Maconha, Parkinson e o Evangelho: o que está em jogo?

Maconha, Parkinson e o Evangelho: o que está em jogo?Neste sábado, 11 de abril, quando se celebra o Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson, uma discussão inevitável volta à tona: o uso de substâncias derivadas da cannabis, como o CBD, no tratamento de sintomas da doença.

Estima-se que 0,8% da população brasileira e aproximadamente 3% dos idosos acima de 65 anos sejam portadores da Doença de Parkinson, considerada a enfermidade neurológica de crescimento mais rápido no mundo.

Para muitos, especialmente no meio cristão, o tema da cannabis ainda provoca rejeição automática. A palavra “maconha” costuma encerrar o debate antes mesmo que ele comece. Mas a realidade impõe uma pergunta desconfortável: como uma substância tão estigmatizada pode, ao mesmo tempo, aliviar o sofrimento de pessoas reais?

Talvez o problema não esteja na planta. Talvez esteja em como olhamos para ela — e, mais profundamente, em como lidamos com a própria criação de Deus.

A criação é boa — e isso inclui o que desconhecemos

A Bíblia não deixa margem para dúvida:

“Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom” (Gênesis 1:31, NVI)

E mais:

“Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças” (1 Timóteo 4:4, NVI)

Isso estabelece um princípio fundamental: a criação, em sua essência, é boa. Plantas, substâncias, elementos naturais — todos fazem parte dessa realidade criada por Deus.

João Calvino reforça essa compreensão ao afirmar:

“Não há nada na criação que não seja destinado ao uso do homem, desde que usado com gratidão e moderação” (Institutas da Religião Cristã, Livro III, cap. 10)

O ponto é claro: o problema não está, necessariamente, na existência da cannabis.

Maconha, Parkinson e o Evangelho: o que está em jogo?
Substâncias derivadas da maconha  são utilizadas para tratar tanto sintomas motores quanto não motores da doença de Parkinson, como tremores, rigidez muscular, discinesia, dor crônica, ansiedade, depressão e dificuldade de sono

O problema não é a criação — é o coração humano

Se tudo foi criado bom, por que tanta confusão?

A própria Escritura responde:

“O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa…” (Jeremias 17:9, NVI)

E ainda:

“A criação foi sujeita à futilidade…” (Romanos 8:20, NVI)

O que aconteceu não foi a destruição da criação, mas sua distorção pelo pecado.

Herman Bavinck sintetiza isso com precisão:

“O pecado não destrói a criação, mas a corrompe e desvia de seu propósito” (Dogmática Reformada, Vol. 3)

Aqui está o ponto central: o homem transforma aquilo que poderia ser instrumento de cuidado em ferramenta de fuga, prazer desordenado ou dependência.

Uso não é abuso: uma distinção que precisa ser feita

A Bíblia não trata todas as substâncias como intrinsecamente más. Pelo contrário, ela reconhece usos legítimos.

O apóstolo Paulo orienta Timóteo:

“Use um pouco de vinho, por causa do seu estômago…” (1 Timóteo 5:23, NVI)

Ou seja, há espaço para o uso terapêutico, responsável e orientado ao cuidado do corpo.

Por outro lado, a mesma Escritura é clara ao condenar a perda de controle e a busca por entorpecimento:

“Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem…” (Efésios 5:18, NVI)

E ao destacar o domínio próprio como fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23).

A questão, portanto, não é apenas “o que se usa”, mas “para quê se usa”.

John Owen alerta:

“O pecado sempre busca transformar meios legítimos em fins últimos” (The Mortification of Sin)

Quando uma substância deixa de ser instrumento e passa a ser refúgio, substituto ou escape, algo se perdeu no caminho.

A nova idolatria: quando a substância ocupa o lugar de Deus

Vivemos em uma cultura que busca alívio imediato. Dor, ansiedade, vazio existencial — tudo precisa ser silenciado rapidamente.

Mas a Escritura já havia diagnosticado essa busca:

“Vou experimentar o prazer… Mas isso também se revelou inútil” (Eclesiastes 2:1, NVI)

O problema não é apenas o uso de substâncias, mas a expectativa depositada nelas.

Timothy Keller define com precisão:

“Ídolo é tudo aquilo que você procura para dar sentido, segurança e satisfação que só Deus pode dar” (Deuses Falsos)

Quando alguém recorre a qualquer substância — seja lícita ou ilícita — como forma de escapar da realidade, anestesiar a alma ou encontrar sentido, já não estamos falando de medicina. Estamos falando de idolatria.

Maconha, Parkinson e o Evangelho: o que está em jogo?
A questão central é que o homem transforma aquilo que poderia ser instrumento de cuidado em ferramenta de fuga, prazer desordenado ou dependência

E nós, onde entramos nisso?

Essa discussão não é apenas sobre cannabis. É sobre coerência.

É possível rejeitar uma planta por preconceito e, ao mesmo tempo, normalizar outros vícios socialmente aceitos. É possível condenar o uso de uma substância enquanto se vive dependente de outras formas de fuga — trabalho, consumo, entretenimento, redes sociais.

A pergunta que fica é inevitável: onde você busca alívio?

O Evangelho não oferece fuga — oferece redenção

Diante de um mundo cansado, ansioso e em busca constante de escape, Jesus faz um convite radicalmente diferente:

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11:28, NVI)

O Evangelho não promete entorpecimento; promete transformação. Não oferece fuga da realidade, mas reconciliação com Deus.

A criação é boa, sim. Mas o coração humano, corrompido, transforma dons em ídolos.

Por isso, no fim das contas, o problema nunca foi a planta.

Sempre foi o coração.

E esse — nenhuma substância pode curar. Somente Cristo.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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