado como mundano.

Mas essa separação encontra sustentação nas Escrituras?

O Deus da Bíblia também é o Deus da beleza

A primeira página da Bíblia apresenta Deus como Criador. Ele não apenas faz com que as coisas existam; ele lhes dá forma, ordem, diversidade e beleza. Ao contemplar sua obra, Deus declara repetidamente que aquilo era bom. Ao final, vê tudo o que havia feito e reconhece que era “muito bom” (Gênesis 1.31, NAA).

O mundo criado por Deus não é apenas funcional. Há cores que não precisariam ser tão numerosas, sons que excedem sua utilidade imediata, paisagens que despertam assombro e uma variedade de formas que revela generosidade criativa. A beleza não é um acidente no universo de Deus.

Entre o sagrado e o secular: como o cristão deve enxergar a arte - Gravura histórica da Arca da Aliança construída sob a direção de Bezalel.
Em Êxodo, Deus concede a Bezalel habilidade, inteligência e conhecimento para realizar trabalhos artísticos (domínio público)

O ser humano, criado à imagem e semelhança divina, recebe a capacidade de cultivar, organizar, nomear e desenvolver as possibilidades da criação (Gênesis 1.26–28; 2.15,19–20). Não criamos do nada como Deus cria. Trabalhamos com sons, palavras, cores, movimentos, experiências e matérias que já existem. Ainda assim, nossa criatividade testemunha que fomos feitos à imagem do Criador.

Essa relação aparece de maneira especialmente clara em Êxodo 31. Deus escolhe Bezalel e diz que o “encheu do Espírito de Deus”, concedendo-lhe habilidade, inteligência e conhecimento para trabalhar com diferentes materiais e executar projetos artísticos (Êxodo 31.1–5, NAA).

Bezalel não foi capacitado para pregar um sermão ou comandar um exército. Foi chamado para produzir uma obra bela, habilidosa e apropriada ao culto de Israel. Isso desmonta a ideia de que o trabalho artístico seria espiritualmente inferior. Técnica, imaginação, excelência e sensibilidade também podem ser dons recebidos de Deus e colocados a serviço do próximo.

A queda atingiu a arte — mas não apagou a imagem de Deus

A Bíblia, evidentemente, não apresenta uma visão ingênua da criatividade humana. O pecado alcançou todas as dimensões da vida, inclusive a arte. Uma canção pode romantizar a infidelidade. Um filme pode transformar violência em entretenimento vazio. Uma narrativa pode tratar o egoísmo como liberdade, reduzir o corpo humano a objeto ou revestir a mentira de beleza.

A arte possui grande poder porque não fala apenas ao raciocínio. Ela alcança afetos, desejos, lembranças e imaginação. Muitas vezes, uma história nos leva a admirar determinada forma de vida antes mesmo que tenhamos examinado racionalmente aquilo que ela propõe.

Entretanto, afirmar que a queda atingiu a arte não significa dizer que toda obra produzida por alguém não cristão seja inteiramente má. Embora pecador, o ser humano continua sendo portador da imagem de Deus. Pela graça comum, pessoas que não confessam a fé cristã ainda podem criar obras tecnicamente excelentes, reconhecer aspectos da verdade, denunciar injustiças e retratar com profundidade a dor, o amor, a culpa, a esperança e a complexidade da condição humana.

Entre o sagrado e o secular: como o cristão deve enxergar a arte - Escultura clássica fragmentada, fotografada em preto e branco.
A queda alcançou a criatividade humana, mas não apagou completamente os sinais de beleza, dignidade e verdade presentes na arte (Crédito: Foto: Mert Yüce/Unsplash)

Um artista pode não conhecer a fonte última da beleza e, mesmo assim, perceber reflexos dela. Pode não compreender plenamente o drama bíblico da criação, queda e redenção, mas representar com honestidade o vazio provocado pelo pecado ou o desejo humano de restauração.

Por isso, a pergunta decisiva não é simplesmente se a obra é “gospel” ou “secular”. Esses rótulos dizem pouco sobre sua verdade, qualidade e influência moral.

Uma música não se torna bela apenas porque menciona Jesus. Um filme não se torna pecaminoso somente porque foi produzido em Hollywood. Há obras religiosas marcadas por superficialidade, manipulação emocional e pobreza estética. Também existem obras não religiosas que apresentam observações verdadeiras e comoventes sobre a realidade criada por Deus.

O senhorio de Cristo não está restrito aos produtos comercializados dentro do mercado cristão. Como argumenta Francis Schaeffer em Art and the Bible, a fé cristã oferece base para uma afirmação robusta das artes, e o interesse do cristão por elas não deve se limitar ao seu uso como instrumento de propaganda religiosa. Uma obra pode comunicar significado e honrar a Deus também por sua beleza, integridade e excelência.

O Evangelho nos chama ao discernimento

Superar a divisão simplista entre sagrado e secular não significa consumir qualquer obra sem critérios. O oposto do legalismo não é a ingenuidade, mas o discernimento.

Em Filipenses 4.8, Paulo orienta os cristãos a considerar tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama, virtuoso e digno de louvor. O texto não funciona como uma tabela mecânica de censura. Ele descreve uma mente educada para reconhecer aquilo que merece atenção.

