No dia 5 de agosto, o calendário religioso recorda Osvaldo de Nortúmbria, rei cristão que viveu no século VII e se tornou conhecido por seu envolvimento com a evangelização da região que hoje corresponde ao norte da Inglaterra.
Osvaldo nasceu por volta do ano 604. Filho do rei Etelfrido, precisou deixar sua terra depois que o pai morreu em batalha. Durante o exílio, conviveu com cristãos ligados à tradição missionária de Iona, abraçou a fé cristã e foi batizado.
Anos depois, retornou à Nortúmbria, venceu o rei Cadwallon na Batalha de Heavenfield e assumiu o governo. Seu reinado durou aproximadamente oito anos, até sua morte, em 5 de agosto de 642, na Batalha de Maserfield.
Grande parte do que sabemos sobre Osvaldo foi registrada por Beda, o Venerável, em sua “História Eclesiástica do Povo Inglês”, escrita cerca de oito décadas depois. Beda não apresenta apenas fatos históricos. Também registra milagres e tradições devocionais desenvolvidas em torno da memória, dos restos mortais e dos lugares relacionados ao rei.
Por isso, é necessário distinguir aquilo que possui valor histórico daquilo que pertence à tradição religiosa medieval. Ainda assim, existem atitudes atribuídas a Osvaldo que encontram correspondência clara nas Escrituras e podem nos ensinar muito em uma época marcada pelo culto à personalidade, pelo abuso de poder e pela indiferença diante do sofrimento alheio.
Afinal, Osvaldo era santo?
Antes de observarmos seu testemunho, precisamos esclarecer o uso da palavra “santo”. Osvaldo começou a ser venerado pouco depois de sua morte, muitos séculos antes de a Igreja de Roma estabelecer os processos formais de canonização conhecidos atualmente.
Do ponto de vista bíblico, porém, os santos não constituem uma classe superior de cristãos reconhecida depois da morte. No Novo Testamento, todos aqueles que pertencem a Cristo são chamados de santos, isto é, pessoas separadas por Deus para viverem para a sua glória (Romanos 1.7; 1Coríntios 1.2; Efésios 1.1).
Podemos reconhecer bons exemplos deixados por cristãos do passado. A própria Bíblia nos orienta a considerar o resultado da vida de nossos líderes e imitar-lhes a fé (Hebreus 13.7). Isso é diferente, entretanto, de dirigir orações a pessoas que morreram, venerar seus restos mortais ou atribuir-lhes alguma função de mediação espiritual.
As Escrituras declaram que existe “um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus” (1Timóteo 2.5). Podemos aprender com Osvaldo, portanto, sem transformá-lo em destinatário de nossa fé. Todo testemunho verdadeiramente cristão deve conduzir nossos olhos não ao ser humano, mas a Jesus.

1. Usou o poder para servir
Logo depois de assumir o trono, Osvaldo pediu aos cristãos de Iona que enviassem alguém para ensinar o Evangelho ao seu povo. O missionário escolhido foi Aidano, que recebeu a ilha de Lindisfarne como base para o trabalho de evangelização da Nortúmbria.
Aidano, porém, não falava a língua dos anglo-saxões. Como Osvaldo havia aprendido a língua dos missionários durante o exílio, o próprio rei passou a atuar como intérprete enquanto o bispo anunciava o Evangelho.
A cena é significativa: o homem que ocupava o lugar mais alto do reino colocou sua capacidade, seu tempo e sua autoridade a serviço da proclamação da Palavra. Osvaldo poderia exigir o centro das atenções, mas aceitou cumprir uma função auxiliar para que outros conhecessem a Cristo.
Isso confronta diretamente a forma como o poder costuma ser exercido em nossos dias. Até mesmo a fé cristã tem sido utilizada por políticos, líderes religiosos e influenciadores como ferramenta de autopromoção. O nome de Jesus aparece em discursos, slogans e eventos, mas frequentemente funciona apenas como um degrau para projetos pessoais.
O Evangelho inverte essa lógica. Jesus ensinou que, entre seus discípulos, aquele que deseja tornar-se importante deve ser servo, pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e entregar sua vida em resgate por muitos (Marcos 10.42-45).
Uma posição de influência não deve ser usada para fazer do Evangelho um servo de nossas ambições. Nossos dons, recursos e espaços de poder é que devem ser colocados a serviço do Reino de Deus.
2. Conservou a humildade
Beda afirma que, mesmo depois de se tornar um dos governantes mais poderosos da Grã-Bretanha de seu tempo, Osvaldo permaneceu humilde, acessível e generoso para com pobres e estrangeiros.
O relato sobre sua colaboração com Aidano reforça essa descrição. Embora fosse rei, Osvaldo ouvia as orientações do missionário e se colocava ao lado dele para traduzir sua pregação. Em vez de considerar sua posição uma prova de autossuficiência, reconhecia que ainda precisava aprender e servir.
A humildade se torna especialmente rara quando alguém conquista poder. Autoridade, dinheiro, fama e prestígio podem criar a ilusão de que uma pessoa está acima da correção, do conselho e das necessidades dos outros.
Essa tentação também alcança os ambientes religiosos. Existem líderes que falam muito sobre submissão, mas não se submetem a ninguém; exigem prestação de contas, mas não aceitam ser questionados; apresentam-se como servos enquanto constroem impérios em torno do próprio nome.

