Durante muito tempo, falar em tratamento da menopausa parecia significar falar quase exclusivamente em reposição hormonal. Hoje, porém, o cenário é mais amplo. A medicina avançou na compreensão dos mecanismos envolvidos nos sintomas do climatério e novas opções terapêuticas passaram a fazer parte da discussão, permitindo que o tratamento seja cada vez mais individualizado.
A menopausa acontece com a queda da produção dos hormônios ovarianos, especialmente o estrogênio, e pode provocar ondas de calor, suor noturno, alterações do sono, sintomas geniturinários, mudanças de humor e impacto na qualidade de vida. Mas nem todas as mulheres apresentam os mesmos sintomas ou têm as mesmas possibilidades de tratamento.
“Hoje, não devemos pensar na menopausa como uma condição com uma única receita. A escolha da estratégia depende dos sintomas, da idade, do tempo desde a menopausa, do histórico de saúde e dos riscos e benefícios para cada paciente”, explica a endocrinologista e metabologista Gisele Lorenzoni.
A novidade que atua no cérebro, e não nos hormônios
Uma das principais novidades é uma classe de medicamentos não hormonais que atua sobre a via das neuroquininas, estruturas envolvidas no controle da temperatura corporal no hipotálamo.
O fezolinetant, um antagonista do receptor NK3, já representa uma alternativa não hormonal para o tratamento de ondas de calor moderadas a intensas em alguns países. Mais recentemente, o elinzanetant, que atua sobre os receptores NK1 e NK3, ampliou essa frente de pesquisa e tratamento. As recomendações da International Menopause Society publicadas em 2026 já reconhecem os antagonistas de neuroquinina como uma opção baseada em evidências para sintomas vasomotores.
A lógica é diferente da reposição hormonal: em vez de repor estrogênio, esses medicamentos interferem em circuitos cerebrais envolvidos na regulação da temperatura e na ocorrência das ondas de calor.
“Essa é uma mudança interessante porque temos uma alternativa que não depende da reposição de estrogênio. Ela pode ser especialmente relevante para mulheres que possuem contraindicação à terapia hormonal ou que optam por não utilizá-la”, explica Gisele.
E a reposição hormonal? A conversa também mudou
A terapia hormonal continua sendo considerada uma das opções mais eficazes para mulheres com sintomas vasomotores importantes e, quando adequadamente indicada, pode trazer benefícios para qualidade de vida e saúde óssea. As recomendações atuais reforçam que a avaliação precisa considerar o perfil individual da paciente.
Em 2026, inclusive, a FDA promoveu mudanças importantes nas informações de segurança de determinados produtos de terapia hormonal para menopausa, em uma revisão que buscou apresentar de maneira mais precisa a relação entre riscos e benefícios.
“A retirada de algumas advertências não deve ser interpretada como uma liberação geral da terapia hormonal. Continuamos precisando avaliar contra indicações, fatores de risco, idade, tempo desde a menopausa e o tipo de terapia que será utilizada. A decisão deve ser compartilhada entre médica e paciente”, ressalta a especialista.
Para a endocrinologista, outro avanço importante é compreender que controlar os sintomas não significa necessariamente aumentar os níveis hormonais. Além dos antagonistas de neuroquinina, existem estratégias não hormonais já utilizadas para sintomas vasomotores, incluindo determinados antidepressivos e medicamentos neuromoduladores. A escolha depende do quadro clínico e dos possíveis efeitos adversos e interações medicamentosas.
De acordo com a médica, essa individualização também vale para sintomas relativos aos aparelhos genital e urinário , alterações do sono e queixas sexuais. O tratamento pode envolver diferentes abordagens, e nem sempre a mesma estratégia será adequada para todos os sintomas.
A mensagem, portanto, não é que existe uma nova “pílula da menopausa” capaz de resolver todos os sintomas. A novidade é justamente haver mais caminhos terapêuticos. “Estamos saindo de uma visão em que a menopausa era tratada de maneira muito padronizada. Hoje, temos mais ferramentas e, consequentemente, mais possibilidades de personalizar o cuidado. O mais importante é que a mulher não precise escolher entre simplesmente sofrer com os sintomas ou fazer um tratamento que não seja adequado para ela”, conclui a endocrinologista Gisele Lorenzoni.










