Direita ou esquerda: de que lado o cristão está?

Direita ou esquerda: de que lado o cristão está?Estamos em ano de eleições gerais. E o cumprimento do calendário eleitoral 2026 já está movimentando a política nacional de forma frenética, até que se cumpra, no dia 4 de outubro, com a disputa do primeiro turno do pleito, que definirá deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República.

Em tempos de eleição — sobretudo de eleições gerais — não tem sido raro ver amizades estremecidas, famílias divididas e igrejas tensionadas por discussões políticas. Em meio a esse cenário, uma pergunta surge com força entre cristãos: afinal, o seguidor de Jesus está à direita ou à esquerda?

A pergunta é legítima… mas perigosa.

Perigosa porque carrega uma suposição silenciosa: a de que o Evangelho pode ser encaixado, sem grandes perdas, dentro de um desses lados. E é justamente aí que mora o problema.

O Evangelho — a boa notícia da revelação eterna de Deus em Cristo Jesus e sua obra redentora para a salvação de todo o que crê — não cabe em categorias ideológicas. Sempre que tentamos reduzi-lo a um projeto político, não elevamos a política — diminuímos o Senhor Jesus Cristo.

Antes de tudo: a quem o cristão pertence?

A resposta começa com uma redefinição de identidade.

“Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Romanos 14.8)

O mesmo apóstolo Paulo ainda afirma: “A nossa cidadania, porém, está nos céus” (Filipenses 3:20, NVI). Isso não significa fuga da realidade, mas estabelece prioridade: o cristão vive na terra, mas pertence ao Reino de Deus.

Jesus não é um agente político disputando espaço entre ideologias. Ele é Rei. E seu senhorio não se limita a um espectro: confronta todos eles.

Quando essa ordem se inverte, a política deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. E, nesse ponto, a fé começa a ser instrumentalizada.

O que são “direita” e “esquerda”, afinal?

Para tratar o tema com seriedade, é preciso evitar caricaturas. O cientista político Norberto Bobbio, em Direita e Esquerda, propõe uma distinção central.

Direita ou esquerda: de que lado o cristão está?
Filósofo político Norberto Nobbio, autor do livro “Direita e Esquerda”, no qual ele introduziu a ideia de que a distinção fundamental entre os dois polos é a atitude em relação à igualdade (a esquerda a vê como algo a ser buscado, a direita vê as desigualdades como naturais ou inevitáveis).

Para ele, a esquerda tende a enfatizar a busca por igualdade: considera as desigualdades sociais como algo que deve ser reduzido ou superado pela ação política coletiva (especialmente pelo Estado). Acredita que a maioria das desigualdades não é “natural” ou inevitável, mas fruto de relações sociais e econômicas que podem e devem ser transformadas em direção a uma sociedade mais igualitária (não necessariamente igualitária em tudo, mas com menos abismos).

Já a direita, segundo Bobbio, tende a considerar as desigualdades como naturais ou inevitáveis (decorrentes de talentos, esforços, sorte, tradição, mercado etc.), e portanto não merecem ser combatidas ativamente pelo poder público. Valoriza mais a liberdade negativa (não interferência) e a meritocracia, aceitando hierarquias como justas ou funcionais.

A partir disso, é possível identificar tendências gerais:

  • Direita: valoriza responsabilidade individual, liberdade econômica, tradição, ordem social e instituições como a família.
  • Esquerda: enfatiza justiça social, redução de desigualdades, atuação do Estado e proteção de grupos vulneráveis.

Mas é fundamental reconhecer que nenhuma dessas correntes nasce das Escrituras. Ambas são construções humanas e, portanto, limitadas, parciais e afetadas pelo pecado.

Onde há convergência com o Evangelho

A teologia reformada, especialmente na doutrina da graça comum, reconhece que traços de verdade e justiça podem aparecer em diferentes estruturas humanas.

Afinidades frequentemente associadas à direita

A responsabilidade individual encontra respaldo bíblico:

“…Cada um deverá levar a própria carga” (Gálatas 6:5, NVI)

A importância da ordem e da autoridade também é afirmada:

“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais…” (Romanos 13:1, NVI)

A centralidade da família é outro ponto consistente:

“Filhos, obedeçam a seus pais… Pais, não irritem seus filhos…” (Efésios 6:1-4, NVI)

Esses elementos revelam que há ecos reais do ensino bíblico nesse campo.

