Domingo de Ramos: entre o “Hosana” e o “crucifica-o”

Domingo de Ramos: entre o “Hosana” e o “crucifica-o”O Domingo de Ramos marca o início da chamada Semana Santa no calendário cristão. A data relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando foi recebido por uma multidão que o aclamava como Rei, estendendo ramos pelo caminho e proclamando:

“Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”
(Evangelho de Mateus 21:9, NVI)

À primeira vista, a cena é de celebração, reconhecimento e fé. Mas há uma tensão silenciosa no texto bíblico que precisa ser encarada com honestidade: poucos dias depois, vozes semelhantes ecoariam em Jerusalém pedindo a crucificação de Jesus.

Esse contraste não é apenas histórico, ele é profundamente espiritual e atual.

O que é o Domingo de Ramos, afinal?

O episódio narrado nos Evangelhos (como em Evangelho de João 12:12–15) cumpre diretamente a profecia de Zacarias:

“Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento” (Zacarias 9:9, NVI)

Jesus entra em Jerusalém não como um conquistador militar, mas como um Rei humilde. Ele não vem para tomar o poder político, mas para entregar a própria vida.

E é exatamente aqui que começa o problema.

Leia também no Fé Pública: Domingo de Ramos: 4 significados que os ramos têm na entrada de Jesus em Jerusalém

O erro da multidão: um Messias sob medida

A multidão que gritava “Hosana” – expressão de clamor que significa “salva-nos, agora” não estava, necessariamente, reconhecendo Jesus como Ele realmente era — mas como gostaria que Ele fosse. Segundo João Calvino, em seu comentário sobre os Evangelhos:

“Eles o honram com palavras, mas não compreendem a natureza do seu reino”

Calvino aponta que havia entusiasmo, mas não entendimento. Havia celebração, mas não submissão.

De forma semelhante, R. C. Sproul observa que a expectativa messiânica popular estava profundamente ligada à libertação política de Israel, e não à redenção do pecado.

Domingo de Ramos: entre o “Hosana” e o “Crucifica-o”
Sproul explica que o povo esperava um Messias político e militar, que libertasse Israel do jugo do Império Romano

Ou seja: eles queriam um rei que resolvesse seus problemas imediatos, não um Salvador que confrontasse seus pecados.

O espelho da contemporaneidade

Antes de julgar aquela multidão, é preciso reconhecer algo incômodo: nós não somos tão diferentes. A fé contemporânea, muitas vezes, segue a mesma lógica:

  • buscamos um Jesus que abençoe, mas não confronte;
  • que resolva, mas não transforme;
  • que acolha, mas não exija arrependimento.

D. A. Carson escreve que a entrada triunfal “revela tanto a identidade de Jesus quanto a incompreensão das multidões”. Essa incompreensão permanece viva.

Ainda hoje, muitos dizem “Hosana”… mas apenas enquanto Jesus atende às suas expectativas. Quando Ele confronta o orgulho, o pecado, a autossuficiência, a resposta muda.

Talvez não gritamos “Crucifica-o” com os lábios, mas fazemos isso com as nossas decisões, com a nossa vida.

O escândalo do verdadeiro Rei

O problema nunca foi a ausência de fé, foi a presença de uma fé mal direcionada. A multidão não rejeitou Jesus por falta de sinais. Rejeitou porque Ele não se encaixava no projeto que tinham em mente.

Ele veio humilde. Veio para sofrer. Veio para morrer. E isso confronta qualquer ideia de um Deus que existe apenas para servir aos nossos interesses.

O Evangelho que atravessa a rejeição

Aqui está o ponto mais poderoso do Domingo de Ramos: Jesus sabia de tudo isso, e ainda assim entrou em Jerusalém.

Ele não foi enganado pela multidão. Não foi surpreendido pela rejeição. Não perdeu o controle da situação. Ele foi voluntariamente.

Domingo de Ramos: entre o “Hosana” e o “Crucifica-o”
Bavinck: Jesus reina pelo sacrifício

Como afirma Herman Bavinck, a obra de Cristo revela um Rei que reina justamente por meio do sacrifício.

O “Hosana” superficial da multidão não impediu o plano de Deus. O “Crucifica-o” também não. Na cruz, Cristo morreu exatamente por pecadores assim — volúveis, inconsistentes, centrados em si mesmos.

Aplicação final: que tipo de fé nós temos?

O Domingo de Ramos nos obriga a uma pergunta desconfortável: Estamos seguindo Jesus por quem Ele é ou pelo que esperamos que Ele faça por nós?

Essa é uma linha fina e decisiva. Porque o verdadeiro Evangelho não nos oferece um Cristo moldável, mas um Rei soberano. Não um salvador funcional, mas um Senhor digno de rendição total.

Entre o “Hosana” e o “Crucifica-o”, existe um abismo… e ele passa pelo coração humano.

Mas o Evangelho não nos deixa parados nesse abismo. Ele nos chama.

Chama ao arrependimento: a abandonar uma fé superficial e interessada. Chama à rendição: a receber Cristo não como queremos, mas como Ele é: Senhor e Salvador.

Porque o mesmo Jesus que foi aclamado e depois rejeitado é também aquele que, na cruz, ofereceu perdão aos pecadores.

Hoje, o convite permanece. Não para um entusiasmo momentâneo, mas para uma fé verdadeira.

Não apenas para dizer “Hosana” com os lábios, mas para reconhecer Jesus como Rei com toda a vida.

E essa é a decisão que o Domingo de Ramos ainda exige de nós.


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Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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