Um retrato persistente e silencioso chama atenção no Espírito Santo. Ano após ano, os registros mudam, sobem, caem, mas o perfil das vítimas permanece o mesmo: meninas, ainda crianças, sendo violentadas, na maioria das vezes, dentro de casa.
Não se trata de um pico, nem de um dado isolado, mas sim de um padrão. Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SESP) mostram que, entre 2023 e 2025, os casos de crimes contra a dignidade sexual oscilaram no Estado. Foram 1.876 registros em 2023, queda para 1.479 em 2024 e novo aumento para 1.879 em 2025. Em 2026, já são 132 ocorrências contabilizadas até o momento.
Apesar da variação no total de casos, o perfil das vítimas praticamente não muda. Cerca de 70% têm até 13 anos e mais de 80% são do sexo feminino, índice que chegou a 85,9% em 2023. O levantamento também mostra que a maior parte das ocorrências acontece dentro de residências, variando entre 55% e 65%, e que o estupro de vulnerável segue como principal tipificação ao longo dos anos.
À frente da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), o delegado Marcelo Alencar afirma que a vulnerabilidade das vítimas ajuda a explicar por que crianças seguem sendo os principais alvos. “Infelizmente, crianças são mais vulneráveis sob diversos aspectos. Elas dependem emocional e financeiramente de adultos, têm dificuldade de reconhecer a violência e, muitas vezes, não conseguem verbalizar o que estão sofrendo”, conta.
Segundo ele, essa fragilidade é frequentemente explorada por quem deveria proteger. Na maioria dos casos, o investigado é alguém do convívio da vítima, como pai, padrasto, parente, vizinho ou pessoa próxima da família, o que reforça o caráter silencioso desse tipo de crime.
“Isso torna a situação ainda mais delicada, porque envolve quebra de confiança e, muitas vezes, dependência emocional e financeira. O agressor raramente é um desconhecido; geralmente é alguém que tinha acesso facilitado à criança”, explica.
O ambiente onde os casos acontecem também ajuda a manter a violência escondida. “Os dados indicam, de fato, que grande parte das ocorrências acontece dentro da residência, que deveria ser o espaço de maior proteção.” Nesses casos, o abuso tende a ser contínuo e mais difícil de ser identificado, especialmente pela convivência diária entre vítima e agressor.
A subnotificação ainda é um dos principais desafios. De acordo com o delegado, muitos casos não chegam ao conhecimento das autoridades por medo, ameaças, vergonha, dependência econômica ou até falta de informação sobre os canais de denúncia. “Por isso, é fundamental reforçar que o anonimato é garantido e que qualquer suspeita pode e deve ser comunicada”, destaca.
Para evitar que a violência continue invisível, o delegado aponta que o enfrentamento passa por informação dentro das famílias, capacitação da rede de proteção e fortalecimento da cultura da denúncia. “O enfrentamento da violência sexual contra crianças exige responsabilidade coletiva. Cada denúncia pode interromper um ciclo de violência e salvar uma infância”, reforça o delegado.
Violência sexual contra meninas é estrutural e atravessa gerações, aponta pesquisadora da UFES
Especialistas apontam que a violência sexual contra meninas não é episódica, mas resultado de uma estrutura histórica que ainda sustenta relações de poder desiguais. Para a professora Edinete Maria Rosa, do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o fato de meninas liderarem as estatísticas está diretamente ligado à forma como a sociedade foi construída ao longo do tempo.
“Nas estatísticas de violência sexual, as meninas lideram o número de vítimas e isso se dá porque nossa sociedade é uma sociedade patriarcal, machista, em que as mulheres são tidas como aquelas que estão a serviço dos prazeres, das vontades e das necessidades dos homens”, explica.
Segundo a pesquisadora, essa lógica não se restringe ao ambiente doméstico e se reproduz em diferentes esferas da vida social. A mesma base que sustenta a violência sexual também está presente nas relações de trabalho, na política e nas dinâmicas sociais, mantendo mulheres em posição de inferioridade.