Afinidades frequentemente associadas à esquerda

Por outro lado, a preocupação com os vulneráveis é inegociável nas Escrituras:

“Quem oprime o pobre demonstra desprezo pelo seu Criador…” (Provérbios 14:31, NVI)

Os profetas denunciaram a injustiça estrutural:

corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” (Amós 5:24, NVI)

E Jesus se identifica diretamente com os necessitados:

“Tive fome, e vocês me deram de comer…” (Mateus 25:35, NVI)

Ignorar isso não é uma opção para quem leva o Evangelho a sério.

Direita ou esquerda: de que lado o cristão está?
Somente a partir de uma relação íntima com Cristo através da oração e de Sua Palavra é que O conheceremos melhor; desta forma poderemos discernir com mais sabedoria e temor as nuances da vida em todas as áreas, inclusive na política

Onde surgem os conflitos

Se há pontos de contato, há também tensões profundas. E ignorá-las é desonesto.

Tensões frequentemente associadas à direita

Quando a responsabilidade individual é levada ao extremo, pode se tornar indiferença diante do sofrimento:

Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso?” (Tiago 2:15-16, NVI)

Além disso, a absolutização do mercado ou do acúmulo de riqueza entra em choque com o ensino de Cristo:

“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mateus 6:24, NVI)

Há aqui um alerta claro contra a idolatria econômica.

Tensões frequentemente associadas à esquerda

Por outro lado, quando a busca por igualdade ignora a responsabilidade pessoal, há distorção:

“Se alguém não quiser trabalhar, também não coma” (2 Tessalonicenses 3:10, NVI)

Além disso, visões marcadas por materialismo ou exclusão de Deus entram em conflito com a fé cristã:

“Trocaram a verdade de Deus pela mentira…” (Romanos 1:25, NVI)

Há também o risco de concentração excessiva de poder, algo historicamente problemático e teologicamente questionável.

A lente cristã: lucidez diante do poder

A tradição cristã reformada oferece equilíbrio. João Calvino, nas Institutas (Livro IV), reconhece o governo civil como instrumento de Deus, mas rejeita qualquer forma de absolutização.

Abraham Kuyper desenvolve o princípio da “soberania das esferas”: Estado, igreja, família e mercado têm limites próprios e não devem dominar uns aos outros.

Herman Bavinck reforça que toda estrutura humana é afetada pelo pecado, ainda que sustentada pela graça comum.

O resultado é uma visão sóbria: nenhum sistema político é capaz de redimir o ser humano.

Como o cristão deve pensar na prática

Diante disso, a pergunta muda. O cristão não deve começar perguntando “qual lado estou?”, mas: “Isso está de acordo com os princípios do Reino de Deus?”

Alguns critérios bíblicos que ajudam nesse discernimento:

  • Isso preserva a dignidade da vida humana? (Gênesis 1:27)
  • Promove justiça sem negar responsabilidade pessoal?
  • Cuida dos vulneráveis sem incentivar dependência destrutiva?
  • Respeita limites de poder ou concentra autoridade excessiva?
  • Está alinhado com a verdade ou se apoia em manipulação?

Esses são apenas alguns exemplos de questionamentos que precisamos nos fazer. Esse tipo de análise exige maturidade e impede alinhamentos cegos.

Idolatria a Lula e Bolsonaro; Direita ou esquerda: de que lado o cristão está?
A arte de Gabriel Renner é incômoda: revela a idolatria na qual muitos cristãos caíram nas duas últimas eleições gerais no Brasil

O maior risco: quando política vira religião

O problema mais grave do nosso tempo não é o envolvimento político dos cristãos, mas sim a idolatria política.

Quando líderes são tratados como salvadores, quando ideologias se tornam inquestionáveis e quando o Evangelho é usado para legitimar posições pré-definidas e, pior, para manipular… algo se rompe.

Nesse cenário, Cristo deixa de ser o centro e passa a ser argumento. E isso é espiritualmente perigoso.

Conclusão

A pergunta “Direita ou esquerda?” pode até iniciar uma conversa, mas não pode definir a identidade cristã. O Evangelho não cabe em nenhum desses lados. Ele confronta ambos.

O cristão vive na sociedade, participa, vota, opina… mas não se submete ideologicamente. Seu compromisso é maior.

O seu lado é Cristo.

E isso significa, inevitavelmente, viver em tensão com qualquer sistema que tente ocupar o lugar que pertence somente a Ele.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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