Essenciais para a saúde pública e para o funcionamento das cidades, garis e coletores convivem diariamente com um desafio silencioso: a invisibilidade social.
Embora estejam presentes todos os dias nas ruas, avenidas e bairros, muitos profissionais relatam a sensação de não serem percebidos pela população.
A encarregada de campo Clautiane Grizotti Kiefer, de 46 anos, conhece bem essa realidade. Há 20 anos na mesma empresa e atualmente responsável pela coordenação de equipes em grandes avenidas de Vitória, ela afirma que pequenos gestos fazem diferença.
“Passamos às vezes despercebidos, mas basta um simples bom dia, um aceno ou um sorriso para nos sentir reconhecidos como pessoas, não apenas parte da paisagem.”
Clautiane lidera equipes em regiões movimentadas como Jardim Camburi, Mata da Praia, Jardim da Penha e Pontal de Camburi.
Ela trocou a área de Recursos Humanos pela limpeza urbana e afirma que a mudança foi radical.
“Foi uma mudança radical trocar o ar-condicionado e o horário de segunda a sexta, mas está sendo gratificante.”
Invisibilidade pode gerar sofrimento emocional
Segundo o PhD em Psicologia, Professor da UFES, CEO da Cognera – Saúde Mental Digital, Elizeu Borloti, a invisibilidade pública acontece quando trabalhadores deixam de ser reconhecidos como sujeitos sociais e passam a ser vistos apenas pela função operacional que exercem.
“Em profissões essenciais, como a dos garis, isso se manifesta de maneira muito evidente. Embora sejam trabalhadores fundamentais para a saúde pública e organização urbana, frequentemente recebem baixo reconhecimento social e pouca valorização simbólica.”
De acordo com o especialista, a ausência de reconhecimento pode provocar sofrimento emocional.
“A falta de valorização pode gerar sentimentos de desvalorização, humilhação silenciosa, perda de pertencimento social e redução do sentido subjetivo do próprio trabalho.”

Ele reforça ainda que existe uma relação consistente entre baixo reconhecimento social e aumento de sofrimento emocional.
“O modelo Desequilíbrio Esforço-Recompensa, desenvolvido pelo sociólogo médico Johannes Siegrist, propõe que o sofrimento relacionado ao trabalho tende a aumentar quando existe um desequilíbrio entre o esforço que o trabalhador realiza e as recompensas que recebe. Essas recompensas não envolvem apenas salário. Incluem também reconhecimento social, respeito, valorização profissional, estabilidade e sensação de dignidade no trabalho. Ou seja, quando a pessoa se esforça muito, exerce uma função importante para a sociedade, mas recebe pouco reconhecimento ou valorização, isso pode gerar um estado persistente de tensão psicológica. Ao longo do tempo, esse desequilíbrio aumenta o risco de estresse crônico, exaustão emocional, sofrimento psíquico e adoecimento mental.”
“As crianças quebram isso”
O gari Cesar Augusto de Amaral Marcelino afirma que já sentiu a indiferença da sociedade, mas diz que o carinho das crianças compensa muitos momentos difíceis.
“Eu sinto que as pessoas não me enxergam, mas não deixo isso me afetar. As crianças têm um carinho imenso quando estamos passando, e isso já quebra todo o restante.”
Wuidson de Macedo Geraldino também relata episódios de preconceito ao longo dos 26 anos de profissão.
“Muitas vezes éramos xingados. Dávamos bom dia e não recebíamos retorno. O pior eram os apelidos e a forma preconceituosa como algumas pessoas nos tratavam.”
Reconhecimento vai além do salário
Segundo Elizeu Borloti, o reconhecimento profissional não envolve apenas remuneração. “O reconhecimento inclui respeito, valorização profissional, estabilidade e sensação de dignidade no trabalho. Quando a pessoa exerce uma função importante para a sociedade, mas recebe pouco reconhecimento, isso pode gerar tensão psicológica persistente.”
O especialista destaca ainda que profissões ligadas à limpeza urbana acabam sendo naturalizadas pela população.
“A população percebe mais facilmente o resultado final — a cidade limpa — do que o esforço humano necessário para produzir esse resultado diariamente.”
“Gostaria que a população reconhecesse nossa importância”
Clautiane afirma que o desejo é que a sociedade compreenda o papel essencial da categoria.
“Gostaria que a população reconhecesse a importância da função para sua qualidade de vida e entendesse que nosso trabalho é essencial para evitar o acúmulo de sujeira e a proliferação de doenças.”
Ela destaca ainda que o maior orgulho está em cuidar da equipe e garantir segurança no trabalho.
“A conquista é diária ao ver transformada a imagem da cidade, proporcionando um ambiente mais digno, acolhedor e limpo.”









