A grave crise financeira que envolve o Grupo Apex Partners não é, no Espírito Santo, apenas um debate restrito às planilhas do mercado de capitais para se transformar no ponto mais tenso da disputa pelo Palácio Anchieta. O escândalo ganhou novos contornos com as declarações do empresário e ex-secretário de Estado da Fazenda, Aridelmo Teixeira. Candidato derrotado ao governo capixaba nas eleições de 2022 e cofundador da Fucape, Aridelmo intensificou as cobranças públicas sobre as conexões societárias e políticas entre a cúpula do governo estadual e o grupo financeiro, classificando a relação como um evidente conflito de interesses e levantando suspeitas sobre o uso da máquina pública.
O nó górdio do conflito reside no entrelaçamento de nomes do primeiro escalão da política capixaba com o comando do Grupo Apex. A empresa tem entre seus sócios e diretores executivos Pedro Chieppe, filho do governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço (MDB), e Victor Casagrande, filho do ex-governador e candidato ao Senado Renato Casagrande (PSB). A proximidade de familiares diretos dos principais gestores do Estado com uma gestora que captou centenas de milhões de reais no mercado sob forte respaldo de credibilidade institucional passou a ser rotulada por opositores como um ambiente de complacência e tráfico de influência.
As manifestações, por meio de vídeos em redes sociais, chegaram e ser contestadas pelo governador e sua coligação na Justiça Eleitoral, mas não obteve êxito. A desembargadora que julgou, entendeu que não há excesso, mas declarações que possuem tom predominantemente interrogativo e opinativo, inserindo-se nos limites da liberdade de expressão e do debate político. A decisão destacou ainda a doutrina da “proteção débil da honra do homem público”, segundo a qual figuras políticas e ocupantes de cargos públicos estão sujeitos a um grau mais elevado de escrutínio e crítica por parte do eleitorado.
A mecânica do passivo: debêntures de R$ 452 milhões
Do ponto de vista técnico e econômico, o ponto central do rombo da Apex reside na emissão de títulos de dívida. Documentos apresentados ao Poder Judiciário detalham que, da dívida bruta preliminar do grupo — estimada em R$ 985,6 milhões —, o montante de R$ 452,1 milhões corresponde exclusivamente a debêntures. O valor representa cerca de 46% de todo o passivo acumulado pela instituição financeira.
Para Aridelmo Teixeira, a captação desses recursos no mercado ultrapassa o mero risco empresarial e esbarra em conflito de interesses direto com a gestão pública. O economista traça um paralelo com grandes controvérsias nacionais de compliance para ilustrar a gravidade da articulação.
“Uma empresa que nasce, cresce e quebra é do jogo. O que não é permitido, é crime previsto, é tráfico de influência. Então, quando o balcão de uma empresa vira condomínio com o Estado, a gente já sabe onde isso acaba: corrupção. Diversas pessoas que investiram lá o fizeram não porque acharam que era um bom negócio o investimento em si. Isso é voz corrente entre os que estão lá: fizeram porque a empresa tinha relação com agentes do governo. O Espírito Santo é nota A no Tesouro há muitos anos”, afirmou Aridelmo.
Alfinetadas sobre conflito de interesse e vendas de ativos
O ex-secretário faz provocações duras ao ambiente regulatório brasileiro, afirmando que a simples presença de parentes diretos de governantes na captação de investimentos gera uma assimetria no mercado. Ele compara a situação ao controverso contrato firmado entre o Banco Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Aí que começa a surgir a relação umbilical entre governo e investidores, captando debêntures de uma empresa que tem relação societária com o Palácio Anchieta. Esse é o problema: isso é muito similar ao contrato de 129 milhões da mulher do ministro com o Banco Master. Ou seja, em qualquer país sério do mundo isso não seria permitido porque é óbvio o conflito de interesse. Em um país onde o Estado tem uma força muito grande, tributa muito e regula muito, as empresas se sentem confrontadas. E se a pessoa bate na sua porta oferecendo um produto com dois filhos de governantes, você faz o quê?”, provocou o empresário.
Questionado sobre a venda das ações da Fucape — faculdade fundada por ele e seus irmãos — para um veículo sob gestão da Apex em 2024, Aridelmo rechaçou qualquer incoerência e explicou as diferenças estruturais das operações.
“O meu processo de venda é bem diferente dos outros processos que aí estão com o problema. O processo de venda se dá por meio de remonto, não por propósito específico. Junta pessoas que querem adquirir cotas, mas sozinhas não conseguem, se juntam em grupo e compram. Eu vendi para esse núcleo que é um veículo onde a Apex é a gestora. A venda foi em 2024 e eu não tenho nenhum centavo na Apex. Sou simplesmente um ativo: ofereceram uma compra, eu vendi, ponto. É a única relação que tenho com a instituição”, esclareceu.
“Se não consegue entender que isso é errado, é má-fé”
Apesar de reconhecer a complexidade do tema financeiro, que muitas vezes afasta o debate das camadas mais populares da sociedade, Aridelmo garante que não deixará o assunto esfriar durante a corrida eleitoral. Para ele, a aceitação pública do caso pode abrir um precedente perigoso no ambiente institucional capixaba.
“Isso é grave. Suponhamos que ele [Ricardo], de boa-fé, entenda que isso não é um problema: esse é o problema, e dentre os mais graves problemas. Se não consegue entender que ter montado uma empresa que emite debêntures, onde o filho é sócio nas duas pontas e capta dinheiro de pessoas com garantias frágeis, se ele não entende que isso é errado, isso é má-fé, é crime. Nós estamos falando que ter um governador que não conhece a legislação é um problema. E se ele sabe, também é problema. E o capixaba aceitar isso é passar o carimbo de que o crime compensa”, concluiu.










