“Não furtarás” também vale para o tempo que devemos ao outro?

“Não furtarás” também vale para o tempo que devemos ao outro?Quando pensamos no mandamento “não furtarás”, a primeira coisa que vem à nossa mente é dinheiro e bens materiais. Mas, imagine essa cena comigo: uma menina passou o jantar querendo contar ao pai o que aconteceu na escola. Ele prometeu ouvi-la antes de dormir. Quando ela chega com o caderno na mão, ele está vendo um vídeo no celular. “Só um minutinho, filha”. Mais tarde, ele vai até o quarto. A menina dormiu. O caderno está fechado sobre a cama.

Se alguém perguntasse a esse pai o que diz o oitavo mandamento, talvez ele respondesse de memória. “Não furtarás” (Êxodo 20.15). E provavelmente estranharia que a pergunta viesse justamente naquela noite. Afinal, o que saiu das mãos da menina? Para responder, é preciso lembrar o que ela tinha quando procurou o pai. Tinha a palavra dele.

O que devemos ao próximo

Anos atrás, quando preparei uma aula de Escola Bíblica Dominical sobre esse mandamento, uma observação de João Calvino me chamou a atenção. Nas Institutas, ao tratar do furto, ele inclui entre as maneiras de lesar o próximo a recusa de um serviço que lhe devemos. Pense em alguém encarregado de cuidar dos bens de outra pessoa. Se, por descaso, deixa que ela sofra prejuízo, de que serve alegar que nunca pôs um centavo alheio no bolso?

Em Êxodo, a ordem de Deus protege o que pertence ao próximo. É desse respeito pelo outro que nasce uma pergunta sobre o tempo. Se prometi levar minha mãe a uma consulta e, por conveniência, ocupei aquela manhã com outra coisa, quem perdeu a consulta foi ela. Posso até ter usado bem aquelas horas para resolver um problema meu. Minha mãe, porém, tinha razão para contar comigo.

“Não furtarás” também vale para o tempo que devemos ao outro?
O tempo é o ativo mais precioso que temos: quando o doamos para o que não é prioridade, podemos estar furtando, inclusive de Deus

Quem paga pelo atraso?

Imagine agora um chefe que recebeu pela manhã uma tarefa para a equipe. O prazo termina hoje. Ele poderia ter distribuído o trabalho cedo, mas só se lembra dele quando todos se preparam para sair. “Gente, vamos precisar ficar mais um pouquinho.” Um funcionário pega o telefone para avisar em casa. Era a vez dele de buscar o filho. Quem deu a ordem talvez nunca saiba quem precisou ir buscar aquela criança.

Também precisamos de descanso. Quem chega de um plantão e vai dormir está cuidando da vida que Deus lhe confiou. A questão aparece quando trato o tempo dos outros como se eu pudesse dispor dele. E isso vale até para compromissos assumidos na igreja. Posso dizer sim a mais uma atividade e deixar para minha esposa, sem sequer conversar com ela, o cuidado que eu tinha assumido em casa. Meu nome vai aparecer na escala. O dela, que tornou possível a minha presença, talvez ninguém veja.

O uso do tempo revela o que consideramos prioridade diante de Deus. Há dias em que a oração fica para depois, embora eu tenha encontrado meia hora para acompanhar uma discussão no telefone. Em outros, eu precisaria justamente encerrar a discussão para ouvir a pessoa sentada ao meu lado. Vale perguntar a mim mesmo o que tenho adiado e quem tem arcado com as minhas escolhas.

Graça para quem falhou

“Não furtarás” também vale para o tempo que devemos ao outro?
Quem se volta a Deus com arrependimento e fé recebe graça

Há um detalhe na aula ao qual gosto de voltar. Antes de entregar os mandamentos, Deus lembra a Israel que ouviu o sofrimento do povo, o libertou do Egito e o trouxe para perto de si (Êxodo 19.4). Quando Israel chegou ao Sinai, já havia atravessado o mar. A obediência vinha como resposta ao Deus que o havia socorrido.

Ao considerar o que devemos a Deus e uns aos outros, todos nós temos pecados a confessar. Uma agenda mais organizada pode evitar outro atraso. O perdão de que precisamos, porém, só encontramos em Jesus Cristo. Ele morreu por nossos pecados e ressuscitou. Quem se volta para ele com arrependimento e fé pode contar a verdade sobre o mal que fez, receber perdão e aprender a agir com justiça, inclusive quando isso exige reparar um prejuízo.

Voltemos à menina. Pela manhã, o pai ainda pode bater à porta e dizer algo que custa mais do que prometer outro minutinho. “Filha, ontem eu disse que ia te ouvir e te deixei esperando. Você me perdoa?”. Depois, pode deixar o celular em outro cômodo, sentar-se perto dela e perguntar o que havia naquele caderno. É assim que a graça de Cristo pode alcançar também as próximas horas desse pai. Ele foi perdoado e, agora, tem uma filha para ouvir.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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