Neste domingo (9), comemoraremos o Dia dos Pais. Nós, pais, convivemos com um desafio que nem sempre conseguimos colocar em palavras. Queremos que nada falte aos nossos filhos. Por isso, trabalhamos, fazemos planos, pagamos contas e carregamos preocupações que muitas vezes guardamos em silêncio.
Tudo isso pode nascer de um amor verdadeiro. Mas existe uma pergunta incômoda: enquanto nos esforçamos para colocar o pão sobre a mesa, ainda estamos nos sentando à mesa com nossos filhos?
Essa tensão faz parte da realidade de muitos pais brasileiros. Desde cedo, o homem aprende que seu valor está relacionado à capacidade de prover. Quando perde o emprego, enfrenta dívidas ou não consegue oferecer o padrão de vida que imaginou para a família, não sente apenas uma dificuldade financeira. Frequentemente, interpreta a situação como um fracasso pessoal.
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Uma pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Vargas em 2025 mostrou que a perda do emprego parental aumenta em 24% a probabilidade de os filhos receberem diagnóstico de transtornos mentais. O sofrimento psicológico e os conflitos familiares estão entre os mecanismos que explicam esse impacto. A insegurança econômica não atinge somente o bolso: atravessa os relacionamentos e altera o ambiente da casa.
Presentes, mas ausentes

É justo reconhecer a dignidade do pai que trabalha arduamente para sustentar sua família. Prover alimento, moradia, educação e segurança é uma expressão concreta de cuidado. O problema começa quando a provisão material passa a substituir todas as outras formas de amor.
É possível morar com os filhos e não conhecer seus medos. É possível pagar a escola e não saber o nome de seus amigos. É possível garantir acesso à internet e nunca perguntar o que eles encontram nas telas. A ausência paterna nem sempre deixa uma cadeira vazia; algumas vezes, deixa um coração inacessível dentro da própria casa.
A presença também aparece nas tarefas comuns. Segundo o IBGE, em 2022, os homens dedicavam, em média, 11,7 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto as mulheres dedicavam 21,3 horas. Esses números não devem alimentar uma competição entre pais e mães, mas nos fazer recordar que cuidar não é “ajudar” a mulher. É assumir nossa responsabilidade.
Dar banho, preparar uma refeição, acompanhar uma consulta, ajudar na tarefa escolar e escutar uma história repetida são formas de presença paterna. O pai brasileiro aprendeu que amar é trabalhar pelos filhos; agora precisa descobrir que amar também é trabalhar o relacionamento com eles.
O que a Bíblia chama de cuidado

A Bíblia não despreza a provisão material. Em 1 Timóteo 5.8, Paulo ensina que aquele que não cuida dos seus, especialmente dos membros de sua casa, nega a fé. No contexto, o apóstolo trata da responsabilidade pelos familiares necessitados. A fé cristã, portanto, não combina com indiferença diante das necessidades de quem Deus colocou perto de nós.
Mas o cuidado bíblico não termina no sustento financeiro. Em Deuteronômio 6, os pais são orientados a ensinar a Palavra aos filhos assentados em casa, andando pelo caminho, ao deitar e ao levantar. Essa formação depende de convivência. Ela acontece na mesa, no carro, durante uma dificuldade e nas conversas comuns de cada dia.
Em Efésios 6.4, os pais recebem a missão de criar os filhos na disciplina e na instrução do Senhor, sem provocá-los à ira. Isso exige mais do que autoridade. Exige proximidade suficiente para conhecer cada filho, corrigir sem humilhar e perceber quando, por trás de uma reação difícil, existe um pedido de atenção.
A Escritura não permite que escolhamos entre prover e estar presentes. Deus nos chama a cuidar da pessoa inteira.
Pais fiéis, não onipotentes

Talvez uma das maiores libertações do Evangelho seja descobrir que nossos filhos não precisam de pais onipotentes. Não conseguiremos evitar todas as faltas, oferecer todas as oportunidades nem controlar o futuro. Nossa identidade também não pode depender do salário, do cargo ou do sucesso que os filhos alcançarem.
Em Cristo, não precisamos provar nosso valor todos os dias. Somos alcançados pela graça e, por causa dela, podemos admitir cansaço, procurar ajuda, confessar erros e pedir perdão. Ser um pai presente não significa nunca falhar, mas não usar a própria fragilidade como desculpa para permanecer distante.
Nossos filhos não precisam de um pai que consiga tudo. Precisam de um pai que lhes abra o coração, cumpra sua responsabilidade e permaneça ao lado deles.
Neste Dia dos Pais, talvez o melhor presente não seja aquele que receberemos, mas o que podemos devolver aos nossos filhos: nossa atenção. Colocar o pão sobre a mesa é uma forma de amor. Sentar-se à mesa com eles também é.









