Pão pomerano feito de raízes e farinha de milho vira patrimônio imaterial do ES

Quem frequenta as feiras livres na Grande Vitória e em alguns municípios do interior do estado talvez já tenha observado que os feirantes pomeranos vendem um pão chamado brote. Esse pãozinho gostoso é feito de farinha de milho e raízes como mandioca, batata-doce e cará, além de sal e fermento caseiro. O brote foi criado pelos pomeranos que imigraram para o Espírito Santo lá pelos idos de 1859. Agora, com a aprovação e a promulgação do Projeto de Lei 28/2023 pela Assembleia Legislativa, o brote virou patrimônio cultural imaterial do estado.

Conforme consta no site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. 

Para o superintendente de Cultura da Secretaria de Cultura de Santa Maria de Jetibá, Renato Strelow, reconhecer o brote como patrimônio cultural imaterial do Espírito Santo reforça ainda mais a história e o destaque do alimento. “O brote é um símbolo da cultura pomerana. Um símbolo de resistência, de sofrimento e de luta. Ele alimentou os primeiros imigrantes, sendo o principal alimento durante décadas”, enfatiza. 

Segundo Strelow, o brote acompanhou os movimentos migratórios internos. Saiu de Santa Maria de Jetibá e seguiu sentido norte do Espírito Santo junto com os descendentes de pomeranos, nos anos de 1920, e atravessou o Rio Doce junto com os colonos que foram para a região de Itueta, em Minas Gerais. Com a ida de muitos descendentes de pomeranos para Rondônia nos anos 1970, a receita também chegou até lá.

De acordo com Strelow, o primeiro registro do brote é relatado pelo imigrante Joachim Holz em um jornal de 1935. Ele resume pra gente a história: “Joachim imigrou com a família em 1857, tinha apenas 5 anos de idade e, em seu relato, diz que muitas vezes sua família passava fome. Quando colheram o milho, cujas sementes o pai conseguiu com alguns brasileiros, o pai fez um buraco em uma pedra e com um toco socava os grãos até virar fubá. Desse fubá, a mãe misturava com algumas raízes e a massa se tornava molenga e gosmenta. Após a mãe assar eles tinham o ‘pão’. A partir desse relato, temos oficialmente o registro do brote, uma vez que a palavra brote, em alemão, é “brot” que significa pão”, explica o superintende de Cultura de Santa Maria de Jetibá. 

Joachim e a família imigraram para a Colônia de Santa Leopoldina, na região de Luxemburgo, que era chamada de Pomerânia, localizada no atual município de Santa Leopoldina. Naquela época, diz Strelow, não existia a Alemanha, que só se tornou um estado unificado a partir de 1871. “Os imigrantes que vieram antes disso, vieram de pequenos reinos, ducados ou principados. A Pomerânia era um desses. Ela foi parte do reino da Prússia e passou a ser parte do império alemão depois de 1871. Os próprios imigrantes pomeranos se denominavam alemães. A germanização da Pomerânia começou por volta de 1.200. Desde então, sempre foi território alemão, nunca foi um país e, sim, um estado. A palavra brote vem do alemão brot ou do PommerischPlatt (pomerano) brood.

Uma história de família 

A professora aposentada Marineuza Plaster Waiandt vive num lugar chamado Alto Santa Maria, a 18 quilômetros da sede de Santa Maria de Jetibá. Lá, ela tem uma propriedade rural e recebe turistas que buscam conhecer a cultura pomerana. Segundo ela, na Pomerânia, o pão era feito de farinha de centeio, farinha de aveia e farinha de cevada, pois lá não havia o hábito de se consumir farinha de milho. No Brasil, por não terem acesso aos tipos de farinha aos quais estavam acostumados, os imigrantes tinham que improvisar. “Não foi fácil. Foram muitas tentativas para se chegar ao brote porque tinha que ter um equilíbrio entre as raízes”, argumenta Marineuza. 

