O setor atacadista do Espírito Santo nunca havia sido medido com essa precisão. Uma pesquisa realizada pela Apex Research para o Sincades — Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do ES — e apresentada nesta terça-feira (19) durante o evento Atacado & Distribuição revela que o segmento faturou cerca de R$ 200 bilhões em um ano, sendo R$ 172 bilhões provenientes de vendas para fora do estado — dos quais 70% destinados ao Sudeste. O dado mais impactante, porém, está na arrecadação: o ICMS gerado pelo setor saltou 255% entre 2016 e 2025, de R$ 1,87 bilhão para R$ 6,64 bilhões, enquanto o ICMS total cresceu apenas 82% no mesmo período.
Em termos de participação, o atacado capixaba já responde por 29,1% de todo o ICMS arrecadado no Espírito Santo — mais que o dobro dos 15,1% registrados em 2022. Esses números transformam o debate sobre o setor: o atacado não é apenas um elo da cadeia de distribuição. É, hoje, o principal motor de crescimento da arrecadação estadual.
O ES como hub comercial do Brasil: 4,3 vezes o PIB em fluxo interestadual
Entre 2017 e 2024, o fluxo comercial do Espírito Santo com os demais estados — soma de entradas e saídas de mercadorias — saltou de R$ 210,1 bilhões para R$ 908,5 bilhões, segundo o Confaz. Crescimento de 332%, equivalente a 4,3 vezes o PIB estadual de R$ 209,2 bilhões. O número revela uma característica estrutural do ES que vai muito além do tamanho da economia local: o estado funciona como plataforma de distribuição nacional, não apenas como mercado consumidor.
A proporção é reveladora. O total do comércio interestadual capixaba representa 8% de todo o comércio interestadual do país — embora o ES responda por apenas 2% do PIB nacional. Ou seja: o estado movimenta em distribuição comercial quatro vezes mais do que seu peso econômico justificaria. Esse é o diferencial competitivo que o setor atacadista capixaba construiu ao longo de décadas.
Dimensões do Hub Comercial Capixaba — 2024
| Indicador | Valor (R$ bilhões) |
| Vendas para outros estados | 512,7 |
| Compras de outros estados | 395,9 |
| Total do comércio interestadual | 908,5 |
| PIB do Espírito Santo | 209,2 |
| Vendas do comércio atacadista para fora do ES | 172,9 |
| Vendas do comércio atacadista para dentro do ES | 25,8 |
Fonte: CONFAZ, IBGE, IJSN, MDIC, cálculos Apex Research
ICMS atacadista: 255% de crescimento em 9 anos
A trajetória do ICMS do setor atacadista capixaba é a mais expressiva de qualquer segmento da economia do estado no período recente. De R$ 1,87 bilhão em 2016, o tributo gerado pelo setor chegou a R$ 6,64 bilhões em 2025 — alta de 255% num período em que o ICMS total cresceu 82%. A participação do atacado na arrecadação total do tributo, que era de 15,1% em 2022, chegou a 29,1% em 2025: praticamente dobrou em três anos.
Esse crescimento impulsionou também as transferências para os municípios capixabas. O ICMS atacadista repassado ao Fundo de Participação dos Municípios subiu de R$ 470 milhões em 2016 para R$ 1,66 bilhão em 2025 — ampliando diretamente a capacidade de investimento das prefeituras em infraestrutura, saúde, educação e serviços públicos.
Evolução do ICMS Atacadista — ES (selecionado)
| Ano | ICMS Total (R$ bi) | ICMS Atacadista (R$ bi) | Repasse Municípios (R$ bi) |
| 2016 | 12,5 | 1,87 | 0,47 |
| 2020 | 14,6 | 2,65 | 0,66 |
| 2022 | 17,3 | 2,61 | 0,65 |
| 2023 | 17,8 | 4,06 | 1,02 |
| 2024 | 21,0 | 5,67 | 1,42 |
| 2025 | 22,8 | 6,64 | 1,66 |
Fonte: SEFAZ-ES, cálculos Apex Research
ES lidera o Brasil no emprego atacadista — com folga
A pesquisa do Sincades posiciona o Espírito Santo como referência nacional no emprego gerado pelo setor atacadista. O estado ocupa o 1º lugar em participação do atacado nos empregos totais (5,1%), o 2º lugar em empregos do atacado por 100 mil habitantes (1.468) e o 4º lugar em percentual de empresas do atacado no total de empresas ativas (4,4%). Entre 2019 e 2024, o crescimento do emprego no setor em categorias como equipamentos de uso industrial (114,4%), materiais de construção e aço (74,4%) e derivados de indústria química (65,2%) foi muito superior à média nacional nas mesmas categorias.
A Grande Vitória concentra 61% do total de empresas atacadistas do estado, com 2.488 estabelecimentos. O multiplicador econômico do setor é expressivo: para cada R$ 100 de demanda final adicional no comércio atacadista e varejista, são gerados R$ 124,3 em PIB, R$ 44,7 em remunerações e R$ 7,8 em impostos — segundo a Matriz de Insumo-Produto do IBGE/IJSN.
A reforma tributária e o risco de R$ 709 milhões para os municípios
A pesquisa vai além do diagnóstico e entra em terreno mais sensível: os possíveis impactos da reforma tributária sobre o setor. O modelo de tributação do atacado capixaba depende estruturalmente das operações interestaduais — vendas para outros estados que geram ICMS no ES. Com a reforma tributária em curso, há risco de migração do tributo para o estado de destino, o que pode reduzir significativamente a arrecadação capixaba proveniente do setor.
A simulação apresentada pelo Sincades é direta: uma perda de 50% do ICMS atacadista representaria R$ 709 milhões a menos nos cofres dos municípios capixabas — reduzindo em 16% a capacidade de investimento das prefeituras. Municípios como Serra (perda estimada de R$ 105,4 milhões, queda de 13,8% na capacidade de investimento), Aracruz (R$ 26,8 milhões, queda de 18,3%) e Dores do Rio Preto (R$ 1,8 milhão, queda de 13,3%) figuram entre os mais expostos ao risco.
Simulação: impacto de perda de 50% do ICMS Atacadista nos municípios — 2024
| Discriminação | Valor (R$ bilhões) |
| Total de ICMS recebido pelos municípios | 5,19 |
| Total de investimentos efetuados pelos municípios | 4,41 |
| Total ICMS atacadista destinado aos municípios | 1,42 |
| Potencial perda de ICMS atacadista (50%) | 0,71 |
| Redução na capacidade de investimento | -16% |
Fonte: Finanças dos Municípios Capixabas Edição 2025, cálculos Apex Research
A pesquisa do Sincades e Apex Research coloca em números o que o setor atacadista capixaba já representava intuitivamente para a economia do estado: não é um segmento complementar. É uma das principais alavancas de crescimento do PIB, do emprego e da arrecadação municipal do Espírito Santo — e seu peso na balança fiscal capixaba torna a reforma tributária um debate que vai muito além dos atacadistas.









