Jovens insatisfeitos com o trabalho chegam às séries em meio ao debate da 6×1

Em “Amor da Minha Vida”, série do Disney+, crises amorosas são acompanhadas por fracassos profissionais, enquanto a protagonista vivida por Bruna Marquezine busca alguma estabilidade financeira. Já na americana “Adultos”, o desafio de cinco amigos de 25 anos é encontrar um trabalho e mantê-lo, numa trama que estreou de forma tímida e dobrou sua audiência ao chegar à segunda temporada.

Esse aumento repentino na popularidade da série mostra um interesse crescente por parte da geração Z de ver, refletidos nas telas, os anseios e frustrações atuais com o mercado de trabalho. A indústria nacional e estrangeira entendeu isso, e vem lançando nos últimos meses várias produções que fazem coro a esses temas.

Na HBO, a última temporada de “Euphoria” mostrou seus protagonistas em busca de carreiras, mas encontrando bicos ou empregos mal pagos e sem perspectiva de crescimento. Já “I Love LA”, outro sucesso inesperado, foi renovada para que pudesse expandir a tentativa dos personagens de ascenderem numa indústria do entretenimento marcada pelo que muitos considerariam uma relação de trabalho predatória.

Para Luíza Fazio, roteirista de “Amor da Minha Vida” e “Sintonia”, a juventude “é um período formativo da vida, em que você quer ver seus anseios representados”. Isso justificaria a tendência de agora, que ganha corpo também com “Inapropriados para o Trabalho”, “Sterling Point” e “Too Much”.

Indo além dos Estados Unidos, e comprovando que essa desilusão com o mercado é global, há ainda a inglesa “Queenie”, a alemã “Oh Hell”, a polonesa “Orgulho” e a mexicana “Vgly”. “Estamos vivendo uma virada no mundo do trabalho e as gerações Z [nascida a partir da metade dos anos 1990] e Alpha [nascida após 2010] estão na linha de frente dessas transformações”, diz a roteirista Janaina Tokitaka, que escreve produções centradas na juventude.

No Brasil, o debate fica ainda mais quente após a aprovação, na última quarta-feira (14), da PEC que encerra a escala 6×1, definindo que trabalhadores tenham agora dois dias de descanso por semana sem redução de salário. É mais uma transformação que vai mexer com as dinâmicas de trabalho atuais.

Segundo o Diagnóstico da Juventude Brasileira do Ministério do Trabalho e Emprego, 25% da população entre 25 e 29 anos desiste da posição que ocupa no trabalho em menos de um ano. A protagonista de “Amor da Minha Vida” sonha em virar atriz, mas alterna entre bicos de modelo e garçonete para completar a renda.

Já o estudo Gen Z and Millennial Survey, da empresa focada em serviços profissionais Deloitte, feito com cerca de 23 mil pessoas de 44 países, concluiu que quase metade dos membros dessas gerações não se sentem financeiramente seguros —um salto de 30% para 48% entre a geração Z e de 32% para 46% entre os millennials, do levantamento de 2024 para o de 2025. Mais da metade afirmou viver de salário em salário e mais de 80% disseram que o futuro financeiro é fonte de estresse e ansiedade.

Essas duas gerações foram estudadas a fundo por Fazio quando ela trabalhou na série “Sintonia”, uma das mais longevas obras brasileiras do streaming. Foram cinco temporadas entre 2019 e o ano passado. A série ilustrava o sonho da ascensão social por meio do funk.

Em moldes parecidos, o filme “Confia: Sonho de Cria”, lançado no ano passado no Globoplay, acompanha o funkeiro MC Cabelinho como um entregador de aplicativo aspirante a trapper. No Spotify, o trap e o funk são os gêneros mais escutados entre jovens de 13 a 24 anos.

Em meio à ideia de precarização associada a carreiras tradicionais, surgem, portanto, aspirações que refletem a sociedade contemporânea, pautada pelas redes sociais e pela promessa de fama trazida por elas. Além de carreiras como as de músico e ator, uma nova possibilidade se apresenta a muitos jovens — a de influenciador, que aparece nas já citadas “Euphoria” e “I Love LA”.

Nas novelas, Tilde, de “Quem Ama Cuida”, caiu nas graças do público graças aos vídeos que grava para ficar famosa na internet, muitas vezes mostrando os problemas do dia a dia como empregada doméstica da vilã Pilar. Em “Dona de Mim”, L7nnon, um dos maiores expoentes da nova geração do rap e do trap nacional, usa a música para mudar de vida.

“Fui às batalhas de rima, perguntava para os moleques fãs de rap o que os fascinava no L7nnon ou na Tasha e Tracie”, diz o roteirista Juan Jullian sobre sua experiência na novela. “O trabalho do roteirista é estar atento ao que acontece na sociedade. Se você perguntar para uma criança o que ela quer ser quando crescer e ela disser tiktoker ou youtuber, é preciso levar isso à dramaturgia.”

Criar pontes entre faixas etárias e traduzir o comportamento da juventude são marcas do trabalho de Jullian. “Já vimos o estereótipo da geração Z, a caricatura do jovem autocentrado, hiperconectado, que esvazia pautas sociais. Mas não podemos ignorar os recortes, pois o lugar onde você mora, a cor da sua pele, sua orientação sexual e identidade de gênero afetam sua existência no mundo.”

Absorver os debates e a comunicação online são estratégias. De acordo com a roteirista Ana Ono, da Miss Sunshine Filmes, produtora formada por mulheres, há uma pressão das plataformas para dialogar com os jovens. “Canais querem atrair essa geração porque ela ainda não representa uma porcentagem alta de assinantes.”

Uma das séries que parece ter conseguido encontrar uma boa fórmula — os serviços de streaming não costumam divulgar dados de audiência, mas a repercussão nas redes e a renovação para novas temporadas dá lastro ao sucesso — foi “Adultos”.

Inspirada em “Seinfeld”, “Friends”, “How I Met Your Mother” e “Girls”, outras sitcoms americanas que marcaram época por refletir os desejos e frustrações das gerações que formavam seu público-alvo, a produção acompanha amigos que vivem em Nova York e se candidatam a centenas de vagas de emprego.

Na busca por estabilidade, eles falam coisas erradas no escritório, mentem para colegas de trabalho e vasculham as próprias redes sociais para apagar publicações comprometedoras.

“Não é nossa culpa que tivemos acesso à internet no auge da nossa estupidez e do nosso tesão”, diz o personagem Samir, interpretado por Malik Elassal, ao deletar posts racistas e homofóbicos. Ao se comportar de maneira inadequada em uma entrevista de emprego, ele desiste do mundo corporativo para virar entregador de aplicativo. Criada pelo casal Ben Kronengold e Rebecca Shaw, “Adultos” usa o humor para falar dos perrengues de quem está começando a carreira.

Já a personagem Issa, vivida por Amita Rao, tem um cargo de meio período e ganha trocados no site adulto OnlyFans, outro que tem surgido aos montes nos filmes e séries, com personagens igualmente desiludidos com o mercado de trabalho, como é o caso de “Margô Está em Apuros” —ou, no título original mais revelador, Margô tem problemas de dinheiro.

Janaina Tokitaka, a roteirista, reforça o interesse no assunto ao revelar que está desenvolvendo duas produções para o Amazon Prime Video que abordam o início da vida profissional da juventude brasileira.

“Trabalho, para os millennials, poderia ser algo glamoroso ou aspiracional, um chamado, o reconhecimento do seu talento. “Hoje, estamos mais céticos e pragmáticos em relação a esse universo”, diz ela.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – ISABELA YU

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas