Sabe quando você faz determinados planos, nutre expectativas e sonhos e, de repente, dá errado e nada sai como você imagina? Sabe qual é o nome disso?
Vida.
Dificilmente sua vida será o que você idealiza e as coisas acontecerão do jeito que você deseja.
Uma coisa que tenho aprendido em minha caminhada com Deus é que Ele é especialista em usar aquilo que aparentemente foi um fracasso para redirecionar a minha vida. Ou ainda, quando tudo parecia estar indo bem ou “dando certo”, repentinamente, Deus começa a sinalizar que eu precisava ir para outra direção.
Foi exatamente isso que experimentou um dos maiores profetas do Antigo Testamento, o profeta Elias.
Elias viu sua vida fora do seu controle, sendo levado de caos em caos, privações, provações, solidão e depressão. Mas, ele passa por tudo isso sendo sustentado por Deus e tendo experiências com Ele como poucos tiveram.
Elias é um dos maiores profetas do Antigo Testamento.
Foi através dele que Deus ressuscitou a primeira pessoa nas Escrituras. Ele confronta os governantes perversos do Israel de seu tempo: Acabe e sua esposa Jezabel. Ele enfrenta e vence os 450 profetas de Baal e mais 400 profetas de Aserá no Monte Carmelo. E Elias agradou tanto o coração de Deus que ele não experimenta a morte, pois Deus o eleva ao Céu num redemoinho.
Mesmo sendo essa pessoa tão importante e com tantas experiências com Deus, imagino que sua vida não foi como ele planejou ou gostaria. Ele teve queparar, redirecionar e recomeçar algumas vezes em sua vida, como podemos verificar no livro de 1 Reis capítulo 17.
Às vezes, mesmo fazendo o certo as coisas não saem como gostaríamos (1 Reis 17.1-7)
Elias devia estar cuidando de sua vida, quando Deus o convoca para uma missão duríssima: confrontar o poderoso e cruel rei Acabe, rei de Israel.
Acabe começou a reinar em Israel por volta de 874 a.C. por 34 anos e pecou mais do que qualquer outro rei antes dele. Nesse tempo, Israel já havia se separado de Judá e desde a época de Jeroboão não haviam profetas do Senhor na corte aconselhando o rei. E a apostasia era tão grande que o próprio rei de Israel promovia cultos a Baal e Aserá, levando o povo a pecar contra Deus. Eram seus cultos aos deuses da fertilidade, das chuvas, que supostamente eram responsáveis por dar boas colheitas.
O culto a Baal incluía prostituição ritualística e, até mesmo, sacrifícios humanos. Baal era considerado o deus responsável pelas tempestades e os relâmpagos. Segundo esta crença, era a divindade que respondia pela fertilidade da terra. Baal também era crido dentro da fé cananeia como a divindade que luta “pela vegetação, pela fertilidade das lavouras e dos animais, e pela vida contra a Morte” (REINKE, 2019, p. 142).
O que estava acontecendo era uma disputa entre Baal, o deus promovido por Acabe, e Yahweh, o Deus de Elias.
Então quando Elias diz a Acabe que não choveria mais enquanto o Senhor Deus Yahweh dissesse, ele estava mostrando a superioridade de Yahweh sobre Baal, em sua própria “jurisdição”, em seu próprio domínio: sobre as chuvas e a fertilidade.
Elias, em sua fidelidade a Deus, confronta o perverso rei Acabe, e por isso precisa fugir. Foi conduzido por Deus para o rio Querite, e ali ficou refugiado. Elias bebia da água fresca de um riacho que ainda não havia secado e era alimentado sobrenaturalmente por corvos. Será que era isso que Elias imaginou que iria acontecer se ele fosse obediente a Deus, se ele fizesse tudo certinho?
Não sei se isso passou pela cabeça de Elias, mas passa pela nossa que se a gente fizer tudo certinho nada vai dar errado na nossa vida.
E outra crença que nutrimos também é que gente ruim não se dá bem nesta vida, e o pior é que muitas vezes elas se dão bem (muito embora elas, em breve, terão que prestar contas de suas vidas a Deus; e deste julgamento ninguém passará impune).
Guto Siqueira é pastor e professor de História (Foto: divulgação)
Mas talvez você esteja questionando neste momento: “por que gente que é fiel a Deus sofre? Porque desde que o pecado entrou no mundo tudo entrou em desequilíbrio e a maldade e a injustiça se instalaram nas estruturas sociais. “O mundo jaz no maligno” (1 Jo 5.19). E os sofrimentos e injustiças deste nos lembram de onde somos de verdade: somos da Pátria Celeste, pertencemos a Deus!
E seu Reino não é deste mundo! E jamais podemos esquecer disso, das ricas promessas eternas de que as nossas lágrimas serão enxugadas, de que um dia estaremos juntos do nosso Salvador e, assim, seremos totalmente plenos!
Nunca se esqueça que os sofrimentos daqui são um lembrete de que você não é daqui, mas da Pátria Celeste, e que na casa de seu Pai sofrimento algum e injustiça entrarão!
Às vezes, as coisas dando errado são só uma maneira de Deus te redirecionar para algo novo que ele quer fazer (1 Reis 17.7-16)
Quando Elias já estava se acostumando com aquela dinâmica de água fresca do rio e alimentos trazidos por corvos, o rio seca. Elias não havia pecado nem feito nada errado, muito pelo contrário, ele estava onde Deus queria que ele estivesse.
Sarepta era uma cidade que não era israelita, era situada entre Tiro e Sidom. Elias estava sendo conduzido para um território onde Baal era adorado, e neste lugar ele viveria uma das maiores experiências com Deus de sua vida!
