A Copa do Mundo, o Evangelho e a celebração que não vai ter fim

A Copa do Mundo, o Evangelho e a celebração que não vai ter fimHá algo extraordinariamente bonito acontecendo no mundo nestes dias.

Durante algumas semanas, diferenças de idioma, cultura, história e geografia parecem perder força diante de uma paixão compartilhada. Crianças vestem camisas de seleções que talvez nunca visitem. Famílias reorganizam a rotina para assistir aos jogos. Amigos se reencontram diante da televisão. Desconhecidos comemoram um gol com um abraço espontâneo. Ruas ganham novas cores. Bandeiras tremulam nas janelas.

Em um tempo marcado por guerras, polarização e desconfiança, o futebol consegue realizar algo raro: reunir pessoas.

É claro que a Copa do Mundo não resolve os grandes dramas da humanidade. Ela não silencia armas, não elimina injustiças nem cura corações feridos. Ainda assim, seria um erro enxergá-la apenas como entretenimento. Há algo muito mais profundo acontecendo.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que bilhões de pessoas gostam de futebol.

A pergunta é outra: Por que a Copa do Mundo nos emociona tanto?

Fomos criados para celebrar

A resposta começa muito antes do surgimento do primeiro estádio. Ela começa na criação.

A Bíblia apresenta um Deus que cria um mundo bom, belo e cheio de vida. Antes da entrada do pecado, o Senhor declara: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). A comunhão não nasce da necessidade; ela nasce do próprio projeto de Deus para a humanidade.

Fomos criados para viver uns com os outros. Para compartilhar alegrias. Para construir vínculos. Para celebrar.

Talvez seja por isso que algumas das lembranças mais felizes da vida quase nunca aconteçam na solidão. São refeições em família, casamentos, aniversários, encontros entre amigos, o nascimento de um filho, uma mesa cercada de pessoas queridas.

A Copa do Mundo, o Evangelho e a celebração que não vai ter fim - Torcedores de diferentes países celebrando juntos

O salmista resume essa beleza em poucas palavras:

“Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!” (Salmo 133:1, NVI).

A Copa do Mundo parece tocar exatamente essa corda do coração humano. Durante alguns dias, experimentamos algo que ultrapassa o resultado de uma partida. Compartilhamos esperança, expectativa, alegria e emoção com milhões de pessoas ao redor do planeta.

Isso não é acidental.

A tradição reformada chama esse fenômeno de graça comum: Deus continua derramando bondade sobre toda a criação, permitindo que mesmo um mundo ferido pelo pecado produza beleza, criatividade, cultura, amizade, esporte e momentos de verdadeira alegria.

A saudade que nem sabíamos que existia

Mas talvez exista algo ainda mais profundo. A Bíblia descreve o Reino de Deus com imagens surpreendentemente festivas.

O profeta Isaías anuncia um banquete preparado pelo próprio Deus para todos os povos (Isaías 25:6-9). Jesus compara o Reino dos Céus a um casamento (Mateus 22:1-14). Conta a história de uma grande ceia para a qual pessoas de todos os lugares são convidadas (Lucas 14:15-24). E seu primeiro milagre acontece justamente durante uma festa de casamento, transformando água em vinho (João 2:1-11).

Isso revela algo extraordinário. O Deus da Bíblia não é inimigo da alegria. Ao contrário. Toda alegria verdadeira encontra sua origem nele.

Talvez seja justamente por isso que grandes celebrações humanas nos emocionem tanto. Elas despertam uma saudade que muitas vezes não conseguimos explicar.

Quando vemos povos diferentes cantando juntos, quando um estádio inteiro vibra como uma só voz, quando percebemos que rivalidades políticas, culturais e linguísticas cedem espaço, ainda que por alguns instantes, à alegria compartilhada, alguma coisa dentro de nós diz silenciosamente:

Era assim que o mundo deveria ser.

A Copa do Mundo, o Evangelho e a celebração que não vai ter fim - torcedores do Brasil unidos

O apito final sempre chega

Mas então o jogo termina. As arquibancadas esvaziam. As bandeiras são guardadas. As transmissões acabam. Os campeões levantam a taça. Os derrotados voltam para casa.

Poucos dias depois, o noticiário já fala novamente sobre guerras, violência, crises econômicas, corrupção e divisões.

É impossível não perceber a tensão.

Durante algumas semanas, experimentamos um lampejo de comunhão. Depois voltamos à realidade de um mundo quebrado.

A Bíblia explica essa ruptura. O pecado não destruiu completamente aquilo para o que fomos criados, mas corrompeu tudo.

Continuamos desejando paz. Mas produzimos guerras. Continuamos desejando unidade. Mas construímos divisões. Continuamos desejando comunhão. Mas frequentemente escolhemos o egoísmo.

Talvez a Copa revele exatamente isso. Durante alguns dias mostramos um vislumbre da humanidade que Deus idealizou. Depois retornamos à humanidade que o pecado deformou.

A festa que nunca terminará

É aqui que o Evangelho responde ao anseio mais profundo do coração humano.

A última palavra da Bíblia não é guerra. Não é divisão. Não é solidão.

É adoração.

A Copa do Mundo, o Evangelho e a celebração que não vai ter fim - Jesus em sua entrada triunfal em Jerusalém, sendo celebrado pela multidão

O apóstolo João contempla uma cena extraordinária:

“Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé, diante do trono e do Cordeiro…” (Apocalipse 7:9, NVI).

Que imagem extraordinária!

Todas as nações. Todas as culturas. Todos os idiomas. Não reunidos em torno de uma taça. Mas diante do Rei dos reis.

Ali não haverá rivalidade. Não haverá fronteiras. Não haverá vencedores de um lado e derrotados do outro.

Haverá um único Campeão: Jesus Cristo, que venceu o pecado, a morte e o inferno por meio de sua cruz e de sua ressurreição.

Talvez seja por isso que a Copa do Mundo nos emocione tanto. Não porque ela consiga satisfazer o coração humano. Mas porque desperta uma lembrança daquilo para o que fomos criados.

Ela nos oferece um pequeno vislumbre da comunhão que um dia será perfeita.

Por alguns dias, experimentamos uma alegria compartilhada que parece maior do que um simples jogo.

E ela realmente é. Porque aponta para uma realidade muito maior.

Quando o árbitro apita o fim da Copa, a festa acaba.

Mas quando Cristo consumar o seu Reino, a verdadeira celebração apenas começará.

Naquele dia, pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas não estarão reunidas para celebrar uma vitória que pertence a apenas um Vencedor.

Estarão reunidas para celebrar o Cordeiro que venceu por todos os que nele creem.

E, dessa vez, não haverá prorrogação, nem despedidas, nem apito final.

A festa nunca terminará.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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