Tosse pode não ser gripe: tuberculose segue em alta no ES

Tosse persistente, febre, suor noturno e cansaço. Sintomas comuns, muitas vezes associados a uma gripe, podem esconder uma doença mais grave e ainda presente no Brasil: a tuberculose.

Mesmo com diagnóstico e tratamento gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença continua avançando. E no Dia Mundial de Combate à Tuberculose, celebrado nesta terça-feira (24), o Espírito Santo segue em alerta.

Dados mais recentes mostram que o estado ocupa hoje a terceira posição em incidência de tuberculose no Sudeste, atrás apenas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 2025, foram registrados 1.916 casos, com taxa de 46,7 por 100 mil habitantes.

Segundo a professora e pesquisadora da Ufes Carolina Salles, o cenário ainda é desafiador, mesmo com uma rede de vigilância estruturada.

“O Espírito Santo continua apresentando um cenário desafiador. Embora tenhamos uma rede de vigilância muito ativa, o estado ainda figura com coeficientes de incidência elevados”, afirma.

Um dos fatores que contribuiu para o avanço da doença foi a pandemia, como explica a infectologista da Medsênior Michelle Boni. “O acesso ao diagnóstico e tratamento foi dificultado, o que levou ao aumento de casos não detectados, com consequente aumento de transmissão na população, além de evolução para casos mais graves”.

Tratamento longo

A tuberculose é transmitida pelo ar e tem uma característica que dificulta o controle: ela pode permanecer inativa no organismo por anos, sem causar sintomas.

Quando a doença está “adormecida”, a pessoa não transmite. Mas, em algum momento, principalmente quando há queda da imunidade, a bactéria pode se reativar e provocar a forma ativa da doença, com sintomas e capacidade de transmissão.

Além disso, mesmo nos casos ativos, pode haver demora na identificação.

“O problema é multifatorial. Temos o abandono do tratamento, que dura no mínimo seis meses, e o diagnóstico tardio, muitas vezes relacionado à demora em procurar atendimento”, explica Carolina Salles.

O tratamento da tuberculose é eficaz, mas exige disciplina. São pelo menos seis meses de uso contínuo de medicamentos.

Com a melhora dos sintomas nas primeiras semanas, muitos pacientes interrompem o tratamento antes do tempo recomendado.

Essa interrupção não só prejudica a cura como também favorece a continuidade da transmissão e “pode levar ao surgimento de bactérias resistentes aos medicamentos, o que reduz a chance de cura”, aponta Michelle Boni.

Grupos mais vulneráveis

Alguns grupos enfrentam maior risco de adoecimento, seja pelas condições de vida ou por fatores de saúde.

De acordo com a infectologista Michelle Boni, a vulnerabilidade está diretamente ligada à exposição e à imunidade.

“Os grupos mais afetados são pessoas em situação de rua, populações carcerárias, usuários de álcool e drogas, além de pacientes com a imunidade comprometida, como pessoas com HIV sem tratamento, câncer ou desnutrição”, explica.

O papel da ciência no enfrentamento

No Espírito Santo, a produção de conhecimento tem sido uma aliada no combate à doença. O Laboratório de Pesquisa em Epidemiologia da Ufes (LabEpi) atua no monitoramento e na análise de dados para apoiar estratégias mais eficazes.

“O nosso papel vai muito além da coleta de dados. Buscamos levar informação diretamente à população e transformar esses dados em soluções práticas”, afirma Carolina Salles.

Entre as iniciativas está o Observatório da Tuberculose no Espírito Santo, que reúne e interpreta dados estaduais para orientar ações.

“Desenvolvemos uma ferramenta para predizer o risco de abandono do tratamento e propusemos fluxos de integração entre diferentes serviços, garantindo um cuidado mais completo ao paciente”, destaca.

Caminhos para avançar

Para melhorar o cenário, especialistas defendem o fortalecimento da Atenção Primária e o acompanhamento mais próximo dos pacientes durante o tratamento.

“Precisamos fortalecer estratégias como o Tratamento Diretamente Observado e ampliar a integração entre os serviços de saúde”, afirma Carolina Salles, que continua:

“Por fim, a educação em saúde é a nossa maior arma. Ações como as que realizaremos nos Terminais de Vila Velha e Itaparica no dia 24 de março, são cruciais para que a própria população aprenda a reconhecer os sintomas e busque ajuda precocemente”, defende a pesquisadora.

Karla Silveira
Karla Silveira
Jornalista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pós-graduada em Análise de Cenários e Marketing Estratégico.

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Comentários
  1. Aos pesquisadores, em especial a Professora Carolina Sales , nossos agradecimentos pelas pesquisas e alertas ao controle da Tuberculose.
    Professora Carolina Sales , e ao
    LabiEpi da UFES , muito obrigada!

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