A Região Serrana do Espírito Santo se prepara para vivenciar uma transformação profunda em seu mapa produtivo e turístico. Conhecido historicamente pelo clima ameno e pelas paisagens exuberantes, o território capixaba agora mira um novo e promissor nicho de mercado: a alta gastronomia e a produção de vinhos finos de inverno. Com investimentos públicos de R$ 550,5 mil liberados pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) deu início ao projeto “Viticultura de Inverno Capixaba: Inovação, Adaptação e Transferência de Conhecimento para a Produção de Uvas e Vinhos Sustentáveis”.
A iniciativa foi apresentada oficialmente durante a RuralturES, em Venda Nova do Imigrante, e faz parte do projeto Vines — uma articulação estratégica que reúne o Sebrae/ES, o Senac e o Senar-ES. Durante um período de 48 meses, os pesquisadores vão testar, validar e transferir conhecimentos tecnológicos para permitir que agricultores da região cultivem variedades nobres de uvas e elaborem rótulos capazes de competir com os melhores do país.
O segredo da dupla poda e o ganho de qualidade
O carro-chefe da pesquisa é a aplicação da técnica da dupla poda, uma tecnologia agrícola que inverte o ciclo tradicional da videira. Em vez de amadurecer e colher os frutos no verão — período marcado por fortes chuvas que podem estragar a safra e aumentar o surgimento de pragas —, o manejo faz com que a colheita ocorra no inverno. Nos meses mais frios, as montanhas capixabas oferecem um cenário perfeito: menor incidência de precipitação e uma grande amplitude térmica, com dias ensolarados e noites frias.
Essa combinação climática estressa a planta na medida certa e concentra os açúcares e compostos aromáticos nos frutos, permitindo a colheita de uvas perfeitas para vinificação fina. Para testar o comportamento das plantas no solo local, o Incaper vai implantar três unidades experimentais onde serão avaliadas 10 cultivares diferentes, sendo oito variedades de uvas finas e duas híbridas, todas conduzidas sob o sistema de espaldeira e monitoradas por estações agrometeorológicas.
Além de medir a resistência a geadas, seca e pragas fúngicas, os cientistas vão conduzir vinificações de teste em parceria com cantinas já estabelecidas na Região Serrana, analisando indicadores laboratoriais rígidos, como equilíbrio de acidez, teor de açúcar, concentração de antocianinas, fenóis e taninos.
Retorno financeiro e segurança para a agricultura familiar
A vitivinicultura no Espírito Santo ocupa atualmente cerca de 199 hectares distribuídos por 222 propriedades rurais. Segundo dados do Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (Pedeag 4), o setor produziu 3.205 toneladas de uvas e movimentou R$ 20,5 milhões em 2021. No entanto, grande parte da produção histórica esteve voltada a uvas de mesa ou de mesa processadas, deixando uma lacuna no suprimento de matéria-prima de alta qualidade exigida pelas agroindústrias locais que fabricam vinhos finos.
Para o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, o papel da pesquisa pública é preencher exatamente essa lacuna, minimizando o risco de quem deseja apostar na cultura. O foco é fornecer suporte técnico científico tanto para empreendedores já estabelecidos quanto para novos entrantes, beneficiando diretamente as famílias de pequenos produtores.
“O objetivo principal é a geração de conhecimento e tecnologias adaptadas à realidade das regiões mais frias do Estado. Queremos diminuir o risco de quem já está empreendendo e dar maior segurança e confiabilidade para novos entrantes nesse arranjo, especialmente os agricultores familiares”, destacou o secretário.
Prazos, capacitação e o potencial do enoturismo
A coordenadora dos experimentos e pesquisadora do Incaper, Girlaine Pereira Oliveira, explicou que a intenção é transformar dados científicos em aplicação prática imediata no campo. Os primeiros levantamentos agroclimáticos e de desenvolvimento vegetal devem ser consolidados entre o 8º e o 12º mês de estudo. Já os protocolos definitivos de poda e controle sanitário serão validados entre 18 e 36 meses, momento em que as capacitações e transferências diretas de tecnologia aos produtores ganharão força.
O impacto esperado vai muito além do volume colhido nas lavouras. A consolidação de vinhedos de inverno e vinícolas de vinhos finos promete impulsionar o enoturismo, atraindo visitantes de todo o Brasil para roteiros de degustação, gastronomia e hospedagem de charme nas montanhas capixabas.
Mapeamentos preliminares conduzidos pelo pesquisador Samuel Coura, com base nos diretrizes da Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno (Anprovin), indicam que diversas áreas do Espírito Santo possuem altitude e clima perfeitamente equivalentes aos polos produtores de Minas Gerais e São Paulo, onde a vitivinicultura de inverno já é um sucesso consolidado. Com a validação dos testes de campo, o Estado dá um passo decisivo para se fixar no mapa das grandes regiões vitivinícolas do Brasil.










