O que começou como uma reunião de rotina na Faria Lima terminou como o estopim da maior crise recente do mercado financeiro capixaba. Bastidores obtidos com exclusividade por ES Hoje sobre o “Caso Apex” ou “Master Capixaba”, revelam como um pedido informal de empréstimo feito pelo fundador da Apex Partners, Fernando Cinelli, dentro da sede do BTG Pactual, em São Paulo, desencadeou a sequência de eventos que culminou no seu afastamento e no pedido de Tutela Cautelar Antecedente protocolado na Vara de Recuperação Judicial de Vitória.
Desde 4 de agosto a plataforma está no centro dos debates e expectativas do mercado financeiro do Espírito Santo, a partir de reconhecimento de desvio por parte do fundador e presidente afastado, Fernando Cinelli. Procurado, desde o primeiro dia, por meio de sua assessoria o empresário se manifesta com a mesma nota: “O empresário Fernando Antonio Kulnig Cinelli, fundador da Apex Partners, está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas. Com o gesto, ele demonstra sua disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade”.
O pedido surpresa na Faria Lima
Em 29 de julho de 2026, Cinelli e sócios da Apex compareceram à sede do BTG Pactual. A pauta do encontro envolvia tratativas ordinárias da parceria de distribuição mantida entre as duas instituições. No meio da conversa, contudo, o fundador da Apex surpreendeu os executivos ao solicitar um empréstimo de R$ 100 milhões sob a justificativa de “expansão”.
O pedido, feito sem prévio agendamento ou fundamentação técnica, foi negado imediatamente no próprio ambiente da reunião, sem sequer ser encaminhado à área de crédito do banco. O executivo do BTG que conduzia o encontro fez perguntas básicas sobre a necessidade do montante e a destinação dos recursos, mas não obteve respostas claras.
“Eles (Fernando Cinelli e outros sócios) estiveram aqui no banco falando que iam precisar de R$ 100 milhões, se o banco podia fazer um empréstimo. Um tema que entrou de forma desconexa no meio da reunião. O próprio sócio do banco que estava na reunião nem levou para área de crédito, já recusou na largada. Mas o assunto acendeu um alerta”, relatou fonte que conversou com ES Hoje.
Checagens e a pressão por dados
A abordagem desconexa acendeu um alerta vermelho no BTG. Nos dias seguintes, a apreensão aumentou quando outros sócios da Apex Partners, com influência no mercado capixaba começaram a fazer contatos paralelos com profissionais do banco, pressionando para que o empréstimo acontecesse.
A partir daí BTG Pactual convocou a diretoria da Apex Partners para que retornasse a São Paulo com números detalhados e esclarecimentos formais sobre a real situação operacional e de caixa da empresa. Foi nesse momento que os demais membros da sociedade tomaram dimensão da gravidade do cenário financeiro.
“Tínhamos um contrato de distribuição junto a eles. Quando o Fernando retornou, acompanhado de mais de 10 sócios, alguns não tinham noção da situação e souberam junto com a BTG Pactual o rombo. A partir disso comunicamos a CVM”.
Durante a reunião, pressionado pelos questionamentos técnicos, Fernando Cinelli assumiu a responsabilidade e declarou aos presentes: “A responsabilidade é toda minha, me enrolei aqui e perdi o controle do negócio”. Mas a situação é mais grave do que apenas “se enrolar”. À Justiça, numa liminar cautelar concedida na última sexta-feira (7) informou endividamento de R$ 985,6 milhões – sendo R$ 452,1 milhões de debêntures por séries emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora; R$ 309,8 milhões de obrigações de cashback com 1.600 posições de clientes; endividamento bancário na ordem de R$ 201,7 milhões com Sicoob, BTG Pactual e Banco Daycoval; além de tributos correntes em atraso da própria Apex PartnersR$ de 35,2 milhões.
Apesar do passivo apurado de R$ 985,6 milhões contra ativos estimados em R$ 500 milhões, fontes ligadas ao caso apontam que as inconsistências e irregularidades específicas sob apuração somam menos de R$ 300 milhões (cerca de 3% do volume total sob influência da casa), o que descarta, neste momento, teses de que o “rombo” ultrapassaria a casa de R$ 1 bilhão.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por nota, informou que “dentro de sua esfera de competência definida pela Lei 6.385/76, acompanha e analisa informações e movimentações no âmbito do mercado de valores mobiliários brasileiro, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário. As áreas técnicas da Autarquia não comentam casos específicos”.
Caso Apex: transação com plataforma e Salume no governo expõem conexões no topo do Estado
Relembre o caso
- empresa promove onda de demissão
- Filho de Casagrande assume responsabilidade
- Justiça para proteger patrimônio por meio de cautelar
- BTG trava resgates de R$ 160 milhões em fundo
- Crise na Apex leva a distrato com BTG Pactual
- Raio-X societário da Apex Partners
- Apex Partners anuncia afastamento de presidente após identificar “inconsistências financeiras”
- “Master Capixaba”: plataforma de investimentos do ES enfrenta rombo estimado em R$ 500 milhões










