“Uma civilização inteira morrerá esta noite”: uma reflexão sobre a ameaça de Donald Trump ao Irã

"Uma civilização inteira morrerá esta noite": uma reflexão sobre a ameaça de Donald Trump ao IrãO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta terça-feira (7) que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”. A sentença é direcionada ao Irã. O presidente americano deu um prazo até às 20h desta terça pelo horário de Washington (21h de Brasília) para que o governo iraniano firme um acordo que permita a navegação pelo estreito de Ormuz. Depois disso, segundo Trump, em apenas quatro horas, todas as pontes e usinas de energia do país serão “dizimadas”.

Leia também: O cristianismo maquiavélico

Como nosso papel na coluna Fé Pública é tratar de fatos cotidianos à luz do Evangelho de Cristo, passamos a apresentar abaixo, na íntegra, a reflexão compartilhada pelo reverendo Pedro Muniz, da Igreja Anglicana Trindade, em Vitória, sobre a incompatibilidade da fala e atitude do presidente americano com a fé cristã.

NÃO É POSSÍVEL SEGUIR O CORDEIRO E CELEBRAR A ESPADA

Há frases que não são apenas políticas. Elas são reveladoras. Revelam não apenas uma estratégia, mas uma forma de enxergar o mundo, o poder e, sobretudo, o valor da vida humana.

Quando uma liderança mundial é capaz de dizer algo assim, não estamos apenas diante de uma ameaça geopolítica. Estamos diante de uma lógica, uma forma de enxergar o mundo e o outro. E toda lógica carrega uma espiritualidade, ainda que não se perceba.

"Uma civilização inteira morrerá esta noite": uma reflexão sobre a ameaça de Donald Trump ao Irã
Reverendo Pedro Muniz, da Igreja Anglicana Trindade

O problema, portanto, não começa na guerra. Começa na forma como passamos a justificá-la.

Você vê que fracassamos como humanidade, e ainda mais como cristãos, quando o debate deixa de ser sobre o horror da guerra e passa a ser sobre qual guerra é mais justa. Quando nos vemos discutindo qual violência é aceitável, qual morte é necessária, qual destruição pode ser relativizada, já não estamos mais operando a partir do Evangelho, mas de uma racionalidade completamente moldada pelo poder.

Para nós, cristãos, mal nenhum deve ser meio para que bem algum seja alcançado. Sempre que essa desculpa aparece, é sinal de que nos perdemos em algum momento do caminho. Bem nenhum é suficiente para que, em algum grau, o mal seja relativizado. Esse não é e nunca foi o modo de agir de Jesus, e não é por aí que um discípulo dele deve caminhar.

Vivemos tempos de delírio coletivo, onde o ódio se tornou linguagem comum e a violência passou a ser vista como alternativa plausível.

Em tempos assim, orar é (re)existir. Resistir ao ódio, resistir à tentação de transformar o mal e a mentira nas armas da nossa luta.

Orar é permanecer com os pés no chão enquanto todos parecem já ter abandonado por completo a própria razão.

A Igreja precisa ser esse lugar de lucidez em meio à insanidade. Um espaço que não ecoa a violência, mas a confronta. Que não se alinha a discursos de destruição, mas aponta para uma outra forma de existir no mundo.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós, porque uma Igreja que não se escandaliza mais com a morte já começou a fazer as pazes com a violência.

E quando isso acontece, deixamos de seguir o Cordeiro e começamos, ainda que sem perceber, a admirar a espada.

Paz e bem.

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