A recente aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do medicamento Mounjaro (tirzepatida) para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos, reacende discussões sobre o papel das novas terapias frente a um problema multifatorial.
Para a endocrinologista Gisele Lorenzoni, a decisão representa um avanço científico relevante, mas que precisa ser analisada com cautela, e alerta para o risco de uma leitura simplista da aprovação. “Existe uma tendência de enxergar o medicamento como solução principal, quando, na verdade, ele deve ser parte de uma estratégia mais ampla. O diabetes tipo 2, especialmente em jovens, está profundamente ligado ao estilo de vida. Sem mudanças consistentes na alimentação e na prática de atividade física, os resultados tendem a ser limitados no longo prazo”, pondera.
A decisão se deu diante do avanço da diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes no Brasil, antes predominante entre adultos acima dos 40 anos.
Outro ponto de atenção, segundo a endocrinologista, é a ampliação do uso de terapias medicamentosas em faixas etárias cada vez mais jovens. “Precisamos discutir com responsabilidade o uso dessas medicações em adolescentes. Embora os estudos mostrem eficácia, ainda estamos acumulando dados sobre segurança a longo prazo nesse público específico”, afirma.
A médica também destaca questões de acesso e equidade. “São medicamentos de alto custo, o que pode restringir o acesso a uma parcela da população. Isso levanta um debate importante sobre desigualdade no tratamento e sobre como o sistema público de saúde irá incorporar, ou não, essas tecnologias”, diz.
Além disso, há o risco de desvio de finalidade, já observado com outras medicações da mesma classe, utilizadas indiscriminadamente para emagrecimento. “O uso fora das indicações médicas pode banalizar uma ferramenta terapêutica importante e trazer consequências, inclusive com efeitos adversos e falta de acompanhamento adequado”, alerta Gisele.
Apesar das ressalvas, a endocrinologista reforça que a aprovação amplia o arsenal terapêutico disponível. “Não se trata de ser contra ou a favor, mas de entender onde esse medicamento se encaixa. Ele pode ser extremamente útil para pacientes que não respondem bem a outras abordagens, desde que utilizado com critério e acompanhamento”, completa.
Cabe ressaltar que diante do crescimento expressivo do diabetes tipo 2 entre adolescentes, nenhuma solução isolada será suficiente. O enfrentamento da doença passa, necessariamente, por políticas públicas de prevenção, educação alimentar, incentivo à atividade física e acesso equilibrado a tratamentos inovadores.