Cristo, porém, não apenas ensinou a humildade. Ele a encarnou. Embora sendo Deus, esvaziou-se, assumiu a condição de servo e humilhou-se até a morte de cruz (Filipenses 2.5-8). Diante dele, nenhuma posição humana é grande demais para servir nem importante demais para se ajoelhar.
A verdadeira grandeza cristã não aparece na quantidade de pessoas que nos obedecem, mas na disposição que temos de amar, ouvir, aprender e servir.
3. Praticou generosidade concreta
Um dos episódios mais conhecidos da vida de Osvaldo teria ocorrido durante uma refeição de Páscoa. Enquanto o rei estava à mesa com Aidano, um servo informou que uma multidão de pessoas pobres aguardava do lado de fora pedindo ajuda.
Segundo Beda, Osvaldo mandou que a comida preparada para ele fosse distribuída entre os necessitados. Depois, ordenou que uma bandeja de prata fosse quebrada e seus pedaços também entregues aos pobres.
A tradição acrescentou ao episódio relatos envolvendo milagres e a preservação da mão do rei. Não precisamos aceitar essas narrativas para perceber o valor do gesto registrado: diante da fome de seu povo, Osvaldo não ofereceu apenas palavras, orações ou aquilo que já não lhe fazia falta. Ele abriu mão da própria refeição e de parte de sua riqueza.
A generosidade bíblica não consiste somente em sentir pena. Ela transforma compaixão em ação. O apóstolo João ensina que, se alguém possui recursos e, vendo seu irmão em necessidade, fecha-lhe o coração, o amor de Deus não permanece nele. Por isso, não devemos amar apenas de palavra, mas com ações e em verdade (1João 3.16-18).

Esse ensino é urgente em uma sociedade na qual a miséria muitas vezes se transforma em cenário para a autopromoção. Fotografam-se doações, divulgam-se os necessitados e constroem-se imagens públicas de bondade. Em alguns casos, o pobre recebe uma cesta enquanto aquele que a entrega recebe publicidade, votos e prestígio.
Jesus advertiu que não devemos praticar boas obras com o objetivo de sermos vistos e elogiados pelas pessoas (Mateus 6.1-4). A caridade cristã não utiliza o necessitado como figurante da vaidade de quem doa. Ela reconhece nele alguém criado à imagem de Deus, a quem devemos servir com amor, dignidade e discrição.
Um testemunho aponta para Cristo
Osvaldo de Nortúmbria não deve ser transformado em herói perfeito. Ele foi um rei guerreiro, chegou ao poder depois de uma batalha e morreu em outro conflito militar. Não conhecemos todas as motivações políticas envolvidas nesses acontecimentos, e seria imprudente interpretar suas vitórias como provas automáticas da aprovação de Deus.
Também não precisamos acolher as tradições sobre milagres, relíquias e poderes atribuídos aos seus restos mortais. A nossa fé não está depositada em reis, governantes, missionários ou personagens canonizados, mas exclusivamente em Jesus Cristo.

Ainda assim, podemos reconhecer aquilo que, em seu testemunho, corresponde ao Evangelho: Osvaldo colocou sua influência a serviço da proclamação da Palavra, procurou conservar a humildade em meio ao poder e demonstrou generosidade diante das necessidades dos pobres.
Essas três atitudes fazem diferença em qualquer época. Em um mundo no qual muitos usam a fé para conquistar poder, o cristão é chamado a usar tudo o que possui para servir. Em uma sociedade que exalta o ego, somos convocados à humildade. E diante de tanta pobreza e indiferença, precisamos amar não apenas com discursos, mas com ações concretas.
O melhor testemunho cristão não termina na admiração pelo ser humano que o oferece. Ele aponta para Cristo, de quem procede toda graça, em quem encontramos o único Salvador e a quem pertence toda a glória.









