Toda rua de comércio tem uma loja assim. De tempos em tempos, o dono manda trocar a vitrine, e a troca é feita com esmero, com manequins novos, luz nova, letreiro novo, às vezes até nome novo, de modo que quem passa na calçada, apressado, tem a nítida impressão de que ali abriu outro negócio, mais moderno, mais arejado, mais de acordo com os tempos. Quem entra, porém, descobre em dois passos o que a calçada não vê: o balcão é o mesmo, o estoque no fundo é o mesmo, a fila é a mesma, o dono continua sentado atrás do mesmo caixa, com a mesma cara de quem está fazendo um favor, e o rapaz que carrega as caixas continua carregando as caixas pelo mesmo salário, agora com um colete da cor do letreiro.
A vitrine muda. O balcão, não.
Lendo o artigo (“O Brasil não será mais o mesmo”, ES Hoje, 15/10/2026) do meu amigo José Carlos Chamon, empresário sério, decente e inteligente, dessa espécie cada vez mais rara que pensa antes de escrever e escreve porque pensou, e concordo com quase tudo o que ele diz — no atacado e no varejo, ressalto. Ele sustenta que o Brasil não será mais o mesmo depois desta eleição, e descreve com precisão a vitrine, as instituições, os limites do poder, o recado das urnas, a insegurança de quem tem de assinar contrato sem saber que regra valerá amanhã. Nisso ele tem razão, e a vitrine, de fato, vai mudar, para um lado ou para o outro. Insisto nisso porque, sinceramente, cansei das discussões que nos fazem virar freneticamente a cabeça para a direita e para a esquerda, aumentando exponencialmente o risco de quebrarmos o pescoço nesse vaivém “ideológico” vazio — e que nos impedem de enxergar o “tronco” que se aproxima, veloz, da testa, e o buraco que se alarga diante de nossos passos. O que me ocupa, com a licença dele, é o fundo da loja.
Porque o Brasil não começou em 22 de abril de 1500. Começou antes, nos porões das naus, onde já vinham embarcados o feitor e o balcão, e Cabral apenas desembarcou o que já estava pronto: uma terra para ser extraída, gente para extrair e meia dúzia para receber o que fosse extraído. O escrivão da frota mandou dizer ao rei que, plantando-se, tudo dava, e não mentiu, tudo deu, pau-brasil, açúcar, ouro, café, minério, soja, e a cada ciclo saía do porto um navio carregado e voltava outro com o que não sabemos fazer, e seguimos acreditando, com uma fé que nenhuma evidência abala, que de tanto exportar o que arrancamos do chão acabaremos um dia país industrial, como quem espera enriquecer vendendo a enxada.
Os sobrenomes de quem fica do lado de dentro do balcão mudaram menos do que os letreiros. O senhor de engenho virou fazendeiro, o fazendeiro virou empresário do agronegócio, alguns viraram banqueiros, e todos continuam exatamente onde os bisavós estavam, no mesmo lado, com o mesmo olhar sobre quem está do outro. E do outro lado há uma fila, que é a nossa instituição mais antiga e mais estável, mais do que qualquer tribunal: a fila da porta da obra às seis da manhã, onde quem contrata sabe, e quem é contratado sabe que ele sabe, que atrás de cada um há dez esperando a vaga, razão pela qual o salário é o que é e sempre foi, e o ajuste nunca precisa ser conversado.
No meio, a classe média, que sou eu e provavelmente é você, convencida de que está a uma promoção da riqueza e a um degrau acima da pobreza, com um carro alemão financiado em sessenta parcelas e a viagem anual à Disney, e que, por isso mesmo, sente um incômodo que não confessa quando encontra na fila do embarque o pedreiro de bermuda com o filho que vai para a faculdade, não porque o pedreiro tenha subido, mas porque a distância encolheu, e a distância era tudo o que ela tinha. Não condeno a parcela, que tenho as minhas. Condeno a ilusão de que a parcela nos põe do outro lado do balcão.
Herdamos de Portugal, com a língua e o azulejo, um hábito mais caro: o de esperar. Portugal passou séculos aguardando que o rei desaparecido na névoa de uma batalha africana voltasse para salvar o reino, e nós, descendentes aplicados, aguardamos de quatro em quatro anos que ele volte pela urna, com outro nome e outro número, e cada vez que não volta, culpamos a névoa. Enquanto esperamos, o trabalhador e o servidor votam, com sinceridade comovente, em pautas que lhes custam o próprio sustento, porque farinha pouca, meu pirão primeiro, e cada degrau da escada defende a sua posição chutando o degrau de baixo e lambendo o de cima, o que é, convenhamos, a mais perfeita definição de preconceito que já se produziu neste país, e não precisou de nenhuma lei para funcionar.
Dir-se-á, e com razão, que muita coisa mudou: a abolição, o voto, o hospital público, a universidade com gente que antes não entrava, o pedreiro no avião. Mudou, sim, o que cada um pode fazer. Não mudou o lugar de cada um na fila. Pouco menos da metade da riqueza do país está nas mãos de um em cada cem brasileiros, e a metade de baixo da população, somada, deve mais do que tem. Esse número não sabe quem é o presidente e nunca soube.
Para mexer nele seria preciso vontade, e vontade é coisa que não se compra em parcelas: seria preciso mudar de paradigma, encarar chagas e vícios de cinco séculos, ter honestidade intelectual, um pouco menos de pirão, e seria preciso, sobretudo, que quem não consegue sustentar a família por mais de um mês sem o salário entendesse o tamanho do abismo e parasse de brigar com quem está na mesma beira. Mas no Brasil estamos ocupados com outras coisas, todas urgentes, todas cosméticas, todas na vitrine.
Por isso, e gostaria muito, neste ponto, de concordar com o querido Chamon, mas não consigo: seja quem for que saia da urna no segundo turno, haverá muito barulho, um ou outro relâmpago, uma reforma de fachada, talvez um nome novo no letreiro. E o Brasil continuará, em sua medula, exatamente o que é desde antes de Cabral molhar os pés. Vitrine é para quem passa na calçada. Quem entra na loja sabe de que lado do balcão vai ficar.