O próprio Paulo demonstrou essa capacidade. Em Atenas, conheceu o pensamento e a produção cultural de seu tempo e chegou a citar poetas pagãos durante sua exposição no Areópago (Atos 17.22–28). Ele não aceitou a idolatria ateniense, mas também não se recusou a compreender aquela cultura. Encontrou nela pontos de contato para comunicar a verdade do Evangelho.

Obra de Rafael representando o apóstolo Paulo pregando no Areópago de Atenas.
No Areópago, Paulo não ignorou a cultura de Atenas nem se submeteu a ela: examinou-a e apresentou o Evangelho com discernimento (domínio público)

Essa postura está distante tanto da assimilação quanto do isolamento. Paulo não se tornou discípulo da cultura, mas também não teve medo de examiná-la. Seu compromisso com Cristo lhe permitiu aproximar-se com discernimento.

O cristão, portanto, precisa formular perguntas mais maduras diante de um filme, uma série, um livro ou uma música:

Que visão do ser humano essa obra apresenta? O que ela chama de liberdade? Como descreve o amor, o corpo, o poder, a família, a culpa e o perdão? O pecado é mostrado como destrutivo ou transformado em objeto de admiração? A obra reconhece alguma verdade sobre o mundo de Deus? Que desejos ela procura despertar em mim? Depois de contemplá-la, torno-me mais sensível à dignidade do próximo ou mais indiferente a ela?

Essas perguntas não produzem necessariamente a mesma decisão para todos. Há obras que podem ser apreciadas com gratidão. Outras exigirão reserva e crítica. Algumas devem ser evitadas porque exploram fraquezas pessoais, alimentam pecados ou ferem a consciência. O discernimento cristão também considera o efeito da obra sobre cada pessoa e o cuidado com o irmão, como ensina Paulo em Romanos 14.

Uma Igreja que apenas censura deixa de formar

Durante anos, muitas comunidades cristãs concentraram sua educação cultural em proibições: não ouça, não assista, não leia, não frequente. Algumas advertências eram legítimas. O problema é que dizer “não” sem formar uma visão bíblica da beleza deixa o cristão despreparado para viver no mundo.

Quando a Igreja não ensina seus membros a interpretar a cultura, outros mestres assumem essa função. Plataformas digitais, influenciadores, estúdios, gravadoras e algoritmos passam a educar silenciosamente nossos afetos.

Participantes de uma comunidade cristã reunidos para produzir trabalhos artísticos.
A Igreja deve fazer mais do que proibir: precisa formar cristãos capazes de apreciar, interpretar e produzir arte (Foto: Uniting Church Australia)

O desafio se tornou ainda maior na economia da atenção. Hoje, a arte convive com uma produção industrial de conteúdo planejada para gerar cliques, reações e permanência diante da tela. Nem tudo o que consumimos como arte foi criado para favorecer contemplação. Grande parte foi desenhada para impedir que paremos de consumir.

Isso exige uma disciplina cristã da atenção. Não basta perguntar se determinado conteúdo contém palavrões, nudez ou violência. Precisamos perguntar o que o consumo incessante está fazendo conosco. Estamos mais atentos à beleza e ao sofrimento do próximo ou apenas mais ansiosos por novos estímulos? Estamos contemplando obras ou acumulando conteúdos?

Em Arte e fé: uma teologia do criar, Makoto Fujimura propõe uma visão da criatividade ligada à generosidade, ao cuidado e à esperança da nova criação. Essa perspectiva ajuda a Igreja a abandonar uma relação exclusivamente defensiva com a cultura. O cristão não foi chamado apenas para denunciar aquilo que está quebrado, mas também para cultivar sinais de beleza em meio às ruínas.

Nem isolamento nem consumo sem critérios

A resposta cristã à arte não pode ser o medo. Também não pode ser a aceitação automática de tudo o que a cultura produz. O caminho bíblico é mais exigente: receber com gratidão, examinar com sabedoria, rejeitar o mal e preservar aquilo que é bom, conforme o princípio de 1Tessalonicenses 5.21–22.

Isso vale tanto para a arte produzida fora da Igreja quanto para aquela apresentada como cristã. Todo artista, toda obra e todo mercado cultural estão sujeitos à queda. E toda verdade, beleza e bondade genuínas pertencem, em última análise, a Deus.

Pessoa assiste a um conteúdo em vídeo pelo celular.
O desafio cristão não é apenas escolher o que consumir, mas perceber como as telas e os conteúdos estão formando nossa atenção e nossos desejos (Foto: Szabo Viktor/Unsplash)

Talvez, portanto, a pergunta mais urgente não seja: “O cristão pode assistir a esse filme?” A pergunta anterior é: “Que tipo de pessoa o Evangelho está formando para olhar esse filme?”.

Precisamos de discípulos que saibam contemplar sem idolatrar, apreciar sem aceitar tudo, criticar sem desprezar e criar sem transformar a fé em propaganda. Precisamos também de artistas cristãos que não se contentem com o rótulo religioso, mas busquem excelência, honestidade e profundidade em seu trabalho.

No Dia Nacional das Artes, a Igreja pode recordar que a beleza não pertence ao mundo como se Deus estivesse ausente dele. Toda a criação continua declarando sua glória. Mesmo ferida pela queda, ela ainda carrega sinais do Criador.

A arte pode mentir, seduzir e deformar. Mas também pode revelar, denunciar, consolar e despertar esperança. Diante dela, o discípulo de Cristo não fecha os olhos nem entrega sua consciência.

Ele aprende a contemplar.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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