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Mesmo considerada falida, política da “guerra às drogas” continua motivando a violência nas periferias de Vitória

Os confrontos, mortes e protestos nos bairros Andorinhas, Nova Palestina, Itararé e Morro do Cabral, em Vitória, voltaram a ganhar as manchetes. Para uns, “guerra do tráfico”, com disputas por pontos de vendas. Para outros, “guerra as drogas”, política de combate utilizada em vários países contra a legalidade e considerada falida.

Leia também: Após morte de adolescente, operações da polícia podem ser suspensas no Bairro da Penha

Dos moradores que acusam a Polícia Militar de entrar nos bairros atirando com muita violência, ao policial que diz “revidar a injusta agressão” porque traficantes dispararam primeiro, a “guerra” parte sempre da venda ilegal de drogas e cria grandes conflitos dentro das periferias da capital.

O especialista em segurança pública, Rogério Fernandes Lima, credita os atuais conflitos em Vitória a “guerra do tráfico”, especialmente entre o Bairro da Penha e Andorinhas. “Há uma ascensão muito forte desse grupo do Bairro da Penha. Eles estão bem agressivos com a questão hegemonia da rotina deles”.

Mesmo considerada falida, política da "guerra às drogas" continua motivando a violência nas periferias de Vitória
Vista do Bairro da Penha, em Vitória: 50 tiroteios só em 2021, até o mês de maio — Foto: Thais Rossi/ESHOJE

Bairro da Penha já teve 50 tiroteios em 2021 entre militares e traficantes

Questionado se a “guerra as drogas” é uma política perdida, ele respondeu com questionamentos. “Mas o que fazer? Liberar? Há essa questão muito social, se as pessoas não querem. Talvez um plebiscito sobre o que a  população acha. Eu, particularmente, sou contra. Precisa de ações do Estado. A própria Lei de Drogas (11.343/2006), na parte inicial, expõe uma parte do combate preventivo, porque entende que o usuário é doente e precisa de tratamento. Você tem que evitar que a pessoa adoeça. Mas o que o Estado tem feito?”.

O especialista cita o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), da Polícia Militar, enquanto um exemplo de política preventiva. “É muito bem visto pelas famílias e tem contribuído bastante para evitar que crianças entrem para o tráfico. Não acho uma guerra perdida. Precisamos de mecanismos para que o enfrentamento continue. Onde esta sendo plantada a maconha, a própria Lei fala que as terras onde são produzidas são expropriadas pelo estado. Precisamos que a cocaína e outras não entrem em território nacional”.

Quando o assunto é a facilidade financeira e os lucros altos que o tráfico proporciona, o especialista discorreu sobre falta de oportunidades no mercado de trabalho. O dado mais recente, de julho, aponta que 269 mil pessoas estão desempregadas no Espírito Santo.

“Hoje, o rapaz ou a moça tem um sonho de consumo e não encontra vaga no mercado de trabalho. Vai ingressar nessa “oportunidade” (tráfico), que entende fácil. Precisa dar oportunidades formais para que elas entrem no mercado de trabalho e seja combatido o grande traficante, para que ele não distribua essas drogas. O tráfico é uma empresa que quer expandir o negócio. Quando mais “lojas” existirem, melhor pra eles”.

Lima entende que, se por um lado, existe facilidade financeira, por outro, paga-se com a vida. “Se é preso ou perde a carga, tem que pagar. Se tem uma arma do fornecedor, tem que pagar. É uma roda. O tráfico, na questão do traficante, é viciante como o usuário. É até escravagista, porque não consegue sair, fica com um débito em se não paga com a vida. São duas questões, com alto risco. Existe o dinheiro fácil e a ostentação, em se mostrar popular, poderoso e que pertence a um grupo”.

Mesmo considerada falida, política da "guerra às drogas" continua motivando a violência nas periferias de Vitória
Foto: divulgação

Papel da Polícia Militar

Os grandes conflitos acontecem dentro das periferias. Então, qual o papel da Polícia Militar nisso tudo? O especialista diz que é preciso separar.

“Uma é a policia ostensiva, que vai patrulhar, abordar e, tendo flagrante, vai prender. Muitas vezes, é recepcionada por tiros e precisa reagir para prevenção. Mas temos da policia investigava, que recebe essa informação com equipe de inteligência e vai atacar esse ponto do tráfico de drogas. O tráfico é uma empresa criminosa que tem tentáculos, com armas, prostituição e coisas legalizadas para lavar dinheiro recebido do tráfico”.

Mesmo assim, ele reconhece que as ações dos governos devem passar pelo social, com escolas de qualidade, acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade e que precisam sobreviver.

Descriminalização?

Lima afirma não ser a favor da legalização das drogas, mas diz que a sociedade tem que decidir, tal qual em 2005, quando aconteceu um plebiscito sobre o porte de armas. “Que seja feito, para ouvi-los. Vai liberar? Os locais que liberaram foram produtivos ou não? Como controlar? O estado vai tributar?”.

Desmilitarização?

O especialista não é a favor de desmilitarizar a PM. “Não esta ai o problema. A Polícia Militar existe em vários lugares. O problema é o chamado ciclo completo da polícia. A mesma que prende, encaminha para o judiciário. Só três países fazem isso”.

Sobre as abordagens e entradas nas comunidades, ele afirma que a PM obedece a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), que tem matriz curricular nacional com “conteúdo humanístico muito grande”.

Lima diz que a carga de formação do policial aborda direitos humanos, direito constitucional, pena, processual, administrativo, filosofia, sociologia. “Será que nos temos uma visão pré-concebida do que seja a polícia? As vezes, não nos colocamos no lugar do outro, com empatia. A PM Tem princípios e trabalha muito a polícia comunitária, com interação da sociedade. Isso poderia ser mais intenso a partir do momento que conseguíssemos estar dentro da comunidade. Mas as vezes temos defasagem no efetivo e passam muito tempo atendendo chamados e fazendo interação, antes do ilícito ocorrer”.

Igualdade?

Por fim, Rogério Fernandes Lima também reconheceu que é preciso formar o jovem para estar preparado para entrar no mercado e subsidiar, “competindo em pé de igualdade”.

FOTO DESTAQUE: Thais Rossi/ESHOJE

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