A blasfêmia de Donald Trump e a intolerância de Luana Piovani contra os evangélicos

A blasfêmia de Donald Trump e a intolerância de Luana Piovani contra os evangélicosO noticiário recente expôs duas situações distintas, mas profundamente conectadas: de um lado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizando uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece como Jesus Cristo, ao mesmo tempo em que desfere ataques públicos ao papa Leão XVI; de outro, a atriz Luana Piovani, que classificou evangélicos como “o que há de pior do ser humano” e um “ser desprezível”.

À primeira vista, são episódios desconexos. Mas, à luz do Evangelho, ambos revelam o mesmo problema: a distorção da fé cristã no espaço público — ora como instrumento de poder, ora como alvo de desprezo.

Quando Cristo é reduzido a símbolo político

A Bíblia Sagrada é clara: Cristo é o único cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23). Por isso, as Escrituras não reconhecem o papado como instituição bíblica nem o papa como líder universal da Igreja. Ainda assim, essa discordância teológica não autoriza desrespeito.

Leia também: Donald Trump é o Anticristo? Entenda o que diz a Bíblia

O que se viu nas declarações de Trump vai além de crítica política ou religiosa. Ao atacar a figura de um líder religioso e, principalmente, associar-se simbolicamente à imagem de Cristo — Deus Filho — o que está em jogo é algo mais grave: a banalização do que é sagrado.

A blasfêmia de Donald Trump e o ódio de Luana Piovani contra os evangélicos
Postagem de Trump se passando por Cristo na rede Truth Social

A Escritura adverte: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Êxodo 20:7). Isso não se limita a palavras, mas inclui qualquer tentativa de usar Deus como instrumento de autopromoção ou legitimação de poder. Embora o presidente dos EUA tenha alegado que a imagem o representava como médico, pelas vestes, pelo “poder de cura”, pelos seres celestiais, pela posição de devoção das pessoas na imagem e pelo contexto, fica óbvio que ele estava se retratando como o próprio Cristo. Blasfêmia.

Cristo não é símbolo político. Não é ferramenta ideológica. Não pode ser apropriado por projetos humanos — sejam eles de direita, esquerda ou qualquer outro espectro.

Quando a fé é reduzida a caricatura

Se, de um lado, há quem instrumentalize a fé, do outro há quem a reduza a caricatura.

As declarações de Luana Piovani não são apenas críticas. Ao afirmar que evangélicos são “o pior do ser humano” e um grupo “desprezível”, ela ultrapassa o campo da opinião e entra no terreno da desumanização.

Em uma sociedade democrática, a liberdade de expressão não pode ser confundida com licença para generalizações que atacam a dignidade de milhões de pessoas por sua fé. Há, inclusive, elementos que podem caracterizar intolerância religiosa, à luz da legislação brasileira.

Mais do que juridicamente questionável, a fala é moralmente desproporcional. Ao nivelar evangélicos como inferiores, ignora uma realidade complexa — e profundamente contraditória.

Entre o testemunho e o antitestemunho

É verdade: há distorções no meio evangélico. Escândalos, abusos, manipulações e incoerências existem — e precisam ser reconhecidos.

A própria Bíblia antecipa isso: “o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Romanos 2:24).

Ignorar esse fato seria desonestidade. Mas usá-lo para justificar preconceito é igualmente errado.

Isso, porque há um outro lado que é muito frequentemente invisibilizado no debate público.

Em momentos de crise, como nas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, igrejas evangélicas estiveram entre as primeiras a agir, mobilizando toneladas de ajuda e voluntários em resgates, antes mesmo do poder público se organizar para agir. Em todo o país, comunidades terapêuticas — em sua maioria ligadas a igrejas evangélicas — atendem dezenas de milhares de dependentes químicos todos os anos. Redes de assistência social atuam onde o Estado não chega, oferecendo alimento, cuidado psicológico e suporte médico. Nos presídios, a grande maioria das assistências religiosas e dos projetos de assistência socioeducativa externos são realizados por evangélicos. Na Amazônia e em regiões isoladas, missionários levam não apenas fé, mas dignidade, saúde e preservação cultural.

Essa realidade não anula os erros — mas desmonta a caricatura.

O verdadeiro problema

Os dois episódios revelam um ponto central: a crise de compreensão sobre o que é, de fato, o cristianismo.

Para alguns, a fé é ferramenta de poder. Para outros, é sinônimo de hipocrisia.

Mas o Evangelho não se encaixa em nenhuma dessas distorções.

Cristo não veio para ser usado em nome do poder — nem para ser reduzido ao comportamento falho de seus seguidores.

Ele veio para salvar pecadores. E isso inclui líderes políticos que distorcem a fé, artistas que a desprezam e também cristãos que falham em vivê-la. Inclui eu e inclui você.

A blasfêmia de Donald Trump e o ódio de Luana Piovani contra os evangélicos
Ao lavar os pés dos apóstolos, inclusive daquele que o trairia, Jesus demonstra na prática para seus discípulos que sua liderança é servidora e que eles deveriam seguir o seu exemplo – Jesus não flerta com poderes temporais e serve em amor inclusive aqueles que o desprezam

Um chamado à coerência

Diante disso, a resposta não está em defender instituições ou atacar críticos. Está em recuperar a essência.

Aos que estão fora da fé, cabe o desafio da honestidade: não julgar o cristianismo apenas por suas piores expressões.

Aos que estão dentro, o chamado é ainda mais sério: “Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14).

Quando a Igreja perde sua luz, o mundo não apenas critica — ele distorce, rejeita e, muitas vezes, despreza.

E, em parte, com razão.

A blasfêmia de Donald Trump e a intolerância de Luana Piovani contra os evangélicos

O nome de Cristo em jogo

No fim, o problema não é apenas o que dizem sobre Cristo — mas o que fazem com o nome dEle.

Entre o uso político e o desprezo público, a fé cristã segue sendo tensionada.

E, nesse cenário, a responsabilidade dos cristãos é claríssima: viver de tal forma que Cristo não seja nem ferramenta, nem caricatura — mas reconhecido como Senhor.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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