Entre o diagnóstico de depressão, o luto, a rotina exaustiva da maternidade e o esgotamento emocional, duas mulheres capixabas encontraram na corrida de rua muito mais do que uma atividade física. Para Dairiane e Alessandra, calçar os tênis e encarar o asfalto tornou-se uma ferramenta de cura, superação e transformação.
Na terceira reportagem da série especial sobre o esporte que mais cresce no Espírito Santo, mostramos como a corrida se transformou em um verdadeiro divisor de águas e um caminho de reencontro com a vida.
Maternidade atípica e superação
Aos 46 anos a rotina de Alessandra era sinônimo de dedicação exclusiva e sobrecarga emocional. Mãe de Ester e de Samuel, ela enfrentava diariamente os desafios do autismo nível 3 (considerado severo). Samuel também tem deficiência intelectual, hiperatividade e TDAH.
Para garantir a segurança do filho fora de casa, Alessandra precisava usar uma guia de segurança (cordão de apoio para passeio). Essa necessidade, contudo, vinha acompanhada de preconceito e julgamentos nas ruas. “Um senhor chegou a dizer que daqui a uns dias eu colocaria uma coleira nele. Respondi: ‘Se for para salvar a vida do meu filho, eu coloco sim’”, desabafa.
Exausta fisica e mentalmente, Alessandra entendeu que precisava encontrar uma válvula de escape antes de adoecer. Foi quando aceitou o convite de uma amiga para começar a correr.
Liberdade, dignidade e perda de 20 quilos
O impacto do esporte na vida de Alessandra foi imediato. A corrida trouxe o equilíbrio mental e a força emocional que tanto buscava. Pouco tempo depois, o filho Samuel passou a acompanhá-la nos treinos, transformando a atividade em um momento único de conexão e amor entre mãe e filho.
O resultado dessa parceria mudou a saúde da família: Alessandra perdeu mais de 20 quilos e ganhou o condicionamento necessário para proteger o filho. Mas a maior vitória foi na independência.
“Foi através da corrida que tudo mudou. Hoje, tenho a confiança de sair com ele sem precisar da guia de segurança. Se ele correr, sei que alcançamos o mesmo objetivo juntos. É sobre liberdade e dignidade, ver meu filho vivendo com mais leveza”, emociona-se a mãe.
O fantasma da depressão pós-parto

Aos 39 anos, a técnica em enfermagem e estudante de nutrição Dairiane lembra com clareza de quando sua realidade era marcada por dores profundas. Ela enfrentou um processo depressivo severo, chegando a sofrer com pensamentos suicidas.
O primeiro sinal de alerta acendeu em 2011, com o nascimento do primeiro filho. O diagnóstico foi avassalador: depressão pós-parto.
“Dificilmente uma gestante de primeira viagem pensa que pode enfrentar um quadro de depressão. Precisei de acompanhamento psiquiátrico, medicação e contei muito com o apoio do meu esposo. Embora os primeiros seis meses tenham sido os mais difíceis, só consegui realmente superar após cerca de dois anos”, relembra.
Anos mais tarde, em 2019, após o nascimento da segunda filha, em outro contexto, o luto bateu à porta com o falecimento do pai num acidente. O trauma fez os sintomas de depressão retornarem de forma silenciosa. Naquela época, sedentária e com mais de 30 anos, Dairiane percebeu que precisava se movimentar para não cair na total dependência de remédios.
“Cada placa de quilometragem era uma vitória contra a dor”
A virada de chave aconteceu quando a corrida de rua entrou em sua vida. O esporte virou um momento de conexão espiritual e desabafo.
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O primeiro desafio: Dairiane já praticava musculação, mas foi na primeira prova de rua que ela entendeu o poder do esporte.
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A superação no asfalto: “Na minha primeira prova fiz os 5 km dando trotinho, sem parar. A cada plaquinha que via marcando a quilometragem, me desmanchava de chorar. Eu não acreditava que estava conseguindo vencer”.
A atividade física salvou sua vida, mas a batalha é diária. Dairiane revela que ainda convive com a doença, que funciona como uma sombra constante.
“Não é tipo uma infecção que você toma um antibiótico, sara e não fica vestígios. Fico em sistema de alerta o tempo todo. O esporte é a minha fuga”.
Tanto para Dairiane quanto para Alessandra, as pistas do Espírito Santo deixaram de ser apenas um espaço de suor. Tornaram-se o cenário onde reescreveram suas histórias, provando que a corrida de rua é, acima de tudo, um passaporte para a saúde mental e a superação humana.












