O Evangelho não molda apenas a mensagem do pastor. Molda, antes de tudo, o seu coração
Todos os domingos, milhares de pastores sobem aos púlpitos para anunciar as boas-novas de Jesus Cristo. Eles pregam sobre graça, arrependimento, perdão, santidade e esperança. Consolam aflitos, exortam pecadores, ensinam as Escrituras e apontam para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Mas existe um perigo silencioso que ronda todo ministério pastoral.
É possível passar anos pregando o Evangelho aos outros e, aos poucos, deixar de pregá-lo para si mesmo.
É possível ensinar sobre a graça enquanto o coração passa a viver do desempenho. É possível anunciar a suficiência de Cristo enquanto se tenta encontrar identidade no crescimento da igreja, na aprovação das pessoas, na influência das redes sociais ou no reconhecimento do próprio ministério.
Por isso, antes de ser pastor, todo pastor continua sendo uma ovelha.
Essa talvez seja a verdade mais importante — e também a mais esquecida — sobre o ministério pastoral.
O pastor nunca deixa de precisar do Evangelho
O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo: “Tenha cuidado de você mesmo e da doutrina. Continue nestes deveres, porque, fazendo assim, você salvará tanto a si mesmo como aos seus ouvintes” (1 Timóteo 4.16, NAA).
A ordem impressiona. Antes de cuidar da doutrina ensinada à igreja, Timóteo deveria vigiar o próprio coração.
O pastor não é alguém que superou a necessidade da graça. Pelo contrário. Quanto mais conhece a santidade de Deus, mais reconhece sua própria dependência da misericórdia de Cristo.
É por isso que o Evangelho não é apenas a mensagem que o pastor anuncia. É a verdade da qual ele depende diariamente para permanecer de pé.
Como escreveu Martyn Lloyd-Jones, “o maior perigo para um pregador é esquecer que ele mesmo precisa da mensagem que proclama” (LLOYD-JONES, D. Martyn. Preaching and Preachers. Grand Rapids: Zondervan, 1971).
O púlpito nunca substitui a cruz.

O Evangelho destrói o orgulho
Poucas tentações são tão perigosas para um pastor quanto o orgulho.
Afinal, ele é ouvido, aconselha pessoas, influencia decisões e, muitas vezes, recebe reconhecimento público. Sem perceber, pode começar a acreditar que sua importância está na posição que ocupa.
Mas o Evangelho destrói essa ilusão.
Paulo pergunta aos coríntios: “Pois quem é que faz com que você seja diferente dos demais? E o que você tem que não tenha recebido? E, se o recebeu, por que se orgulha, como se não o tivesse recebido?” (1 Coríntios 4.7, NAA).
Todo dom veio de Deus. Toda oportunidade veio de Deus. Toda conversão pertence a Deus. Toda glória pertence a Deus.
O verdadeiro pastor sabe que não é o protagonista da história da redenção. Ele é apenas um servo chamado a anunciar aquele que realmente salva.
João Batista compreendeu isso quando declarou: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30, NAA).
Quanto mais Cristo aparece, mais feliz o verdadeiro pastor fica.
O Evangelho liberta da necessidade de agradar pessoas
Vivemos a era das métricas. Curtidas, compartilhamentos, visualizações e seguidores transformaram-se em indicadores de sucesso. Essa lógica também pode invadir o ministério pastoral.
Quando isso acontece, a tentação é adaptar a mensagem para evitar rejeição.
Mas Paulo faz uma pergunta que continua ecoando pelos séculos: “Por acaso eu procuro agora o favor das pessoas ou o de Deus? Ou procuro agradar pessoas? Se ainda estivesse agradando pessoas, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1.10, NAA).
O Evangelho liberta o pastor da escravidão da aprovação humana.
Seu compromisso não é dizer aquilo que as pessoas desejam ouvir, mas aquilo que Deus decidiu revelar em sua Palavra.
Amar o rebanho nunca significará esconder dele a verdade.
O Evangelho ensina o pastor a sofrer
Existe outra ilusão moderna: imaginar que um ministério bem-sucedido é um ministério sem sofrimento.
As Escrituras dizem exatamente o contrário.
Paulo descreve prisões, perseguições, açoites, fraquezas, lágrimas e angústias como parte natural de seu chamado (2 Coríntios 11.23-29).
O próprio Senhor Jesus advertiu Pedro sobre o preço de segui-lo (João 21.18-19).
O Evangelho não promete uma vida confortável ao pastor. Promete a presença constante do Bom Pastor.
Como observou John Piper, Deus frequentemente realiza sua obra mais profunda por meio de servos quebrantados, para que fique evidente que o poder pertence a Cristo e não ao homem (PIPER, John. Brothers, We Are Not Professionals. Nashville: B&H Publishing, 2013).

O Evangelho conduz ao arrependimento diário
Talvez o maior equívoco seja imaginar que apenas membros da igreja precisam arrepender-se.
Pastores também precisam. Precisam arrepender-se da impaciência. Da vaidade. Da autossuficiência. Da negligência na oração. Do amor ao reconhecimento. Do medo dos homens. Da frieza espiritual.
O arrependimento não desqualifica um pastor. A ausência dele, sim.
O homem que chama outros ao arrependimento deve ser o primeiro a dobrar os joelhos diante de Deus.
Richard Sibbes escreveu que não existe coração mais seguro do que aquele continuamente quebrantado diante da cruz de Cristo (SIBBES, Richard. The Bruised Reed. Edinburgh: Banner of Truth, 1998).
Antes de conduzir outras ovelhas, ele continua seguindo o Bom Pastor
No Dia do Pastor Batista, é justo agradecer a Deus pelos homens que dedicam suas vidas ao cuidado da Igreja.
Mas talvez a maior homenagem que possamos prestar aos pastores fiéis seja lembrar-lhes de algo que o próprio Cristo nunca permitiu que Pedro esquecesse.
Antes de apascentar as ovelhas, Pedro precisava amar o Pastor. Antes de ensinar, precisava ouvir. Antes de conduzir, precisava seguir. Antes de falar, precisava permanecer.
A Igreja não precisa de super-heróis de púlpito.
Precisa de homens suficientemente humildes para jamais esquecerem que continuam sendo pecadores alcançados pela graça.
Porque o maior pastor não é aquele que parece invencível. É aquele que nunca deixou de caminhar atrás do Supremo Pastor.
“Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, os aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirem a sua vontade…” (Hebreus 13.20-21, NAA).










