A obesidade deixou de ser compreendida apenas como uma questão de peso por conta de disciplina ou escolhas alimentares. De acordo com o cardiologista e especialista em medicina do estilo de vida, Elson Paulozzi Nunes, a doença é um resultado da interação entre genética, neurobiologia, comportamento, ambiente e fatores sociais.
Em ‘A dieta do salgado’, o médico parte justamente dessa mudança de perspectiva para questionar a lógica de dietas baseadas exclusivamente em restrição e empenho.
O ponto de partida é uma cena comum nos consultórios: o paciente que pede desculpas pelo próprio peso ou por não ter conseguido emagrecer. Ao longo de 20 anos de medicina, Nunes reconheceu nesse ciclo parte da própria história. Na infância, conviveu com duas visões sobre a comida: o pai, cirurgião cardíaco, associava as refeições a colesterol e risco cardiovascular; a mãe, descendente de italianos, também as entendia como afeto, acolhimento e recompensa.
É dessa experiência que nasce a metáfora do título e de uma experiência ainda mais concreta: Nunes fez a dieta comendo três unidades de salgado, emagreceu ao entrar em déficit calórico, mas adoeceu e precisou ser internado. A vivência reforçou uma questão central do livro: não importa apenas quanto se come, mas o que se coloca no prato. A partir daí, a obra aborda genética, fome e saciedade, inflamação, ambiente obesogênico, alimentação, movimento, sono, estresse e hidratação, buscando entender as escolhas dentro da história de cada pessoa.
“Há pessoas que lutam contra a fome desde a infância. Outras precisam ser lembradas de comer. Há corpos que acumulam energia com facilidade quase automática. Outros parecem dissipá-la sem esforço consciente. Essas diferenças não começam no prato, nem no comportamento, nem na força de vontade. Antecedem a decisão. Antes da história, existe a herança biológica. Antes da escolha, existe um código interno que inclina o corpo para a saciedade ou o apetite, para a eficiência metabólica ou a economia energética, para a inflamação ou a adaptação”, escreve doutor Nunes.
Ao longo das páginas, o especialista também discorre sobre os limites de uma abordagem centrada apenas no emagrecimento. Para o médico, cuidar da saúde envolve observar o corpo, mas também entender os hábitos, as emoções, o contexto e as vivências que atravessam a relação com a comida. Na obra, ele não propõe substituir acompanhamento profissional nem oferece uma dieta pronta: apresenta referências científicas e práticas sobre alimentação, metabolismo e estilo de vida, enquanto defende que recaídas e mudanças graduais fazem parte do processo.
Em A dieta do salgado, Nunes transforma a experiência clínica e a própria história em uma reflexão sobre o que acontece quando o paciente deixa de ser tratado como alguém que precisa simplesmente “vencer” o peso e passa a ser compreendido em toda a complexidade de sua trajetória.










