A atuação da advocacia capixaba foi determinante para preservar os autos originais do Caso Araceli, um dos processos criminais mais emblemáticos da história do Espírito Santo. A informação foi apresentada à presidente da OAB-ES, Erica Neves, pelos advogados Fernando Colombi da Silva e Vanderson Leocádio Américo, que relataram como uma diligência realizada no exercício da defesa resultou na retirada do processo do Arquivo Geral do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) poucos dias antes do incêndio que atingiu o galpão onde o acervo era armazenado.
Fernando e Vanderson representam William Santos Monzoli, acusado de matar Dante Brito Michelini em janeiro deste ano. Michelini, no passado, chegou a ser acusado de participação no assassinato de Araceli Cabrera Crespo, em 1973, mas foi absolvido, juntamente com os demais acusados, pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES). Durante a atuação da defesa, os advogados solicitaram acesso aos autos históricos do Caso Araceli para análise do processo.
De acordo com Fernando, no dia 7 de julho, ao consultarem os 34 volumes dos autos físicos, os advogados identificaram que documentos considerados essenciais não constavam na versão digital do processo e verificaram falhas na digitalização, com imagens de baixa resolução e dificuldade de leitura de documentos e de volumes contendo registros jornalísticos históricos.
“Diante da situação, ainda no mesmo dia, protocolamos pedidos à 3ª Vara Criminal e à Presidência do TJES, solicitando o desarquivamento do processo para localização das peças ausentes e a realização de uma nova digitalização dos autos. O pedido foi acolhido e o processo foi retirado do Arquivo Geral para análise judicial”, afirma Fernando.
Dias depois, o galpão que abrigava o Arquivo Geral do TJES foi atingido por um incêndio. Os autos do Caso Araceli, já retirados do local após o pedido dos advogados, foram preservados.
Segundo Fernando Colombi da Silva, a intenção inicial era garantir a integridade do processo, mas a atuação acabou tendo um resultado ainda maior. “Nossa preocupação era garantir a integridade do processo. Identificamos documentos essenciais ausentes, constatamos problemas na digitalização e solicitamos que os autos fossem retirados do arquivo para nova análise e digitalização. O incêndio aconteceu depois disso. Graças a essa atuação, um processo de enorme importância para a história do Espírito Santo foi preservado.”
Para o advogado Vanderson Leocádio Américo, a preservação dos autos vai além da proteção de um processo judicial e representa a defesa da memória coletiva capixaba.
“A memória de um povo é um direito que precisa ser preservado. Quando solicitamos a retirada dos autos do Caso Araceli para uma nova análise e digitalização, estávamos cumprindo nosso dever profissional. O incêndio mostrou que essa atuação também foi fundamental para preservar um dos processos mais importantes da história do Espírito Santo. É uma demonstração de como a advocacia, quando atua com zelo e responsabilidade, protege não apenas os interesses de seus clientes, mas também a memória, a Justiça e a própria sociedade.”
Considerado um dos casos de maior repercussão da história capixaba, o Caso Araceli integra a memória jurídica e social do Espírito Santo.
Após conhecer o relato dos advogados, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Espírito Santo (OAB-ES) protocolou requerimento ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) solicitando informações sobre o andamento da digitalização dos autos do Caso Araceli e o acompanhamento integral desse procedimento. No documento, a Seccional também requer preservação especial do processo em razão de seu valor histórico, jurídico e documental.
Para a presidente da OAB-ES, Erica Neves, o episódio demonstra de forma concreta a relevância social da advocacia e reforça a necessidade de preservar integralmente um patrimônio que pertence à sociedade capixaba.
“A preservação dos autos do Caso Araceli evidencia a importância social da advocacia. Ao atuar na defesa dos direitos de seu cliente, esses profissionais também protegeram um patrimônio histórico que pertence a toda a sociedade capixaba. É uma demonstração concreta de que a advocacia não atua apenas em processos: ela contribui para a preservação da memória institucional, para a segurança jurídica e para a própria democracia. Quando a advocacia exerce plenamente seu papel constitucional, toda a sociedade é beneficiada.”
Após envio de ofício à Presidência do TJES requerendo a inclusão de representantes da Seccional no Comitê de Articulação Emergencial e em quaisquer comissões ou grupos de trabalho instituídos para acompanhar os desdobramentos e as ações decorrentes do incêndio no Arquivo Geral do Tribunal, a OAB-ES passou a integrar a Comissão de articulação emergencial para restauração de autos, instituída pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) por meio do Ato Normativo nº 134/2026, reunirá membros do TJES e representantes do Ministério Público do Estado, da Defensoria Pública e da OAB-ES.










