A disputa do segundo turno das eleições estaduais no Espírito Santo traz consigo não apenas o embate de urnas entre Lorenzo Pazolini (Republicanos) e o governador Ricardo Ferraço (MDB), mas a iminência do encerramento de uma era na política capixaba. Pelo menos essa é a avaliação de quem viveu a construção desse sistema por dentro, como dirigente do PSB.
Em entrevista ao canal Sala de Decisão, Carlos Rafael, figura emblemática com 36 anos de filiação ao PSB-ES e ex-Secretário-Geral da legenda, fez uma leitura dura e sem rodeios do quadro eleitoral. Para o dirigente, a vantagem acumulada de quase 15% por Pazolini no primeiro turno (49,65% contra 34,06%) reflete o esgotamento de um grupo político que comanda o Palácio Anchieta há quase um quarto de século.
Mais do que prever a confirmação do resultado das urnas no próximo dia 25 de outubro, Carlos Rafael anunciou uma decisão pessoal marcante: deixará o PSB. “É com muita tristeza, mas com muita certeza de que fiz a minha parte”, desabafou.
O esgotamento do grupo no poder
Ao analisar os motivos de um governo avaliado como bom e realizador estar enfrentando uma margem desfavorável diante da oposição, Carlos Rafael aponta para o desgaste natural de uma permanência prolongada no comando do Estado.
“Um grupo de 24 anos provoca cansaço, exaustão. Tem os benefícios das entregas, e o povo comemora, mas ninguém se apega a obra — porque quem foi eleito tem que entregar. Perde até o sentido se não conversar e ouvir o povo. Não se cria sentimento.”
Para o socialista, o modelo de alianças e o peso da máquina estatal acabaram por sufocar o dinamismo da própria gestão:
“O jogo de interesses num grupo de 24 anos é como uma grande árvore: você vai pendurando todo mundo, e chega uma hora em que não cabem mais tantos interesses.”
Paralelo com 2014 e a força do “candidato solo”
O experiente militante relembrou a disputa de 2014 para traçar um paralelo sobre como candidaturas contornam grandes coligações partidárias para capturar o desejo de renovação do eleitorado:
“O poder tem que renovar seus votos todos os dias, como numa família. Em 2014, nós tínhamos tudo, quase 70 prefeitos assinando documento de apoio. E o Paulo Hartung foi garimpar quem não tinha mandato, ex-prefeitos. Esse candidato agora [Pazolini] fez o mesmo movimento. Ele foi determinado, quis fazer algo onde pudesse mostrar a diferença.”
Sobre o viés ideológico e o comportamento do gestor público na política moderna, Rafael foi enfático ao criticar posturas neutras ou em cima do muro. O PSB está coligado com Ricardo Ferraço, governador que não se posicionou, em nenhum momento da campanha seu espectro político. Como um recado, o ex-secretário-geral do PSB falou sobre isso taxando derrota.
“Essa mudança o mundo está exigindo. Esse radicalismo mostra uma tendência: quem estiver em cima do muro não vai ficar lá, vai cair. Quem se propõe a governar tem que dizer o que pensa, o que quer, quem ele é. Se você não consegue passar isso forte para o eleitor, já começa a perder.”
Desfiliação do PSB e recomeço político
Questionado sobre sua relação com o partido ao qual dedicou quase quatro décadas, Carlos Rafael confirmou que seu ciclo no PSB capixaba chegou ao fim. Ele defende que as agremiações precisam se adaptar aos novos tempos e que continuará ativo na política em uma nova legenda.
“A política mudou, e quem não se adaptar a isso, não reconhecer essas mudanças… Eu estou disposto a recomeçar nesse mundo novo. Não vou largar a vida partidária, mas estarei me desfiliando do meu partido após as eleições. Não vou me aposentar. Quero procurar um partido no qual eu possa implementar a visão que tenho de mundo e de sociedade.”
Oxigenação nos parlamentos: “Uma maravilha”
Apesar das críticas à inércia do Executivo, Rafael comemorou a taxa de renovação das urnas no Legislativo capixaba e na bancada federal (que ultrapassou os 50% na Assembleia Legislativa e chegou a 70% na Câmara dos Deputados): “Uma maravilha. Vai ter debate, vai ter política, não vai ter imposição. O eleitor brasileiro já deu sua contribuição e vai trazer mudança. O Espírito Santo chegou até aqui, dizem que está bem — e eu acho que está bem —, mas podia estar melhor.”