A professora aposentada ensina que, em pomerano, o brote é chamado milchebrood, palavra que significa pão (brood) de milho (milche). Ela conta que aprendeu sobre o brote com os bisavós, com os avós e com os pais dela. “Eu convivi com meus bisavós, que nasceram na Pomerânia. Minha bisavó faleceu com 98 anos e não falava português. Eu tive o privilégio de conviver com ela até os meus 11 anos”, relata.

Marineuza diz com orgulho ter aprendido muito sobre a história de seus antepassados com a própria família. “Meus familiares sempre foram muito contadores de história. Eu fui privilegiada porque sei fazer todos os pratos da culinária pomerana. Minha avó faleceu em 2006, eu já tinha mais de 40 anos. Meu pai faleceu tem dois anos e minha mãe tem um ano. Na semana em que meu pai faleceu, ele ainda me ensinou uma parlenda (pequenos versos, com ou sem rimas, e não necessariamente com algum sentido) que eu não conhecia”, conta a professora aposentada, cujos ascendentes são todos pomeranos. “Até o ponto que consegui investigar, e eu estou na 12ª geração. Meus filhos têm o privilégio de saber quem são os heptavós deles”.  

Pão pomerano feito de raízes e farinha de milho vira patrimônio imaterial do ES
Delícias da culinária pomerana – Fonte: Setor de Comunicação da Prefeitura de Santa Maria de Jetibá

Marineuza menciona que sempre ajudou a fazer brote em casa porque, segundo ela, na família pomerana, a criança convive com os pais o tempo todo, e de tudo o que os pais fazem as crianças participam. Fosse produzindo brote, biscoito, linguiça, ela estava sempre por perto. “Não só na minha vida, mas na vida do pomerano o brote é um dos elementos mais importantes que existe, porque ele é extremamente nutritivo, ele não traz substâncias prejudiciais porque ele é feito de uma forma bem saudável, é um alimento praticamente completo”, explica. 

A Marineuza detalha pra gente como é feito o pão de milho pomerano, que tem uma consistência bem mais firme que a do pão feito de trigo. O brote, segundo ela, é fermentado como pão, só que com fermento caseiro, apesar de hoje em dia algumas pessoas já fazerem com fermento industrializado. Os ingredientes do brote são: fubá de milho branco e raízes como inhame, batata-doce e cará. Não leva gordura, ovos nem açúcar. Só o fubá e as raízes. As raízes são raladas e escaldadas na água fervente e aí se acrescenta o fubá, o sal e o fermento caseiro. 

O brote é consumido no café da manhã, no café da tarde e, muitas vezes, no jantar também. Isso porque, de acordo com Marineuza, as mulheres pomeranas sempre trabalharam muito na roça, junto com o marido e a família inteira. Fazer o jantar demandava muito tempo, então o jantar era um tutu de feijão chamado tutu de frigideira ou o brote.

“Eu prefiro muito mais um brote com queijo frito, uma linguiça ou ovo frito do que comida de sal. Com coalhada, geleias, carne de porco frita. Geralmente, no café da manhã e da tarde, vai bem com coalhada e com geleia, às vezes linguiça defumada também se usa no café da manhã”, esclarece Marineuza.

Na mesma massa do brote é possível misturar banana nanica amassada, assim, a massa fica naturalmente mais adocicada – porque já tem o doce da batata-doce – e com o sabor da fruta. Para assar o brote, é preciso ter um forno à lenha, onde o pão é colocado em cima de folhas de bananeira. “Assa-se em forno à lenha porque precisa de uma temperatura de mais ou menos 400 graus, o que não se consegue com um forno normal de casa. E se colocar o pão em fôrma ele não assa direito as duas partes, na folha de bananeira ele fica dourado dos dois lados”, ensina a professora aposentada.

