O Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES) apresentou uma clara guinada negativa no perfil de suas demonstrações financeiras relativas ao primeiro semestre de 2026. Se por um lado a instituição financeira estatal manteve uma postura agressiva na concessão de novos financiamentos — registrando crescimento nas liberações —, por outro, a deterioração da qualidade do crédito e o aumento expressivo dos calotes forçaram uma retração drástica na rentabilidade do banco.
O número mais impactante do relatório contábil publicado pelo banco é a queda de 76% no Lucro Líquido, que encolheu de R$ 35,35 milhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 8,42 milhões no mesmo período de 2026.
A virada da inadimplência e a disparada nas provisões
O principal catalisador dessa retração no resultado líquido foi o vertiginoso aumento da inadimplência na carteira de crédito do banco. O indicador de operações em atraso acima de 90 dias — tido como a régua oficial de calotes do sistema financeiro — mais que dobrou, saltando de 3,50% em junho de 2025 para 7,37% no fechamento de junho de 2026.
A piora no cumprimento das obrigações financeiras por parte dos clientes concentrou-se, segundo o relatório da instituição, principalmente nos setores de Indústria, Serviços e Agricultura, além de contratos garantidos por Fundos Garantidores.
Diante do risco elevado de não recebimento, a diretoria do banco foi obrigada a acionar o freio de arrumação prudencial. As despesas com Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa (PCLD) e perdas com ativos financeiros dispararam 472,6%, subindo de R$ 6,43 milhões no 1S25 para expressivos R$ 36,82 milhões no 1S26. Essa sangria na receita operacional foi o fator determinante para minar a última linha do balanço do BANDES.
O raio-X dos números do 1º semestre de 2026
Lucro Líquido: R$ 8,42 milhões (-76,2% vs 1S25)
Inadimplência (> 90 dias): 7,37% (contra 3,50% no 1S25)
Despesas com Provisão de Crédito (PCLD): R$ 36,82 milhões (+472,6% vs 1S25)
Carteira de Crédito Total: R$ 751,3 milhões (+16,0% vs 1S25)
Desembolso de Crédito no Semestre: R$ 105,1 milhões (+30,0% vs 1S25)
Ativo Total: R$ 2,20 bilhões (-3,8% vs dez/2025)
Concessão cresce, mas Ativo Total encolhe
Mesmo em um cenário de aperto no crédito e alta de calotes, o BANDES manteve a estratégia de expansão do fomento. Os desembolsos de crédito direto atingiram R$ 105,1 milhões, um crescimento de 30% em comparação à primeira metade de 2025. O foco continuou sendo o financiamento ao investimento fixo (78% do total liberado) e o segmento de médias empresas (57%) e micro e pequenas empresas (27%).
No entanto, o movimento não foi suficiente para sustentar o crescimento do balanço como um todo. O Ativo Total do BANDES registrou uma retração de 3,8%, caindo de R$ 2,29 bilhões no fechamento do exercício de 2025 para R$ 2,20 bilhões ao final de junho de 2026.
Resiliência capitalizada e rating mantido
Apesar da forte compressão nos lucros e do avanço da inadimplência, a solidez patrimonial da instituição pública permanece preservada. O Patrimônio Líquido alcançou R$ 603,1 milhões (+9% na comparação anual), impulsionado pela rentabilidade acumulada de períodos anteriores.
Além disso, o banco exibe um confortável Índice de Basiléia de 47,32% — patamar consideravelmente superior ao mínimo exigido pelo Banco Central — e manteve pelo quarto ano consecutivo a nota máxima de crédito em escala nacional concedida pela agência Fitch Ratings, o selo AAA (bra).
O desafio do fomento regional
Os números do primeiro semestre de 2026 evidenciam o dilema enfrentado pelos bancos de desenvolvimento em momentos de desaceleração ou estresse financeiro sobre o setor produtivo: a necessidade de continuar irrigando a economia local versus a obrigatoriedade de proteger o balanço contra o calote sistêmico.
Para a segunda metade do ano, a capacidade de o BANDES recuperar suas margens operacionais dependerá diretamente da eficácia de suas ações de renegociação de dívidas e da contenção de novos focos de inadimplência em sua carteira ativa.










