A corrida de rua no Espírito Santo deixou de ser apenas um esporte de performance para se tornar um refúgio de cura e reabilitação. O que começou como uma tentativa desesperada de aliviar dores físicas e recuperar a saúde transformou radicalmente as trajetórias de Luísa Moratori e Sérgio Pavese. Após enfrentarem, respectivamente, a lombalgia crônica e a obesidade severa, ambos encontraram no movimento a chave para superar limitações que pareciam definitivas.
O triunfo sobre a dor invisível e o “fardo” da medicação
Para a gestora de marketing Luísa Moratori, de 37 anos, o pesadelo começou durante a pandemia. O sedentarismo forçado evoluiu para uma lombalgia crônica avassaladora. O que era uma “dorzinha desconfortável” tornou-se um impedimento físico real: Luísa chegou ao ponto de não conseguir trocar de roupa sozinha.
A dor era onipresente. “Falei para mim mesma que encaixaria a dor na minha vida. Eu sinto todos os dias, da hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir”, revela. A aceitação do sofrimento parecia ser o único caminho, até que ela buscou ajuda especializada em 2023.
A busca por qualidade de vida levou Luísa a tratamentos com medicamentos de ação no sistema nervoso (antidepressivos usados para dor neuropática). A experiência foi negativa: “Eu sentia muito enjoo, não conseguia comer, perdia peso e a dor continuava”, relembra com tristeza. Em uma consulta marcante, a lista de proibições aumentou — ela não poderia pular, agachar ou correr — e a dose do remédio foi elevada. “Saí chorando do consultório”, confessa.
A virada de chave veio com o pilates especializado. Ao desenvolver consciência corporal e fortalecer a coluna, as crises ficaram curtas e os intervalos de dor maiores. Foi o sinal verde para o seu sonho antigo: a corrida.
Conquistas: da fisioterapia às maratonas internacionais
Luísa começou de metro em metro, orientada por sua fisioterapeuta. Os primeiros 5 km foram um marco, mas o verdadeiro teste de fogo veio em 2024, nas Dez Milhas Garoto. Completar os 16 km cruzando a Terceira Ponte foi uma superação histórica para quem ouviu que nunca poderia correr.
Em 2026, Luísa elevou o nível ao completar os 21 km da Maratona Internacional de São Paulo.
“Quando olho cada medalha, vem para mim o significado de que vivo sem dor e tenho qualidade de vida”, afirma a corredora que hoje celebra a liberdade do movimento.

A jornada dos 142 kg rumo à liberdade na orla
O músico e violonista Sérgio Pavese, hoje com 37 anos, conviveu com a obesidade desde a infância. O sobrepeso não era apenas um número na balança, mas um limitador de tarefas triviais que geravam tristeza e vergonha.
“Uma coisa que me deixava triste era amarrar o tênis, porque, quando eu abaixava e voltava, eu ficava tonto por falta de ar”, conta.
Ao atingir a marca de 142 quilos, Sérgio entendeu que precisava de uma mudança drástica. A solução inicial foi a cirurgia bariátrica, mas o verdadeiro segredo do seu sucesso foi a mudança de mentalidade no pós-operatório. Ele não esperou: assim que recebeu a liberação médica, ingressou na academia e reeducou sua relação com a comida. “A forma como enxergo a comida hoje é para me alimentar, não para ficar cheio”, explica.
A corrida como aliada da saúde mental
Um ano após o procedimento, Sérgio se inspirou ao ver pessoas se exercitando na orla capixaba. Mais do que uma queima calórica, a corrida tornou-se uma ferramenta contra a ansiedade. “Comecei a correr para distrair a minha mente e me apaixonei”, ressalta o músico.
A prática trouxe uma nova filosofia de vida. Hoje, com 60 quilos eliminados, Sérgio utiliza o primeiro quilômetro de cada treino para refletir sobre sua história de superação. Para ele, o esporte é libertador.
“Quando não estou me sentindo bem, já sei que preciso treinar. Existe um Pavese que venceu a obesidade e que continua vencendo todos os dias”.