Rotas turísticas

Quem deseja conhecer mais sobre a cultura pomerana, fica ligado aqui! Segundo a Secretaria de Estado de Turismo (Setur), na Região dos Imigrantes, duas rotas turísticas se destacam por preservar e celebrar a rica herança cultural pomerana: o Circuito Turístico Caminho Pomerano e o Circuito Turístico das Três Santas. 

“Essas rotas não só oferecem paisagens deslumbrantes com reservas naturais, montanhas, vales e cachoeiras, como também proporcionam uma imersão na história e nas tradições dos descendentes de imigrantes europeus, especialmente pomeranos, italianos, alemães, austríacos e poloneses”, explica a Setur em nota.

De acordo com a Secretaria de Estado de Turismo, o Circuito Turístico Caminho Pomerano: Encantos de Garrafão está localizado em Santa Maria de Jetibá e é um convite para vivenciar a autêntica cultura pomerana. O roteiro inclui diversas propriedades rurais onde os visitantes podem desfrutar a hospitalidade local e a culinária típica, que mistura tradições europeias com ingredientes brasileiros. Entre os destaques gastronômicos estão o brote de milho, o bolo ladrão, o arroz-doce e a aguardente de gengibre.

Alguns dos pontos imperdíveis do Circuito Turístico Caminho Pomerano incluem: Sítio Nosso Recanto, Recanto da Pedra, Steinerland, Recanto Nosso Lar, Waiands Huus – Casa Típica Pomerana e Culinária Pomerana, Sítio Hammer Tesch, Lucineia Flores, Café Pomerano, Sítio Vale Verde, Recanto da Natureza e Recanto das Águas.

Já o Circuito Turístico das Três Santas proporciona uma jornada por três cidades marcadas pela forte influência da imigração europeia: Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa e Santa Leopoldina. Conforme enfatiza a Setur, esse circuito oferece uma experiência autêntica e emocionante, em que a história e o modo de vida dos imigrantes são preservados e compartilhados com os visitantes.

“Além das belezas naturais e da riqueza cultural, o circuito é famoso por sua gastronomia diversificada. Os turistas podem degustar especialidades como Milchbrot, Spitzbuben, Käsekuchen, Streusel Kuchen, Strudel, biscoitos caseiros de nata, polvilho ou amanteigado, e pratos salgados como linguiça de carne de boi, queijo tipo puína e schmierkase, Blutwurst, Firsichup e arroz-doce. A cervejaria Três Santas, em Santa Teresa, é um destaque especial, oferecendo um cardápio baseado na gastronomia das Três Santas e pratos pomeranos”, destaca a Secretaria de Estado de Turismo.

Caminho Pomerano

E se depender do deputado estadual Adilson Espíndula (PSD), autor do projeto que tornou o brote patrimônio cultural imaterial do Espírito Santo, em breve o estado terá também um roteiro turístico chamado “Pomerweeg – Caminho Pomerano”. O objetivo é relembrar os passos migratórios dos pomeranos desde a chegada ao Porto de Vitória em 1859.

A proposta já foi apresentada na Assembleia Legislativa do Espírito Santo e está tramitando na Casa. Segundo o Projeto de Lei 301/2024, os municípios que integrarão o “Pomerweeg” são Vitória, Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá, Afonso Cláudio, Laranja da Terra, Baixo Guandu, Pancas, São Gabriel da Palha, Vila Valério, Vila Pavão, Itarana, Itaguaçu, Colatina, Governador Lindenberg, Domingos Martins e Santa Teresa. 

O deputado falou sobre o projeto para o site da Assembleia Legislativa. De acordo com Espindula, o objetivo da proposta é incentivar o turismo, além de valorizar a história e a cultura do povo pomerano no Espírito Santo, destacando sua trajetória e legado. “O projeto é um elo entre o passado e o presente, deixando também mais um marco para que as gerações futuras nunca se esqueçam de onde vieram”, defende o parlamentar.

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