Se tratava de uma grande crise hídrica! Anos atrás, experimentamos uma por aqui, e o que aconteceu comparado com a situação que as pessoas do tempo de Elias viveram foi tranquilo. Nós tivemos que pagar mais caro na conta de luz e em alguns alimentos, mas creio que você não conhece ninguém que tenha morrido de inanição por causa da crise hídrica, como esta viúva que se encontrou com Elias. A sua melhor expectativa dela era comer seu último alimento e depois morrer lentamente de fome, juntamente de seu filho. Não chovia, então os rios secavam e não havia água para nada. Em consequência, as colheitas eram terríveis, e então as pessoas não tinham o que comer.
Às vezes, as coisas dando errado, ou não saindo do nosso jeito, ou ainda sendo um fracasso, tudo isso pode ser só uma maneira de Deus te redirecionar para algo novo que Ele quer fazer.
Na vida de Elias, Deus usou esta situação para direcionar sua vida. Deus o conduz a Sarepta para ele ser alimentado por uma pessoa que não tinha quase nada, uma viúva, que precisava de mais ajuda do que ele. As viúvas faziam parte de uma classe de pessoas em situação de vulnerabilidade social, juntamente com os pobres, órfãos e estrangeiros, o que Timothy Keller chama de “quarteto da vulnerabilidade” (2013, p. 25). Esse grupo de pessoas não tinha herança, nem terras, nem como sobreviver e existiam mandamentos na Lei de Israel para cuidar dessas pessoas.
O que Deus estava pretendendo com isso? Sustentar Elias através de alguém que precisava ser protegida?
Elias então, pede água e comida à mulher, que por sua vez lhe diz algo parecido com: “Eu que estou precisando de ajuda! Eu e meu filho comeremos o último alimento que temos e esperaremos a morte!” – disse ela, sem esperança ou expectativa alguma de melhora.
Elias vivencia um milagre na vida de uma mulher que tinha um punhado de trigo e azeite para fazer uma única refeição para si e seu filho e, depois disso, morrerem lentamente de inanição. Deus multiplica o alimento para ela e seu filho! Deus provocou a seca no território do deus da chuva e ainda sustentou uma de suas adoradoras.
Eu aprendo aqui que as crises que enfrento podem me levar a depender de Deus como normalmente não dependo e experimentar os cuidados dEle, como em situações normais eu não experimento. Pois tais situações nos levam a sair de onde estamos e ir a outro lugar, nos impulsionam a buscar e depender mais de Deus.
Eu também aprendo que Deus pode enviar ajuda de onde eu menos espero.
Da necessidade de Elias, Deus cria uma oportunidade para abençoar ele mesmo e fazer com que aquela mulher e seu filho também fossem abençoados.
Permita que Deus te redirecione pelos imprevistos, dificuldades ou até seus aparentes fracassos. Deixe que Ele te sustente como se você nada tivesse ou nada pudesse fazer e você experimentará grandes coisas em seu relacionamento com Deus.
Os milagres que de Deus faz não são só sobre você (1 Reis 17.17-24)
Como normalmente acontece na vida, as coisas mudam repentinamente e, às vezes, a tragédia nos atinge. Foi isso que aconteceu com a família daquela viúva: a doença chegou repentinamente no menino e ele veio a falecer. Ela, desolada, acha que é sua culpa, por causa dos pecados que cometera no passado. Ela aponta a si mesmo como a culpada pela morte do seu filho:
“Veio para lembrar-me de meus pecados e matar meu filho” (1 Reis 17.19)
Mas ela mal sabia que na “Escola do Sofrimento” é onde aprendemos as lições mais preciosas e temos a oportunidade de conhecermos a Deus como nunca antes.
Elias era um homem que conhecia e confiava em Deus como poucos, mas até mesmo os filhos amados de Deus também passam por dúvidas e aflições. Em sua angústia ele questiona:
“Por que trouxeste desgraça a esta viúva que me recebeu em seu lar e fizeste o filho dela morrer? […] Ó Senhor, meu Deus, por favor, permite que a vida volte a este menino!” (1 Reis 17.20, 21).
Consigo até enxergar Elias em sua angústia e desolação. Porém, ele conhece o Senhor e confia nele. Então, ele vive algo extraordinário: o menino revive! E para nos ajudar a entender ainda mais o que estava acontecendo aqui, você precisa saber que Baal era também conhecido como aquele que traz a vida, e aqui, quem traz o menino a vida é Yahweh.
Quando Deus quer que O conheçamos como poucos, Ele nos submete a situações adversas, duras e até mesmo impossíveis e nestas situações quando confiamos, Ele se revela a nós. Nos processos mais improváveis, somos conduzidos a conhece-Lo como poucos. Mesmo sem entender, ou quando “eu” acho que tudo se trata de “mim” ou será para o “meu bem”, o que Deus faz em nossas vidas envolve sempre outros e até mesmo aquilo que nos aflige pode ser usado para consolar outros (1 Co 1.4).
E, muitas vezes, quando você acha que vai “ajudar a viúva” é a viúva que vai te ajudar a conhecer um pouco mais a Deus.
Minha oração por você é que você e compreenda que mesmo quando as coisas saem do nosso controle, elas continuam sobre o controle de Deus. Que você se lembre que Deus é especialista em fazer milagres e que quando uma porta se fecha bem na nossa cara, podemos ter a certeza que Deus abrirá outra que tem tudo a ver com o que Ele quer fazer em sua vida. Lembre-se, também, que a vontade dEle é sempre boa, perfeita e agradável.