“É a mesma composição, a mesma relação, a mesma base paradigmática que sustenta essa perversidade da violência sexual, presente em outras instâncias da vida em que as mulheres são colocadas em uma situação inferior ao homem”, conta.
A pesquisadora também chama atenção para o fato de que, na maioria dos casos, a violência é cometida por pessoas próximas da vítima. Segundo ela, essa proximidade está diretamente ligada a relações de poder e posse construídas dentro das famílias.
“São nas relações mais íntimas que a violência sexual ocorre, porque há uma crença de que essa proximidade coloca a vítima como uma posse desse adulto. ‘Se é minha filha, eu tenho poder sobre ela, eu tenho direito sobre ela’, como muitos agressores dizem”, afirma.
Esse cenário contribui para que a violência permaneça invisível por longos períodos. A especialista explica que o agressor estabelece uma dinâmica contínua de controle, sustentada por relações de autoridade e confiança, o que dificulta o rompimento do ciclo.
Ela afirma que o problema precisa ser enfrentado como uma questão estrutural e coletiva, e não apenas individual, exigindo mudanças na forma como a sociedade compreende as relações de gênero e poder. “Por trás de um agressor, muitas vezes, existe uma criança que também foi violentada. A violência é geracional e nós vamos interromper esse ciclo cuidando da vítima e também do agressor”, conta.
Violência sexual deixa marcas profundas e silenciosas em crianças e adolescentes, alerta psicóloga
De acordo com a psicóloga Tainá Machado, a violência sexual contra meninas não termina no momento do abuso. Ela se prolonga no tempo, afeta o desenvolvimento emocional e pode impactar toda a vida da vítima.
A especialista conta que os efeitos da violência são ainda mais intensos porque atingem uma fase decisiva da vida. A infância e a adolescência são períodos em que a identidade, a segurança emocional e a confiança nas relações ainda estão em formação. “A violência sexual na infância ou adolescência pode gerar impactos psicológicos profundos porque acontece em uma fase em que a identidade, a segurança emocional e a confiança nas relações ainda estão em formação”, explica.
Entre os principais sinais estão mudanças de comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas e dificuldades no sono. Em muitos casos, a criança passa a viver em estado constante de alerta, como se o perigo fosse permanente.
A psicóloga explica que esse quadro pode evoluir para consequências mais graves, como ansiedade intensa, sentimentos de vazio, desesperança e até quadros depressivos, além de afetar diretamente a autoestima e a forma como a vítima se enxerga. “O agressor muitas vezes constrói uma imagem de pessoa confiável. Essa confiança faz com que a vítima se sinta segura inicialmente, não levante suspeitas da família e o agressor tenha menos vigilância”, conta.
Romper o silêncio, no entanto, ainda é um dos maiores desafios. Segundo Tainá, o abuso geralmente envolve medo, ameaças e vínculos complexos, o que dificulta que a vítima consiga denunciar ou até mesmo compreender o que está acontecendo.
Ela destaca que, em muitos casos, quando a criança ou adolescente tenta relatar a situação, não encontra acolhimento, o que contribui para o silenciamento e prolonga o sofrimento. “Quando um adulto minimiza ou duvida, isso pode fazer com que a criança ou adolescente se cale novamente”, alerta.
Para enfrentar esse cenário, a psicóloga defende que a prevenção precisa começar cedo e envolver toda a sociedade. Isso inclui orientar crianças sobre limites, ajudá-las a reconhecer situações de desconforto e incentivar a busca por ajuda. “Em resumo, a prevenção mais efetiva acontece quando a sociedade passa a enxergar a proteção de crianças e adolescentes como uma responsabilidade coletiva”, afirma.
Ela também ressalta a importância da atuação de profissionais preparados para identificar sinais de violência e acolher as vítimas de forma adequada, além do fortalecimento da rede de proteção. Apesar dos impactos, a psicóloga reforça que a recuperação é possível, especialmente quando há acompanhamento psicológico adequado, fundamental para ajudar vítimas a reconstruírem sua história com mais segurança e dignidade.









